Eram
os deuses velocistas?
Eles fazem
parte de uma elite: a dos homens e mulheres mais velozes da face
da terra. São os velocistas, os corredores que treinam mais
de três horas por dia para resolver tudo em pouco mais de
dez segundos
texto Roberto Ferreira e Aguinaldo
Pettinati
fotos André Riciopo
No
mundo do atletismo, não há nada igual.
Quando os oito homens são apresentados um a um, em suas respectivas
raias, a platéia vibra. São recebidos como deuses.
Deuses que desceram do Olimpo para encantar o mundo com suas pernas
voadoras. Homens de biótipo musculoso, que mais parecem Hércules
prontos para as 12 tarefas, que vão decidir quem é
o melhor, ou o mais rápido do mundo, em apenas 100 metros
– intermináveis para alguns, curtos para outros.
Em todos os Jogos Olímpicos da era moderna,
em que as provas de atletismo ganharam destaque, o dia dos 100 metros
rasos é o mais esperado por todos, é a garantia de
estádio lotado. O público espera ansiosamente o momento
da largada. O ritual é o mesmo de sempre. Eles tiram seus
agasalhos e exibem as roupas justas ao corpo, que realçam
os músculos conquistados à custa de muito treinamento
de musculação.
O ritual da largada demora mais do que a própria
prova. Na apresentação ao público, cada um
dá seu show particular. É um pulo estranho, um pique
de 10 metros, um alongamento mais excêntrico ou tapas nas
pernas. Vale tudo para chamar a atenção. Ou para desviar
a atenção de outro competidor.
“Naquele momento, não vejo nada”,
diz o velocista Cláudio Roberto de Sousa (“com ‘s’
mesmo”, faz questão de frisar). “Tenho de estar
totalmente concentrado. Nem o burburinho do pessoal do estádio
me desconcentra. A reação é instantânea.
Não posso bobear, pois a prova é rápida. Se
eu largar bem, a corrida está ganha”, comenta Sousa,
medalhista de bronze do Campeonato Mundial de Atletismo com a equipe
de revezamento 4 X 100 e medalha de ouro na mesma prova dos Jogos
Pan-Americanos de Santo Domingo, integrante da equipe BM&F/São
Caetano.
Aos 30 anos, Sousa se confessa no melhor de sua
forma. “A cada ano, estou melhorando um pouco. Por isso, acredito
que vou melhorar minha melhor marca. E pode ser em Atenas, nas próximas
Olimpíadas”, diz o atleta piauiense, que é casado
e tem uma filha de 2 anos, Emili. Seu melhor tempo para os 100 metros
é de 10”19, e, para os 200 metros, de 20”24.
Orgulhoso de seus tempos, Sousa afirma que o Brasil
pode chegar ao pódio em Atenas no revezamento. “Nosso
revezamento é muito respeitado. Apesar de não ter
nenhum corredor que faz os 100 metros abaixo de dez segundos (os
americanos têm pelo menos sempre dois ou três atletas
com essa marca), temos um sincronismo de passagem do bastão
muito forte”, diz.
E isso é conseguido com muito treinamento.
“Os americanos e os ingleses ficam rindo enquanto treinamos
exaustivamente a passagem do bastão. Só que, na prova,
eles ficam muito preocupados, principalmente os ingleses, que não
admitem perder para nós. E também tem o fator da raça,
a vontade de vencer que baixa na equipe na hora da largada. A gente
corre com o coração saltando pela boca”, avisa
Cláudio Sousa.

O início
Para ser um velocista, não basta ter vontade.
“É preciso nascer velocista”, informa o técnico
da equipe BM&F/São Caetano, Katsuhico Nakaya, 46 anos,
que integrou as equipes de revezamento do Brasil nas Olimpíadas
de Moscou, em 1980, e nas de Los Angeles, em 1984, e foi para a
final nas duas vezes.
“Com o treinamento, temos condições
de fazer um bom velocista, mas só isso não basta.
No treinamento intensivo e repetitivo, o atleta adquire a técnica
e a mecânica ideais da corrida, mas o algo a mais, aqueles
décimos de segundo importantes que limitam os medalhistas
dos normais, é algo que está dentro do atleta. Nasce
com ele”, esclarece.
