A não falada política de C,T&I
Imprensa científica brasileira não se interessa por políticas públicas para a área
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José Roberto Ferreira
Há poucos meses sugeri uma pauta a um colega da grande imprensa, sobre um fato relevante para a vida científica brasileira, e sua resposta, negando o interesse no assunto, foi tão pronta, acabada e imediata que pareceu uma reação instintiva a algo que lhe causava aversão. “Mas isso é assunto de política científica!”, esquivou-se, e mudou o rumo da conversa.
A breve ocorrência é exemplar de uma situação instigante – ou desanimadora, dependendo do ponto de vista: o notório desinteresse da imprensa brasileira pelos assuntos relacionados às políticas públicas de ciência, tecnologia e inovação (C,T&I). Esse exemplo pessoal que trago aqui talvez revele os reais motivos desse desinteresse – jornalista científico não gosta de política científica –, mas certamente isso não é o suficiente para considerarmos a questão encerrada. Fica uma comichão; afinal, a ciência que se faz no Brasil tem um protagonismo como observado antes, e pelo voar da carruagem dos tempos atuais pode-se prever como certo que esse protagonismo será cada ver maior. Assim, poderá a imprensa brasileira continuar “alienada” em relação às políticas de C,T&I?
Enquanto o tempo se encarrega de nos dar a resposta, vamos aproveitar para contribuir para o debate sobre essa questão.
Assim, quero trazer um dado da pesquisa “Ciência, Tecnologia & Inovação na Mídia Brasileira”, realizada pela Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), de Belo Horizonte, e apresentada publicamente em outubro passado. A pesquisa analisou o noticiário sobre C,T&I de 62 jornais diários brasileiros, entre os anos de 2007 e 2008.
O dado abrangente mais revelador da pesquisa está aqui: na média dos dois anos analisados, apenas 11% das notícias sobre C,T&I tratavam de políticas públicas da área, sendo que 87% tinham como foco o “fazer ciência” e também eventos científicos em diversas áreas e subáreas do conhecimento. É claro que o bom senso aceita que a imprensa dê cada vez mais atenção e espaços às atividades e aos eventos de C,T&I, e isso, de fato, parece que vem ocorrendo. Ótimo, mas não se pode esquecer, ou deixar em segundo plano, um dado fundamental: aqui e em qualquer lugar do mundo, as atividades científicas financiadas com verbas públicas decorrem, obviamente, de políticas públicas. Não há ciência sem política científica. Note-se, ainda, que, no Brasil, a produção científica é quase toda desenvolvida em instituições públicas e com financiamento público, o que supõe a existência de políticas para cuidar desse setor.
Além disso, há um dado do presente que, lamentavelmente, a imprensa, ao ignorá-lo, deixa também a sociedade ignorante sobre algo que tem íntima relação com ela e com o país: o Brasil nunca teve tantas políticas públicas de C,T&I como agora, e não apenas no âmbito do governo federal. Os governos estaduais, quase todos, também entraram nessa onda. Apenas Rondônia e Tocantins continuam sem uma fundação de amparo à pesquisa. Mas, ainda que essas instituições não estejam plenamente formatadas, já se pode dizer que temos um sistema nacional de ciência e tecnologia. Há ações articuladas entre o governo federal e administrações estaduais; vários programas da Finep e do CNPq são efetivados por meio da atuação das FAPs; os estados reproduzem e enriquecem o marco legal originalmente federal, a exemplo da Lei de Inovação e da Lei do Bem.
Mas essa nova dinâmica institucional que o país está criando passa ao largo das páginas dos nossos diários. A Lei de Inovação e a Lei do Bem, mostra a pesquisa da Fundep, “foram citadas em menos de 1% dos textos pesquisados” nos 62 jornais, o que, conforme os autores do trabalho, “enfraquece o reconhecimento público das possibilidades que abrem”.
E que possibilidades abrem – ou deveriam abrir – as leis de novação e do Bem: as possibilidades de o Brasil não só acelerar seu desenvolvimento, mas de fazer isso com base na nova economia, que alia inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental, econômica e social.
De maneira inédita, as políticas de ciência e tecnologia estão direta e irreversivelmente ligadas ao crescimento econômico e ao aperfeiçoamento social dos países, pela simples razão de que o conhecimento passou a ser o principal protagonista do desenvolvimento econômico-social.
É comum vermos nos jornais referências positivas ao desenvolvimento econômico da Coreia e comparações de espanto entre os investimentos dos Estados Unidos e do Brasil em ciência. Mas essa visão sumária não se dá conta de que, mesmo com história, culturas e economias distintas, o que está por trás do êxito coreano e americano é um fator comum: uma vigorosa e bem executada política científico-tecnológica.
O Brasil está nesse mesmo caminho? Ou escolheu outro? Nossas políticas científicas estão dando os resultados de que o país precisa? Os investimentos em C,T&I por aqui condizem com as demandas do país? São questões que, convenhamos, deveriam interessar aos jornais.