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edição 83 - Abril 2009
Crise Econômica e Absurdo Filosófico
“Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas o começo...” Albert Camus
por Edson Amâncio
Quando Camus faz seu irresistível personagem Meursault, de O estrangeiro, assassinar um árabe na praia ‘por causa do Sol’ e, com a mesma gratuidade, o leva a assistir ao enterro da mãe, ir ao cinema e ajudar um amigo num caso obscuro, ele apenas desvela uma das mais temerárias facetas da nossa existência: o absurdo.

Podemos falar da crise econômica que se abateu sobre o mundo globalizado como um desses absurdos tão caros a Camus e aos existencialistas franceses? Que melhor definição pode ser aplicada à situação de um casal idoso que pôs suas economias, durante décadas, numa instituição financeira, com o fim de ter uma velhice confortável, ao receber a notícia de que perdeu tudo na crise?

Não é possível aquilatar se a dor que se abate sobre um operário, que perdeu seu trabalho, tem a mesma intensidade que a do empresário que vê seu patrimônio escorrer entre os dedos. Ou aquela família que teve de abandonar a própria casa por inadimplência e a do casal de idosos mencionado. Aqui talvez pudéssemos citar Tolstoi na abertura do seu romance Ana Karenina: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

A crise chegou. As pessoas perdem seus bens. Empresas vão à falência. Milhares estão desempregados. Há desesperança onde quer que repouse o olhar. A insegurança, filha espúria do absurdo globalizado, bateu à porta. Há decepção e descrença. É quase impossível abstrair que, por trás da bancarrota, há uma cabeça de medusa e seus mil tentáculos que responde pelo insípido nome de “sistema”. A cada uma das vítimas adiciona-se o peso do fracasso pessoal, da impotência e da culpa. Não somos, entretanto, individualmente responsáveis pelo absurdo que se avizinhou de forma sorrateira, pegando-nos de surpresa. Batemos no próprio peito assumindo para nós mesmos as conseqüências do fracasso. Poucos percebem que estamos inseridos num sistema de bases movediças. Não houve entre nós quem tivesse a sensibilidade aguçada do elefante que previu o tsunami com antecedência de horas. Uma multidão de especialistas não o fez. E se o tivessem feito, mudaria alguma coisa?

Não me parece que, se assim fosse, o resultado seria diferente. Ninguém estava a postos para fazer previsões desse quilate. Pensávamos apenas em concorrer, disputar, vencer, chegar lá, e jogamos todas as fichas nesse ambicioso projeto.
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Edson Amâncio é neurocirurgião. Autor de O homem que fazia chover e outras histórias inventadas pela mente (Barcarolla, 2006).
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