Nakaya está todas as manhãs na pista
de atletismo do Constâncio Vaz Guimarães, em São
Paulo. O olhar clínico é capaz de captar como o atleta
está naquele dia, por que não está rendendo
o desejado e como e onde melhorar. Ele cuida dos velocistas da equipe,
os atletas que fazem as provas de 100, 200 e 400 metros rasos e
100, 110 e 400 metros com barreiras.
“Os velocistas são especiais. Eles
se preparam muito, treinam pesado, até mais do que qualquer
outro atleta, e a prova deles dura pouco mais de dez segundos. Mas
são os dez segundos mais emocionantes que pode haver em um
evento esportivo.
É só ver a torcida de um estádio olímpico
cheio na prova dos 100 metros rasos. Ela vai ao delírio”,
conta o treinador, que já passou por essa experiência.
Segundo Nakaya, existem fases para moldar um velocista.
“Os meninos de até 7 anos e as meninas de até
9 anos devem fazer um trabalho para melhorar a velocidade de reação
e freqüência. Aos 9 e 12 anos, respectivamente, é
a fase sensitiva à velocidade de reação e de
freqüência, e passamos depois para o trabalho de força
e velocidade mediana, na primeira fase, e depois para força,
velocidade e resistência plena. Isso acontece nas faixas etárias
de 12 para os homens e de 15/17 para as mulheres. Finalmente, quando
os atletas já estão praticamente formados, vamos trabalhar
mais intensamente a força e a resistência para a velocidade
máxima. Aí, o velocista está pronto para enfrentar
qualquer desafio”, diz.
O trabalho desses atletas é muito duro.
São horas de exercícios na pista, de velocidade, coordenação,
técnica, saltos, impulsões e resistência, sempre
acompanhados por sessões de musculação para
os membros inferiores. “Muita gente acha estranho ver um velocista
fazer tanto trabalho de musculação e resistência.
Mas, sem isso, ele não conseguirá desenvolver plenamente
sua musculatura e ter explosão suficiente para vencer os
100 metros”, comenta Nakaya.
Os métodos de treinamento não mudaram
muito ao longo dos anos. “Em meu tempo, a gente treinava resistência
puxando um pneu de trator ou caminhão. Depois, todos ficaram
impressionados com o corredor arrastando um pára-quedas na
pista. Agora, temos equipamentos mais modernos, mas o conceito de
treino de resistência ainda é o mesmo”, esclarece
o técnico.
Os exercícios de técnica, desprezados
por muitos atletas, são fundamentais para os velocistas.
“São esses exercícios que vão apurar
a técnica, dar o movimento natural da corrida. Em uma prova
tão curta, todos os detalhes são muito importantes,
como a posição das mãos na corrida, a correta
elevação do joelho, a respiração. Enfim,
busca-se a perfeição para vencer. E apenas aqueles
que treinam muito é que podem chegar perto disso. É
essa a diferença entre um corredor e um campeão. A
perfeita coordenação de corrida facilita uma melhora
técnica, uma maior economia de esforço e uma fluidez
de movimento que se traduzirá na melhora da velocidade”,
filosofa Nakaya.
Pré, durante e pós
Os velocistas devem fazer um trabalho muscular
intenso, principalmente para os músculos posteriores da coxa,
tendões de aquiles e patelas, locais onde há maior
incidência de lesões. “São os músculos
mais exigidos desses atletas”, avisa a fisioterapeuta Samara
Gani, que há cinco anos acompanha atletas e faz um trabalho
de osteopatia. “É preciso estar atenta aos treinamentos,
ao lado do técnico, verificando a postura do atleta para
fazer um trabalho preventivo que evitará lesões. O
bom atleta é aquele que treina e compete com regularidade,
que fica longe das enfermarias”, afirma.
No pós-treinamento, a fisioterapeuta está
aplicando técnicas de ioga e RPG nos atletas. “É
a primeira vez que uma equipe de atletismo está utilizando
o método de RPG, e acho isso muito importante, pois os corredores
têm um problema postural muito grande, principalmente dos
membros superiores. Os velocistas fazem movimentos isométricos
com os braços durante a corrida e isso contrai muito a musculatura,
daí a importância desse trabalho”, informa Samara.
