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Eram os deuses velocistas?

Eles fazem parte de uma elite: a dos homens e mulheres mais velozes da face da terra. São os velocistas, os corredores que treinam mais de três horas por dia para resolver tudo em pouco mais de dez segundos

texto Roberto Ferreira e Aguinaldo Pettinati
fotos André Riciopo

No mundo do atletismo, não há nada igual. Quando os oito homens são apresentados um a um, em suas respectivas raias, a platéia vibra. São recebidos como deuses. Deuses que desceram do Olimpo para encantar o mundo com suas pernas voadoras. Homens de biótipo musculoso, que mais parecem Hércules prontos para as 12 tarefas, que vão decidir quem é o melhor, ou o mais rápido do mundo, em apenas 100 metros – intermináveis para alguns, curtos para outros.

Em todos os Jogos Olímpicos da era moderna, em que as provas de atletismo ganharam destaque, o dia dos 100 metros rasos é o mais esperado por todos, é a garantia de estádio lotado. O público espera ansiosamente o momento da largada. O ritual é o mesmo de sempre. Eles tiram seus agasalhos e exibem as roupas justas ao corpo, que realçam os músculos conquistados à custa de muito treinamento de musculação.

O ritual da largada demora mais do que a própria prova. Na apresentação ao público, cada um dá seu show particular. É um pulo estranho, um pique de 10 metros, um alongamento mais excêntrico ou tapas nas pernas. Vale tudo para chamar a atenção. Ou para desviar a atenção de outro competidor.

“Naquele momento, não vejo nada”, diz o velocista Cláudio Roberto de Sousa (“com ‘s’ mesmo”, faz questão de frisar). “Tenho de estar totalmente concentrado. Nem o burburinho do pessoal do estádio me desconcentra. A reação é instantânea. Não posso bobear, pois a prova é rápida. Se eu largar bem, a corrida está ganha”, comenta Sousa, medalhista de bronze do Campeonato Mundial de Atletismo com a equipe de revezamento 4 X 100 e medalha de ouro na mesma prova dos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, integrante da equipe BM&F/São Caetano.

Aos 30 anos, Sousa se confessa no melhor de sua forma. “A cada ano, estou melhorando um pouco. Por isso, acredito que vou melhorar minha melhor marca. E pode ser em Atenas, nas próximas Olimpíadas”, diz o atleta piauiense, que é casado e tem uma filha de 2 anos, Emili. Seu melhor tempo para os 100 metros é de 10”19, e, para os 200 metros, de 20”24.

Orgulhoso de seus tempos, Sousa afirma que o Brasil pode chegar ao pódio em Atenas no revezamento. “Nosso revezamento é muito respeitado. Apesar de não ter nenhum corredor que faz os 100 metros abaixo de dez segundos (os americanos têm pelo menos sempre dois ou três atletas com essa marca), temos um sincronismo de passagem do bastão muito forte”, diz.

E isso é conseguido com muito treinamento. “Os americanos e os ingleses ficam rindo enquanto treinamos exaustivamente a passagem do bastão. Só que, na prova, eles ficam muito preocupados, principalmente os ingleses, que não admitem perder para nós. E também tem o fator da raça, a vontade de vencer que baixa na equipe na hora da largada. A gente corre com o coração saltando pela boca”, avisa Cláudio Sousa.


O início

Para ser um velocista, não basta ter vontade. “É preciso nascer velocista”, informa o técnico da equipe BM&F/São Caetano, Katsuhico Nakaya, 46 anos, que integrou as equipes de revezamento do Brasil nas Olimpíadas de Moscou, em 1980, e nas de Los Angeles, em 1984, e foi para a final nas duas vezes.

“Com o treinamento, temos condições de fazer um bom velocista, mas só isso não basta. No treinamento intensivo e repetitivo, o atleta adquire a técnica e a mecânica ideais da corrida, mas o algo a mais, aqueles décimos de segundo importantes que limitam os medalhistas dos normais, é algo que está dentro do atleta. Nasce com ele”, esclarece.

