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algum tempo que venho ouvindo com curiosidade e agrado uma voz de mulher que impressiona
pela firmeza, pela limpeza do som, pela naturalidade da afinação.
É uma voz que ouvi primeiro casualmente no rádio do carro e que
sempre me fez parar para atentar e me perguntar: quem é essa cantora que
tem a emissão lisa (sem vibratos) mais impressionante que ouvi em muito
tempo? De quem é essa voz encorpada e delicada, de quem são esses
glissandos seguros e de grande efeito experimental sem sombra de vulgaridade?
Aprendi
o nome de Rita Ribeiro ao encontrar as respostas a essas perguntas. Agora, em
parte num movimento de buscar usos significativos para suas invenções
vocais, Rita desenvolveu esse projeto a que deu o nome de Tecnomacumba. Os cantos
e toques das religiões afro-brasileiras e sua sintonia com os ritmos desenvolvidos
no uso de instrumentos eletrônicos. O resultado é rico, honesto e
sugestivo. O
disco é um produto de nível profissional impecável, uma prova
de que o Brasil anda com as próprias pernas. As combinações
rítmicas e timbrísticas das programações eletrônicas
com os instrumentos tocados por gente são equilibradas. O repertório
é uma antologia de composições sobre o tema das religiões
africanas no Brasil - sempre emolduradas por cantos saídos diretamente
dessas práticas religiosas. Às vezes somos levados a nos perguntar
coisas como, por exemplo, se o canto sobre Tempo ecoa as lavadeiras de Monsueto
ou se o samba de Monsueto é que foi tirado daquele canto. Assim, há
um rendado de motivos, uma rede de lembranças e referências que dão
uma textura interna especial ao trabalho. O resultado fica mais para um pop elegante,
em que uma boa banda de acompanhamento é temperada por sons tecno, do que
para um mergulho radical no mundo dos batuques e da eletrônica. Mais uma
vez, o que ressalta é a voz de Rita, sua segurança simpática
(isso não é fácil nem freqüente), seu timbre cheio,
seus ornamentos chiques porque personalíssimos, sua nobreza maranhense.
Esse
disco tem um futuro intrigante e pode vir a dizer mais do que parece agora. Vamos
ouvir e esperar. |