VIDA DE ATLETA
Cláudio
de Sousa
Cláudio
de Sousa nasceu em Teresina, Piauí, e na infância nem
sabia o que era atletismo ou velocista. Só aos 15 anos foi
atraído pelas provas de atletismo na escola pelo professor
Ribeiro. “Participei dos Jogos Escolares e consegui classificação
para os Jogos Estudantis Brasileiros. Fiquei correndo em Piauí
até 1995, quando fui convidado pelo Sesi/ São Caetano
para treinar em São Paulo”, conta. Formado em educação
física, casado e com uma filha, Sousa participou de três
Jogos Universitários Mundiais, e seu melhor resultado foi
um 5o lugar em Pequim, em 2001, na prova dos 100 metros rasos.
“Prefiro correr os 100 metros, apesar de
também fazer os 200 metros. É que nos 100 é
largar, olhar para a frente e... pronto. Nos 200, não gosto
de correr em curva, parece que vamos bater no outro competidor”,
diz. Comer bem é com ele mesmo: “Gosto de tudo, mas
às vezes tenho de evitar os doces para não aumentar
muito o peso”.
Jarbas Mascarenhas
Morando
sozinho em São Paulo, longe da família, desde o começo
do ano, o velocista Jarbas Mascarenhas começa a perceber
os frutos de sua dedicação e do trabalho forte com
uma equipe de profissionais. Com o tempo de 10”21 na prova
dos 100 metros do Troféu Brasil de Atletismo, ele não
só marcou presença no Pan-Americano de Santo Domingo
e no Mundial de Paris como também garantiu índice
olímpico e se tornou o novo integrante da badalada equipe
brasileira do revezamento 4 X 100 metros. “Para estar em Atenas,
ainda preciso confirmar o índice B e esperar que minha marca
não seja superada.”
Ex-atleta do Flamengo, Mascarenhas sentia sua performance
prejudicada por não estar recebendo seu salário por
dois anos. “Acabava ganhando apenas da Federação
Carioca. O ruim disso tudo não é ganhar pouco, desde
que seja combinado o valor antes. O pior é estar tudo acertado
e não receber”, conta o atleta, que não se encontrava
bem psicologicamente por essa situação.
Mascarenhas conheceu o esporte por intermédio
de seus pais, que sempre o incentivaram. O menino, natural do bairro
de Jacarepaguá, começou jogando futebol no Botafogo.
“Minha posição era lateral.
Todos se surpreendiam com minha velocidade. Eu
corria muito e aproveitava todos os lançamentos em profundidade,
mas minha resistência era péssima”, confessa.
Quando o horário de treino foi alterado para o período
da manhã, Mascarenhas abandonou o futebol para não
perder as aulas. Com 15 anos, na escola de esportes da Mangueira,
ele iniciou sua trajetória no atletismo. “O resultado
no Troféu Brasil me surpreendeu na hora, mas, analisando
melhor, foram sete anos de muito esforço e treinamento. Eu
conhecia meu potencial.”
Quando era juvenil, por um centésimo, Mascarenhas
não bateu o recorde sul-americano pertencente a Robson Caetano,
e acabou marcando 10”41. Agora, o atleta espera aproveitar
ao máximo a experiência de seus colegas de seleção.
“É uma nova responsabilidade manter a tradição
do revezamento brasileiro, e quero ter esse aprendizado para amanhã
colher os frutos”, afirma.
Antes das provas, o atleta gosta de ouvir música
para se concentrar. “Gosto de pagode, mas em São Paulo
fui apresentado à música black e achei muito boa.”
Na hora da largada, Mascarenhas procura ficar atento e só
pensar naquilo que está fazendo. “Apesar de meu melhor
momento na prova ser da metade para o fim, preciso estar esperto,
pois um detalhe define a competição mais rápida
do atletismo.”
Robson Caetano e Arnaldo de Oliveira são
alguns dos ídolos do corredor, que acredita que a mídia
vem deixando de lado competições como os 100 metros
rasos. “Na realidade, nossa prova é a mais assistida
durante um evento de atletismo. Só falta maior veiculação
na imprensa.”
Cozinha
Até há pouco tempo, Mascarenhas preparava
a própria comida. Resultado: um verdadeiro desastre. “Sinto
falta da atenção de meus familiares e da comida de
minha mãe, enfim, de meus amigos e tudo o mais. Como estava
me virando sozinho, abusava do macarrão e do arroz, mas ficava
muito ruim.”
Sem se alimentar adequadamente, Mascarenhas sentiu
que seu desempenho nos treinamentos não era o mesmo. “Para
reverter essa situação, encontrei um restaurante por
quilo perto de minha casa”, comenta.