Nakaya está todas as manhãs na pista de atletismo do Constâncio Vaz Guimarães, em São Paulo. O olhar clínico é capaz de captar como o atleta está naquele dia, por que não está rendendo o desejado e como e onde melhorar. Ele cuida dos velocistas da equipe, os atletas que fazem as provas de 100, 200 e 400 metros rasos e 100, 110 e 400 metros com barreiras.

“Os velocistas são especiais. Eles se preparam muito, treinam pesado, até mais do que qualquer outro atleta, e a prova deles dura pouco mais de dez segundos. Mas são os dez segundos mais emocionantes que pode haver em um evento esportivo.
É só ver a torcida de um estádio olímpico cheio na prova dos 100 metros rasos. Ela vai ao delírio”, conta o treinador, que já passou por essa experiência.

Segundo Nakaya, existem fases para moldar um velocista. “Os meninos de até 7 anos e as meninas de até 9 anos devem fazer um trabalho para melhorar a velocidade de reação e freqüência. Aos 9 e 12 anos, respectivamente, é a fase sensitiva à velocidade de reação e de freqüência, e passamos depois para o trabalho de força e velocidade mediana, na primeira fase, e depois para força, velocidade e resistência plena. Isso acontece nas faixas etárias de 12 para os homens e de 15/17 para as mulheres. Finalmente, quando os atletas já estão praticamente formados, vamos trabalhar mais intensamente a força e a resistência para a velocidade máxima. Aí, o velocista está pronto para enfrentar qualquer desafio”, diz.

O trabalho desses atletas é muito duro. São horas de exercícios na pista, de velocidade, coordenação, técnica, saltos, impulsões e resistência, sempre acompanhados por sessões de musculação para os membros inferiores. “Muita gente acha estranho ver um velocista fazer tanto trabalho de musculação e resistência. Mas, sem isso, ele não conseguirá desenvolver plenamente sua musculatura e ter explosão suficiente para vencer os 100 metros”, comenta Nakaya.

Os métodos de treinamento não mudaram muito ao longo dos anos. “Em meu tempo, a gente treinava resistência puxando um pneu de trator ou caminhão. Depois, todos ficaram impressionados com o corredor arrastando um pára-quedas na pista. Agora, temos equipamentos mais modernos, mas o conceito de treino de resistência ainda é o mesmo”, esclarece o técnico.

Os exercícios de técnica, desprezados por muitos atletas, são fundamentais para os velocistas. “São esses exercícios que vão apurar a técnica, dar o movimento natural da corrida. Em uma prova tão curta, todos os detalhes são muito importantes, como a posição das mãos na corrida, a correta elevação do joelho, a respiração. Enfim, busca-se a perfeição para vencer. E apenas aqueles que treinam muito é que podem chegar perto disso. É essa a diferença entre um corredor e um campeão. A perfeita coordenação de corrida facilita uma melhora técnica, uma maior economia de esforço e uma fluidez de movimento que se traduzirá na melhora da velocidade”, filosofa Nakaya.

Pré, durante e pós

Os velocistas devem fazer um trabalho muscular intenso, principalmente para os músculos posteriores da coxa, tendões de aquiles e patelas, locais onde há maior incidência de lesões. “São os músculos mais exigidos desses atletas”, avisa a fisioterapeuta Samara Gani, que há cinco anos acompanha atletas e faz um trabalho de osteopatia. “É preciso estar atenta aos treinamentos, ao lado do técnico, verificando a postura do atleta para fazer um trabalho preventivo que evitará lesões. O bom atleta é aquele que treina e compete com regularidade, que fica longe das enfermarias”, afirma.

No pós-treinamento, a fisioterapeuta está aplicando técnicas de ioga e RPG nos atletas. “É a primeira vez que uma equipe de atletismo está utilizando o método de RPG, e acho isso muito importante, pois os corredores têm um problema postural muito grande, principalmente dos membros superiores. Os velocistas fazem movimentos isométricos com os braços durante a corrida e isso contrai muito a musculatura, daí a importância desse trabalho”, informa Samara.


