Artigos
  
edição 45 - Fevereiro 2006
Ciência unida e com financiamento
Pró-reitora diz como a USP pode contribuir para melhorar as pesquisas no Brasil.
por Mayana Zatz
O crescimento de um país depende de ciência e tecnologia desenvolvidas, em grande parte, pelas universidades. Nos últimos anos, nossa produtividade científica aumentou internacionalmente, mas podemos, sem dúvida, crescer muito mais. O Brasil tem cientistas inteligentes, criativos, idealistas e com enorme potencial. Mas a ciência e a tecnologia caminham nos países desenvolvidos cada vez mais rapidamente. Se quisermos ser competitivos, temos de acompanhar o ritmo deles ou perderemos o bonde.
Como melhorar? Que políticas precisam ser incentivadas? Esse é o grande desafio que resolvi enfrentar como pró-reitora da USP.

Em primeiro lugar, é extremamente importante aumentar o entrosamento entre os pesquisadores e os formadores de recursos humanos, bem como a colaboração nacional e internacional entre cientistas. Precisamos, cada vez mais, aprender a trabalhar juntos. Somar competências nas diversas áreas é fundamental para contribuir para uma ciência de qualidade. É melhor juntar esforços e publicar em conjunto trabalhos em revistas de alto impacto, na fronteira do conhecimento, do que isoladamente em revistas de segunda linha. O exemplo marcante de que isso é possível pode ser ilustrado com a Xylella fastidiosa, o primeiro fitopatógeno seqüenciado no Brasil no ano 2000. Graças ao apoio da Fapesp e ao esforço conjunto de vários laboratórios, fomos capa da Nature, o que deu ao país enorme visibilidade internacional.

Como motivar jovens a seguirem a carreira científica? Como atrair de volta cientistas brasileiros de talento que se encontram no exterior? Além do apoio financeiro, temos de valorizar a ciência! Mário Covas, que era governador de São Paulo quando foi concluído o trabalho da Xylella, preparou uma grande festa para os participantes e mandou espalhar faixas pela cidade dizendo: "Temos orgulho dos nossos cientistas!". Foi uma experiência nova no mundo das ciências. Todos se sentiam como jogadores de futebol depois de ganhar uma copa. E estimulados a fazer mais e melhor!

Agilizar e "desburocratizar" a aquisição e importação de material para pesquisas, hoje um enorme entrave na vida dos cientistas, é outro grande desafio. Jamais poderemos ser competitivos se gastamos mais tempo para viabilizar uma pesquisa do que para realizá-la. E para isso só é preciso vontade política. Se as regras vigentes atrapalham e vão contra o bom senso, são elas que têm de ser mudadas. O bom senso tem de prevalecer! O Brasil tem um sistema bancário extremamente ágil e a votação com urnas eletrônicas tornou-se orgulho nacional. Em 48 horas é possível apurar os votos de mais de 100 milhões de brasileiros em um país de dimensões continentais. Ora, por que não é possível importar um produto de pesquisa com a mesma velocidade?

É fundamental também implantar políticas a longo prazo. Além de um maior investimento do governo, precisamos atrair recursos para ciência provenientes também da iniciativa privada, prática que não é comum no Brasil. Para isso temos de criar leis de incentivo à doação não só para novas tecnologias de interesse econômico, com perspectivas de retorno imediato, mas também para a pesquisa básica e a formação de recursos humanos. A iniciativa privada rapidamente perceberá que, com o desenvolvimento do país, a melhoria da qualidade de vida e do poder aquisitivo do povo, ela também será beneficiada. Por exemplo, a empresa de cosméticos L\\'Oréal, apóia uma nova iniciativa extremamente importante. Em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e do IBECC (Comissão Nacional da Unesco), vai financiar bolsas de auxilio a jovens cientistas para desenvolver suas pesquisas em laboratórios do Brasil, em ciências biológicas, exatas e da saúde. É uma pequena semente que poderá dar belos frutos e um exemplo a ser ampliado e copiado por outras empresas.

Em resumo, temos de implantar políticas que incentivem a pesquisa pensando não só na universidade, mas no Brasil. Em um país mais desenvolvido, com menos desigualdades sociais, viveremos todos melhor. Espero que a USP possa contribuir de maneira significativa para que isso aconteça.
Mayana Zatz é professora titular de Genética, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e recém-empossada Pró-Reitora de Pesquisa da USP.
Veja aqui todos os artigos publicados neste site!