Ainda sem conhecer bem a cidade, o carioca abusa
do cinema. “Para não ficar muito tempo em casa, vou
bastante ao cinema, assisto a qualquer filme”. Com saudade
das praias da cidade maravilhosa, ele espera arrumar um tempo para
conhecer os mares paulistas. “Só tive a oportunidade
de estar na Praia Grande, mas pretendo visitar outros lugares.”
Estar longe da família, treinar horas, morar
sozinho, sem os amigos, e ainda ter de testar todo o seu empenho
em pouco mais de dez segundos: para Mascarenhas, todo esforço
vale a pena. “Guardo tudo para o momento final da competição.
Se você está fazendo o que gosta, com certeza vale
a pena.”
Lucimar Aparecida Moura
A
velocista mineira sabe que sua carreira durará apenas mais
uns cinco ou seis anos. “Pretendo aproveitar ao limite esse
momento e conquistar mais coisas com o esporte”, conta. “Por
isso, ainda não penso em ter filhos, apesar de estar casada.
Interromper minha carreira neste momento não seria um bom
negócio.”
Com o apoio da família e oriunda da cidade
de Timóteo, Lucimar começou treinando na escola, quando
participava de pequenas competições, em 1998. “Enfrentei
muitas dificuldades. Uma delas era viajar uma hora todos os dias
para treinar em Ipatinga.”
O esforço da velocista é perceptível
durante os treinos. Durante a musculação, mais precisamente
nos exercícios de agachamento, ela consegue levantar a mesma
quantidade de peso com a qual muitos atletas profissionais do sexo
masculino sentiriam dificuldade. Totalmente concentrada, fica até
difícil desviar a atenção da atleta para a
entrevista.
Seus melhores tempos são 11”17 nos
100 metros e 22”60 nos 200 metros. Quanto ao sexo antes das
competições, a atleta desmistifica. “Consegui
uma grande marca depois de fazer sexo com meu marido. Acho que isso
não tem nada a ver. O importante é não fazer
apenas por fazer”, admite.
Como não poderia deixar de ser, a atleta
também tem um sonho olímpico. Seus principais resultados
são o 1o lugar no Troféu Brasil 2001, nos 100 metros
rasos, 2o lugar nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg nos 200 metros
rasos e 2o lugar no Troféu Brasil de Atletismo em 2002 nos
100 metros rasos.
Mesmo com todo esse potencial, a atleta também
enfrentou problemas de salários atrasados até o começo
do ano, quando veio para São Paulo. Ela já passou
pela Usipa, Vasco da Gama, onde não recebeu, Prudente e agora
BM&F, desde janeiro de 2003. “Minha sorte foi estar prevenida
e ter guardado dinheiro para essa eventualidade”, desabafa.
Estudante de educação física,
Lucimar diz que sua caminhada nas provas de velocidade foi natural.
“Eu sempre gostei da velocidade, isso está em meu sangue.”
Para manter a forma, ela se alimenta sete vezes
ao dia. “Gosto muito de massa, principalmente de lasanha.
Essa é a receita para agüentar mais de quatro horas
diárias de treinos variados.” Durante os treinos de
base e pré-temporada, sua dieta é de carboidratos.
Já na fase específica, a proteína ganha uma
importância maior.
“Minha sorte é que eu não gosto
muito de doce, por isso não passo vontade.”
Em relação aos treinos de homens e mulheres, Lucimar
não vê grandes mudanças. “A diferença
está no biótipo do atleta. Aqui, fazemos mais ou menos
a mesma preparação.”
Em 2000, apenas 5 centímetros impediram
que o saltador em distância Alex Ferreira participasse do
Campeonato Mundial. “Por falta de apoio psicológico
e estrutura, larguei o esporte e só agora retornei aos treinos”,
conta o atleta do Pinheiros.
Segundo Ferreira, que tem como melhor marca no salto 7,50 metros,
o segredo dos saltadores está na velocidade aplicada antes
do salto. “Para obter sucesso no salto, o segredo é
a corrida. Muitas vezes, você pode saltar sem técnica,
compensando com a velocidade.”
O atleta sente a discriminação pelos
atletas de velocidade. “Tudo começa por nosso corpo
forte. Quando as pessoas percebem que sou um esportista, já
vão logo perguntado se corro em maratonas ou provas de rua.
Nunca imaginam que sou um saltador”, desfere.