VIDA DE ATLETA

Cláudio de Sousa

Cláudio de Sousa nasceu em Teresina, Piauí, e na infância nem sabia o que era atletismo ou velocista. Só aos 15 anos foi atraído pelas provas de atletismo na escola pelo professor Ribeiro. “Participei dos Jogos Escolares e consegui classificação para os Jogos Estudantis Brasileiros. Fiquei correndo em Piauí até 1995, quando fui convidado pelo Sesi/ São Caetano para treinar em São Paulo”, conta. Formado em educação física, casado e com uma filha, Sousa participou de três Jogos Universitários Mundiais, e seu melhor resultado foi um 5o lugar em Pequim, em 2001, na prova dos 100 metros rasos.

“Prefiro correr os 100 metros, apesar de também fazer os 200 metros. É que nos 100 é largar, olhar para a frente e... pronto. Nos 200, não gosto de correr em curva, parece que vamos bater no outro competidor”, diz. Comer bem é com ele mesmo: “Gosto de tudo, mas às vezes tenho de evitar os doces para não aumentar muito o peso”.

Jarbas Mascarenhas

Morando sozinho em São Paulo, longe da família, desde o começo do ano, o velocista Jarbas Mascarenhas começa a perceber os frutos de sua dedicação e do trabalho forte com uma equipe de profissionais. Com o tempo de 10”21 na prova dos 100 metros do Troféu Brasil de Atletismo, ele não só marcou presença no Pan-Americano de Santo Domingo e no Mundial de Paris como também garantiu índice olímpico e se tornou o novo integrante da badalada equipe brasileira do revezamento 4 X 100 metros. “Para estar em Atenas, ainda preciso confirmar o índice B e esperar que minha marca não seja superada.”

Ex-atleta do Flamengo, Mascarenhas sentia sua performance prejudicada por não estar recebendo seu salário por dois anos. “Acabava ganhando apenas da Federação Carioca. O ruim disso tudo não é ganhar pouco, desde que seja combinado o valor antes. O pior é estar tudo acertado e não receber”, conta o atleta, que não se encontrava bem psicologicamente por essa situação.

Mascarenhas conheceu o esporte por intermédio de seus pais, que sempre o incentivaram. O menino, natural do bairro de Jacarepaguá, começou jogando futebol no Botafogo. “Minha posição era lateral.

Todos se surpreendiam com minha velocidade. Eu corria muito e aproveitava todos os lançamentos em profundidade, mas minha resistência era péssima”, confessa. Quando o horário de treino foi alterado para o período da manhã, Mascarenhas abandonou o futebol para não perder as aulas. Com 15 anos, na escola de esportes da Mangueira, ele iniciou sua trajetória no atletismo. “O resultado no Troféu Brasil me surpreendeu na hora, mas, analisando melhor, foram sete anos de muito esforço e treinamento. Eu conhecia meu potencial.”

Quando era juvenil, por um centésimo, Mascarenhas não bateu o recorde sul-americano pertencente a Robson Caetano, e acabou marcando 10”41. Agora, o atleta espera aproveitar ao máximo a experiência de seus colegas de seleção. “É uma nova responsabilidade manter a tradição do revezamento brasileiro, e quero ter esse aprendizado para amanhã colher os frutos”, afirma.

Antes das provas, o atleta gosta de ouvir música para se concentrar. “Gosto de pagode, mas em São Paulo fui apresentado à música black e achei muito boa.” Na hora da largada, Mascarenhas procura ficar atento e só pensar naquilo que está fazendo. “Apesar de meu melhor momento na prova ser da metade para o fim, preciso estar esperto, pois um detalhe define a competição mais rápida do atletismo.”

Robson Caetano e Arnaldo de Oliveira são alguns dos ídolos do corredor, que acredita que a mídia vem deixando de lado competições como os 100 metros rasos. “Na realidade, nossa prova é a mais assistida durante um evento de atletismo. Só falta maior veiculação na imprensa.”

Cozinha

Até há pouco tempo, Mascarenhas preparava a própria comida. Resultado: um verdadeiro desastre. “Sinto falta da atenção de meus familiares e da comida de minha mãe, enfim, de meus amigos e tudo o mais. Como estava me virando sozinho, abusava do macarrão e do arroz, mas ficava muito ruim.”

Sem se alimentar adequadamente, Mascarenhas sentiu que seu desempenho nos treinamentos não era o mesmo. “Para reverter essa situação, encontrei um restaurante por quilo perto de minha casa”, comenta.

