Artigos
edição 117 - Fevereiro 2012
A Ciência da Glória
Um dos mais belos fenômenos na meteorologia tem uma explicação surpreendentemente sutil. Seu estudo também ajuda a prever o papel que as nuvens terão na mudança climática
por H. Moysés Nussenzveig
Claudia Hinz
Num voo diurno escolha uma janela que permita localizar a sombra do avião nas nuvens; isso supõe deduzir a direção de deslocamento da aeronave em relação à posição do Sol. Se você tiver sorte, poderá ser recompensado com uma das mais belas visões meteorológicas: um halo multicolorido circundando a sombra. Seus anéis iridescentes não são os de um arco- íris mas um efeito diferente e mais sutil chamado glória. Esse efeito é mais marcante quando as nuvens estão mais próximas: neste caso o fenômeno domina todo o horizonte.

Se você for um montanhista poderá observar a glória logo após o nascer do sol, em torno da sombra que sua cabeça projeta sobre as nuvens próximas. Veja a descrição da primeira publicação, de 1748, relativa a uma observação feita uma década antes por membros de uma expedição científica francesa ao topo do Pambamarca, no que é hoje o Equador: “Uma nuvem que nos cobria dissolveu-se e deixou passar os raios do sol levante... Então cada um de nós viu sua própria sombra projetada sobre a nuvem... O que nos pareceu mais notável foi a aparência de um halo ou glória em volta da cabeça, formado por três ou quatro pequenos círculos concêntricos, muito brilhantemente coloridos... A coisa mais surpreendente foi que, das seis ou sete pessoas presentes, cada uma delas viu o fenômeno somente em volta da sombra de sua própria cabeça, e nada via ao redor das outras cabeças”.

Os mestres têm muitas vezes sugerido que o halo em torno das cabeças de divindades e imperadores na iconografia oriental e ocidental poderia ser uma representação da glória. O celebrado poema de Samuel Taylor Coleridge “Constancy to an ideal object” (Constância a um objeto ideal) é um tributo alegórico ao efeito. Em fins do século 19 o físico escocês C. T. R. Wilson inventou a câmara de nuvem, para reproduzir o fenômeno em laboratório. (Wilson falhou, mas logo percebeu que podia usar sua câmara para detectar radiação e acabou recebendo o Prêmio Nobel pela invenção).
1 2 3 4 5 6 7 8 »
H. Moysés Nussenzveig é professor emérito de física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ganhador do prêmio Max Born da Optical Society of America. Ele desenvolveu abordagens teóricas inovadoras numa ampla gama de fenômenos ópticos e atualmente pesquisa biofísica celular.
Veja aqui todos os artigos publicados neste site!