Foi brincando, aos 11 anos, que Ferreira acabou
sendo descoberto em Batatais (SP). Hoje morando com a mãe,
o saltador ainda não está com a vida ganha, mas pode
planejar seu futuro. “Espero dar continuidade à faculdade
de psicologia, que fui obrigado a parar quando quase desisti do
esporte.”
Como todo atleta, ele sonha em participar de uma
olimpíada. Para isso, ele treina quatro horas por dia. “São
treinos muito intensos. Em alguns deles, chego até a vomitar”,
revela o atleta que, numa oportunidade, conseguiu atingir 8,10 metros,
mas acabou queimando a linha do salto. “Com essa marca, eu
seria um medalhista olímpico, por isso minha confiança
em poder disputar grandes títulos.”
Mesmo treinando tanto para tudo se resumir em um
salto de poucos segundos, Ferreira diz que o esforço vale
a pena. “Quando se quer atingir um objetivo, é preciso
treinar.”
Resumidamente, Ferreira começa seu treinamento
por volta das 15 horas, com uma hora e meia apenas de aquecimento:
alongamento e técnica de corrida. Depois, são tiros
de 40 a 60 metros com pausas de 50 segundos. Por fim, a parte específica,
com saltos alternados, na barreira, horizontais e verticais.
Robson Caetano
Atualmente trabalhando como comentarista da TV
Globo, o carioca Robson Caetano da Silva, 39 anos, continua inspirando
os jovens talentos que buscam a velocidade. Seus números
revelam que ele é o maior velocista que já apareceu
no atletismo brasileiro. Mais de cinco anos após o fim da
carreira, ele ainda detém algumas das melhores marcas do
continente, nos 100, 200 e 400 metros. Tanto é que um estudo
canadense o coloca entre os cinco velocistas mais completos da década
de 90, devido à soma de seus melhores resultados nos 100,
200 e 400 metros.
O recorde sul-americano dos 100 metros, com 10”00,
conquistado em 1988, quando ganhou o bicampeonato ibero-americano
na Cidade do México, continua com Robson Caetano. O recorde
anterior da prova também pertencia a ele e fora estabelecido
em 1986, quando ganhou seu primeiro título no Ibero-Americano,
em Havana, com 10”02.
Robson Caetano, nas Olimpíadas de Atlanta,
em 1996, conquistou seu último grande resultado: o bronze
no revezamento 4 X 100 metros, com Arnaldo de Oliveira, Edson Luciano
Ribeiro e André Domingos da Silva. Ele também é
o terceiro no ranking sul-americano dos 400 metros, com 45”06.
Em 1988, dividiu o pódio dos 200 metros
rasos das Olimpíadas de Seul com o maior atleta de seu tempo,
o americano Carl Lewis, ganhador da medalha de prata em Seul nos
200 metros. Robson Caetano foi bronze e o vencedor foi o também
americano Joe DeLoach.
Conquistas
Bronze olímpico nos 200 metros (Seul, 1988)
e 4 X 100 metros (Atletas 1996); tricampeão dos 200 metros
na Copa do Mundo (Camberra, 1985, Barcelona, 1989, e Havana, 1992);
bronze no Mundial Indoor (Indinápolis, 1987); campeão
dos 200 metros no Iaaf Grand Prix, 1989; campeão pan-americano
dos 100 e 200 metros (Havana, 1991).

O homem do 4 X 100
Desde 1992 como técnico da equipe do revezamento
4 X 100 masculino, o técnico Jayme Neto, 42, coleciona medalhas.
Bronze nas Olimpíadas de Atlanta, prata em Sydney e bronze
no Mundial de Paris, o treinador busca a conquista que lhe falta:
o ouro em Atenas.
“Nosso pensamento é primeiramente
chegar à final olímpica, para depois ser pódio
e por fim levar o ouro”, expressa o técnico da equipe
Brasil Telecom/Unoeste. Sem dúvida, o Brasil destaca-se no
revezamento por causa da troca de bastão.
Se analisarmos os tempos individuais dos atletas,
vários países superariam o Brasil, inclusive a Jamaica.
Só que o “jeitinho” e a técnica na hora
de passar o bastão nos dão vantagem. “Desenvolvi
a técnica em 1995. São pequenas variações
na aproximação, na posição e no movimento
do braço”, revela.