Ainda sem conhecer bem a cidade, o carioca abusa do cinema. “Para não ficar muito tempo em casa, vou bastante ao cinema, assisto a qualquer filme”. Com saudade das praias da cidade maravilhosa, ele espera arrumar um tempo para conhecer os mares paulistas. “Só tive a oportunidade de estar na Praia Grande, mas pretendo visitar outros lugares.”

Estar longe da família, treinar horas, morar sozinho, sem os amigos, e ainda ter de testar todo o seu empenho em pouco mais de dez segundos: para Mascarenhas, todo esforço vale a pena. “Guardo tudo para o momento final da competição. Se você está fazendo o que gosta, com certeza vale a pena.”

Lucimar Aparecida Moura

A velocista mineira sabe que sua carreira durará apenas mais uns cinco ou seis anos. “Pretendo aproveitar ao limite esse momento e conquistar mais coisas com o esporte”, conta. “Por isso, ainda não penso em ter filhos, apesar de estar casada. Interromper minha carreira neste momento não seria um bom negócio.”

Com o apoio da família e oriunda da cidade de Timóteo, Lucimar começou treinando na escola, quando participava de pequenas competições, em 1998. “Enfrentei muitas dificuldades. Uma delas era viajar uma hora todos os dias para treinar em Ipatinga.”

O esforço da velocista é perceptível durante os treinos. Durante a musculação, mais precisamente nos exercícios de agachamento, ela consegue levantar a mesma quantidade de peso com a qual muitos atletas profissionais do sexo masculino sentiriam dificuldade. Totalmente concentrada, fica até difícil desviar a atenção da atleta para a entrevista.

Seus melhores tempos são 11”17 nos 100 metros e 22”60 nos 200 metros. Quanto ao sexo antes das competições, a atleta desmistifica. “Consegui uma grande marca depois de fazer sexo com meu marido. Acho que isso não tem nada a ver. O importante é não fazer apenas por fazer”, admite.

Como não poderia deixar de ser, a atleta também tem um sonho olímpico. Seus principais resultados são o 1o lugar no Troféu Brasil 2001, nos 100 metros rasos, 2o lugar nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg nos 200 metros rasos e 2o lugar no Troféu Brasil de Atletismo em 2002 nos 100 metros rasos.

Mesmo com todo esse potencial, a atleta também enfrentou problemas de salários atrasados até o começo do ano, quando veio para São Paulo. Ela já passou pela Usipa, Vasco da Gama, onde não recebeu, Prudente e agora BM&F, desde janeiro de 2003. “Minha sorte foi estar prevenida e ter guardado dinheiro para essa eventualidade”, desabafa.

Estudante de educação física, Lucimar diz que sua caminhada nas provas de velocidade foi natural. “Eu sempre gostei da velocidade, isso está em meu sangue.”

Para manter a forma, ela se alimenta sete vezes ao dia. “Gosto muito de massa, principalmente de lasanha. Essa é a receita para agüentar mais de quatro horas diárias de treinos variados.” Durante os treinos de base e pré-temporada, sua dieta é de carboidratos. Já na fase específica, a proteína ganha uma importância maior.

“Minha sorte é que eu não gosto muito de doce, por isso não passo vontade.”
Em relação aos treinos de homens e mulheres, Lucimar não vê grandes mudanças. “A diferença está no biótipo do atleta. Aqui, fazemos mais ou menos a mesma preparação.”

Em 2000, apenas 5 centímetros impediram que o saltador em distância Alex Ferreira participasse do Campeonato Mundial. “Por falta de apoio psicológico e estrutura, larguei o esporte e só agora retornei aos treinos”, conta o atleta do Pinheiros.
Segundo Ferreira, que tem como melhor marca no salto 7,50 metros, o segredo dos saltadores está na velocidade aplicada antes do salto. “Para obter sucesso no salto, o segredo é a corrida. Muitas vezes, você pode saltar sem técnica, compensando com a velocidade.”

O atleta sente a discriminação pelos atletas de velocidade. “Tudo começa por nosso corpo forte. Quando as pessoas percebem que sou um esportista, já vão logo perguntado se corro em maratonas ou provas de rua. Nunca imaginam que sou um saltador”, desfere.

