| PARA
OUVIR, DANÇAR E CELEBRAR
Depois de encantar platéias pelo
Brasil com o surpreendente show Tecnomacumba, a cantora Rita Ribeiro põe
na praça, pela gravadora Biscoito Fino, um CD homônimo e igualmente
sedutor em sua proposta musical. Tecnomacumba é mais que um disco de músicas.
É uma intervenção cultural que coloca a maranhense Rita Ribeiro
entre as mais musicais, criativas, sensíveis e afinadas intérpretes
da MPB surgidas dos anos 90 pra cá. Cada vez mais consciente do caminho
que escolheu para trilhar no terreno musical, Rita Ribeiro não só
assinou com o guitarrista Israel Dantas na produção desse seu quarto
CD como arranjou uma de suas canções - o "Canto para Oxalá",
de domínio público. Sem perder a qualidade de um disco de música-popular-pop-de-raiz-brasileira,
capaz de incendiar as pistas de dança e, ao mesmo tempo, emocionar, Tecnomacumba
busca mostrar as intersecções entre a MPB, sons eletrônicos
e as cantigas, pontos e rezas das religiões afro-brasileiras (de orixás,
voduns e inquices e também as de caboclos e pretos velhos) eivadas de sincretismos
católicos e kardecistas.
O prefixo tecno, entretanto, quer dizer
menos música eletrônica e mais tecnologia, no sentido de atividade
humana que produz a cultura. Graças à tecnologia Oxóssi construiu
seu ofá e Ogum forjou, do ferro, as suas armas, segundo a mitologia africana.
Graças à tecnologia o homem construiu para si tanto os primitivos
tambores quanto os contemporâneos sintetizadores, sem falar dos meios de
comunicação capazes de globalizar o que é local e vice-versa.
Conexões entre aspectos culturais locais com o que é globalizado
não são novidades na história da música. Mas depende
de cada artista promover o desvio ou se repetir. Rita Ribeiro promove um desvio
significativo. Não por acaso ela abre o CD com uma saudação
a Exu e, depois de saudar os outros orixás, desfila uma série de
pontos e cantos em homenagem às suas diferentes invocações
ou nomes (inclusive à sua faceta feminina, a pomba-gira), já que
nada se faz sem Exu, nem ruptura nem repetição. Exu é aquele
orixá que pode romper a tradição e promover a mudança.
Ele é o próprio movimento da vida. E, em consonância com Exu,
Tecnomacumba não é tradição - é tradução. Rita
Ribeiro retoma aquele sentido amplo que a música tem para os negros africanos:
o de que a música não se presta apenas à fruição
estética e ao prazer - ela é meio de transmissão de conhecimentos
entre diferentes gerações, logo, fundamental para a cultura de um
povo; aquele sentido de que a música é um meio de comunicação
entre o mundo dos homens e o mundo sagrado (por isso, canta-se muito nos terreiros
de candomblé e umbanda, sobretudo, para celebrar o prazer de viver, dançar
e se divertir); o sentido de que a música - sempre produzida pelos tambores
- é condutora de axé, a força sagrada da vida.
Tecnomacumba
resgata o sentido amplo da música e revela que a MPB deve muito às
religiões afro-brasileiras. E, para tanto, Rita Ribeiro não canta
só aquilo que é evidente nesse sentido, como as canções
"Rainha do mar", clássico de Dorival Caymmi, e "Iansã",
de Caetano Veloso. Ela apresenta, totalmente recriadas, canções
quase esquecidas como "Domingo 23", do mestre Jorge Benjor; "Cavaleiro
de Aruanda", de Tony Osanah, gravada em 1973 por Ronnie Von; e "Coisa
da antiga", de Wilson Moreira e Nei Lopes, já gravada por Clara Nunes
(aliás, nesta, Rita Ribeiro, de maneira genial, reconhece uma reverência
aos pretos velhos da umbanda).
As interpretações e a textura
musical de cada canção são de uma riqueza que só mesmo
uma artista com o talento e a criatividade de Rita Ribeiro poderia produzir. E
não se trata só da mistura que ela faz de música popular,
cantigas e pontos das entidades e sons eletrônicos, mas do fato de Rita
Ribeiro colocar a interpretação e a sonoridade à mercê
do orixá ou entidade reverenciada: ela é sublime ao interpretar
"Oração ao Tempo", de Caetano Veloso, contando com o auxílio
luxuoso do violinista Nicolas Krassik; ri e é sensual quando canta "É
D'Oxum" (Gerônimo/Vevé Calazans); coloca ecos na voz ao cantar
"Baba Alapalá", de Gilberto Gil, para saudar Xangô, o orixá
ancestral do reino de Daomé e senhor dos trovões; e põe tambores
vibrantes como são os ventos de Iansã em "A Deusa dos Orixás"
(Toninho/Romildo), também pinçada do repertório de Clara
Nunes. Sem contar que "Jurema" - ponto de domínio-público
já gravado por Rita Ribeiro em seu primeiro disco - aparece totalmente
recriado, mas não menos impactante. Aliás, foi a curiosidade das
pessoas em relação à sonoridade de "Jurema" que
levou a cantora a cunhar o termo "tecnomacumba" para explicá-la.
Outra canção já gravada por Rita Ribeiro em seu primeiro
disco é "Cocada" (Antônio Vieira), agora recriada em levada
drum'bass e dedicada aos erês.
Tecnomacumba ainda tem o mérito
de ser uma representação positiva da livre convivência entre
os credos num momento de crescente intolerância religiosa. E não
esperem dele o rigor de uma pesquisa acadêmica nem a chatice de um disco
hermético, para poucos. Tecnomacumba tem o sabor da tradição
oral. Veio para cair na boca do povo. Oxalá, tomara! Oxalá, Deus
queira!
[JEAN WYLLYS É ESCRITOR E JORNALISTA] |