“Hoje em dia, temos oito atletas no Brasil
em condições de participar do revezamento. A definição
só vai sair no ano que vem”, afirma. Porém,
Jayme Neto analisou as características de seus principais
atletas que integram a equipe brasileira. Por coincidência,
os velocistas treinam com ele em Presidente Prudente (SP) na equipe
Brasil Telecom/Unoeste.
Vicente Lenílson – “Atleta com
baixa estatura, mas de força elevada. Seu forte é
a saída e a explosão. Porém, o que acumulou
no início da prova acaba perdendo no fim.”
André Domingos – “Seu forte
é a descontração, as passadas largas e a coordenação.
Hoje, ele está passando a ser especialista nos 200 metros.
Por causa de sua estatura avantajada, ele perde em força
e acaba tendo dificuldades. Tem pouca hipertrofia.”
Claudinei Quirino – “Tem a altura adequada
para a prova e uma ótima força natural, além
de grande resistência. Sua segunda parte na prova dos 100
metros é quase insuperável.”
Edson Ribeiro – “Primeiro colocado
no ranking nacional deste ano, é o mais forte da equipe,
com 94 quilos e 1,90 metro, o oposto de Lenílson. Por causa
de toda essa massa, ele tem dificuldade na aceleração,
no início da prova.”
A mídia e os 100 metros
Para Neto, não é só a prova
dos 100 metros que não recebe muito espaço na imprensa.
“Todas as provas de pista não recebem a atenção
merecida. É por isso que o Brasil está tão
fraco na pista, até mesmo nas provas de fundo”, desabafa.
Segundo o treinador, apenas as provas de rua têm destaque
nos meios de comunicação.
Em sua opinião, faltam mais pistas de atletismo no Brasil.
“Esse é um dos principais motivos para o atletismo
não evoluir como deveria no país. Até no Chile
existem mais pistas. Outro fator é a falta de incentivo nas
escolas. Os jovens não são direcionados para a modalidade.”
Treino
Nos treinos de um velocista, de acordo com Jayme
Neto, o importante é não gerar a fadiga muscular.
“As fibras brancas são as responsáveis pela
velocidade. Ao mesmo tempo que são mais velozes, elas são
mais suscetíveis à fadiga. Como conseqüência,
o atleta fica mais lento.” Por isso, a tônica de seus
treinos é muita explosão e pouco volume.
Novos
talentos
Entre os novos talentos que podem ocupar um espaço
entre os velocistas, Jayme Neto cita duas revelações.
O primeiro é Bruno Pacheco, de 20 anos, que superou o recorde
juvenil de Robson Caetano, com 20”54. “Foi bastante
inferior à marca anterior, de 20”95.”
Outra promessa é Jorge Célio, de
18 anos, que estabeleceu o recorde juvenil nos 100 metros com 10”36,
contra 10”38 de Robson Caetano.
“Em meu entender, qualquer um dos atletas
de ponta do Brasil, que fazem parte da seleção, têm
condições de repetir marcas tão boas quanto
as de Robson Caetano. O que devemos levar em conta é a altitude,
o clima, os ventos; enfim, os fatores externos influenciam muito.”
A última de Quirino
Aos 32 anos, Claudinei Quirino disputará
sua última olimpíada em 2004. Essa é a visão
de seu técnico, Jayme Neto. “Isso porque Quirino começou
tarde, com 21 anos. Ele era borracheiro e um amigo o convidou para
treinar. Portanto, ele não sofreu tantos desgastes.”
Jayme Neto ressalta a importância de analisar
a idade biológica e cronológica do atleta. “Existem
atletas que começam a treinar com 12 anos. Aos 25, eles já
têm 13 anos de treino. Se Quirino tivesse começado
mais cedo, não acredito que ele ainda estivesse nesse nível.”
Futuro
Além dos Jogos Olímpicos de Atenas,
em 2004, Neto já pensa no Mundial de Helsinque, em 2005.
Seu plano, que ainda precisa ser aprovado pela CBAt, é realizar
três campings de treinamentos, um no Brasil e dois no exterior,
com oito atletas: seis adultos e dois sub-22.
| Tabela |
| O técnico Nakaya montou
uma tabela para mostrar quanto é o percentual de trabalho
anaeróbico, lático e aeróbico nas provas
de 100, 200 e 400 metros: |
| 100 m |
200 m |
400 m |
|
| 30% |
20% |
10% |
anaeróbico |
| 70% |
75% |
80% |
lático |
| 5% |
10% |
15% |
aeróbico |
|