Foi brincando, aos 11 anos, que Ferreira acabou sendo descoberto em Batatais (SP). Hoje morando com a mãe, o saltador ainda não está com a vida ganha, mas pode planejar seu futuro. “Espero dar continuidade à faculdade de psicologia, que fui obrigado a parar quando quase desisti do esporte.”

Como todo atleta, ele sonha em participar de uma olimpíada. Para isso, ele treina quatro horas por dia. “São treinos muito intensos. Em alguns deles, chego até a vomitar”, revela o atleta que, numa oportunidade, conseguiu atingir 8,10 metros, mas acabou queimando a linha do salto. “Com essa marca, eu seria um medalhista olímpico, por isso minha confiança em poder disputar grandes títulos.”

Mesmo treinando tanto para tudo se resumir em um salto de poucos segundos, Ferreira diz que o esforço vale a pena. “Quando se quer atingir um objetivo, é preciso treinar.”

Resumidamente, Ferreira começa seu treinamento por volta das 15 horas, com uma hora e meia apenas de aquecimento: alongamento e técnica de corrida. Depois, são tiros de 40 a 60 metros com pausas de 50 segundos. Por fim, a parte específica, com saltos alternados, na barreira, horizontais e verticais.

Robson Caetano

Atualmente trabalhando como comentarista da TV Globo, o carioca Robson Caetano da Silva, 39 anos, continua inspirando os jovens talentos que buscam a velocidade. Seus números revelam que ele é o maior velocista que já apareceu no atletismo brasileiro. Mais de cinco anos após o fim da carreira, ele ainda detém algumas das melhores marcas do continente, nos 100, 200 e 400 metros. Tanto é que um estudo canadense o coloca entre os cinco velocistas mais completos da década de 90, devido à soma de seus melhores resultados nos 100, 200 e 400 metros.

O recorde sul-americano dos 100 metros, com 10”00, conquistado em 1988, quando ganhou o bicampeonato ibero-americano na Cidade do México, continua com Robson Caetano. O recorde anterior da prova também pertencia a ele e fora estabelecido em 1986, quando ganhou seu primeiro título no Ibero-Americano, em Havana, com 10”02.

Robson Caetano, nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, conquistou seu último grande resultado: o bronze no revezamento 4 X 100 metros, com Arnaldo de Oliveira, Edson Luciano Ribeiro e André Domingos da Silva. Ele também é o terceiro no ranking sul-americano dos 400 metros, com 45”06.

Em 1988, dividiu o pódio dos 200 metros rasos das Olimpíadas de Seul com o maior atleta de seu tempo, o americano Carl Lewis, ganhador da medalha de prata em Seul nos 200 metros. Robson Caetano foi bronze e o vencedor foi o também americano Joe DeLoach.

Conquistas

Bronze olímpico nos 200 metros (Seul, 1988) e 4 X 100 metros (Atletas 1996); tricampeão dos 200 metros na Copa do Mundo (Camberra, 1985, Barcelona, 1989, e Havana, 1992); bronze no Mundial Indoor (Indinápolis, 1987); campeão dos 200 metros no Iaaf Grand Prix, 1989; campeão pan-americano dos 100 e 200 metros (Havana, 1991).

O homem do 4 X 100

Desde 1992 como técnico da equipe do revezamento 4 X 100 masculino, o técnico Jayme Neto, 42, coleciona medalhas. Bronze nas Olimpíadas de Atlanta, prata em Sydney e bronze no Mundial de Paris, o treinador busca a conquista que lhe falta: o ouro em Atenas.

“Nosso pensamento é primeiramente chegar à final olímpica, para depois ser pódio e por fim levar o ouro”, expressa o técnico da equipe Brasil Telecom/Unoeste. Sem dúvida, o Brasil destaca-se no revezamento por causa da troca de bastão.

Se analisarmos os tempos individuais dos atletas, vários países superariam o Brasil, inclusive a Jamaica. Só que o “jeitinho” e a técnica na hora de passar o bastão nos dão vantagem. “Desenvolvi a técnica em 1995. São pequenas variações na aproximação, na posição e no movimento do braço”, revela.

“Hoje em dia, temos oito atletas no Brasil em condições de participar do revezamento. A definição só vai sair no ano que vem”, afirma. Porém, Jayme Neto analisou as características de seus principais atletas que integram a equipe brasileira. Por coincidência, os velocistas treinam com ele em Presidente Prudente (SP) na equipe Brasil Telecom/Unoeste.

Vicente Lenílson – “Atleta com baixa estatura, mas de força elevada. Seu forte é a saída e a explosão. Porém, o que acumulou no início da prova acaba perdendo no fim.”

André Domingos – “Seu forte é a descontração, as passadas largas e a coordenação. Hoje, ele está passando a ser especialista nos 200 metros. Por causa de sua estatura avantajada, ele perde em força e acaba tendo dificuldades. Tem pouca hipertrofia.”

Claudinei Quirino – “Tem a altura adequada para a prova e uma ótima força natural, além de grande resistência. Sua segunda parte na prova dos 100 metros é quase insuperável.”

Edson Ribeiro – “Primeiro colocado no ranking nacional deste ano, é o mais forte da equipe, com 94 quilos e 1,90 metro, o oposto de Lenílson. Por causa de toda essa massa, ele tem dificuldade na aceleração, no início da prova.”

A mídia e os 100 metros

Para Neto, não é só a prova dos 100 metros que não recebe muito espaço na imprensa. “Todas as provas de pista não recebem a atenção merecida. É por isso que o Brasil está tão fraco na pista, até mesmo nas provas de fundo”, desabafa. Segundo o treinador, apenas as provas de rua têm destaque nos meios de comunicação.
Em sua opinião, faltam mais pistas de atletismo no Brasil. “Esse é um dos principais motivos para o atletismo não evoluir como deveria no país. Até no Chile existem mais pistas. Outro fator é a falta de incentivo nas escolas. Os jovens não são direcionados para a modalidade.”

Treino

Nos treinos de um velocista, de acordo com Jayme Neto, o importante é não gerar a fadiga muscular. “As fibras brancas são as responsáveis pela velocidade. Ao mesmo tempo que são mais velozes, elas são mais suscetíveis à fadiga. Como conseqüência, o atleta fica mais lento.” Por isso, a tônica de seus treinos é muita explosão e pouco volume.

Novos talentos

Entre os novos talentos que podem ocupar um espaço entre os velocistas, Jayme Neto cita duas revelações. O primeiro é Bruno Pacheco, de 20 anos, que superou o recorde juvenil de Robson Caetano, com 20”54. “Foi bastante inferior à marca anterior, de 20”95.”

Outra promessa é Jorge Célio, de 18 anos, que estabeleceu o recorde juvenil nos 100 metros com 10”36, contra 10”38 de Robson Caetano.

“Em meu entender, qualquer um dos atletas de ponta do Brasil, que fazem parte da seleção, têm condições de repetir marcas tão boas quanto as de Robson Caetano. O que devemos levar em conta é a altitude, o clima, os ventos; enfim, os fatores externos influenciam muito.”

A última de Quirino

Aos 32 anos, Claudinei Quirino disputará sua última olimpíada em 2004. Essa é a visão de seu técnico, Jayme Neto. “Isso porque Quirino começou tarde, com 21 anos. Ele era borracheiro e um amigo o convidou para treinar. Portanto, ele não sofreu tantos desgastes.”

Jayme Neto ressalta a importância de analisar a idade biológica e cronológica do atleta. “Existem atletas que começam a treinar com 12 anos. Aos 25, eles já têm 13 anos de treino. Se Quirino tivesse começado mais cedo, não acredito que ele ainda estivesse nesse nível.”

Futuro

Além dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, Neto já pensa no Mundial de Helsinque, em 2005. Seu plano, que ainda precisa ser aprovado pela CBAt, é realizar três campings de treinamentos, um no Brasil e dois no exterior, com oito atletas: seis adultos e dois sub-22.

Tabela
O técnico Nakaya montou uma tabela para mostrar quanto é o percentual de trabalho anaeróbico, lático e aeróbico nas provas de 100, 200 e 400 metros:
100 m 200 m 400 m  
30% 20% 10% anaeróbico
70% 75% 80% lático
5% 10% 15% aeróbico
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