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edição 83 - Abril 2009
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Crise Econômica e Absurdo Filosófico
“Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas o começo...” Albert Camus
por Edson Amâncio
[continuação]

É possível fazer previsão realista para as conseqüências da crise econômica na saúde física e mental das suas vítimas? Quantos ataques cardíacos poderão ocorrer por causa disso? Quem se tornará hipertenso, ansioso, depressivo. E os que terão ataques de pânico? Quantos suicídios serão computados na sombria contabilidade da crise econômica? Também neste pormenor não há especialista capaz de fazer previsão. A crise econômica não faz bem a ninguém. Maltrata a todos, direta ou indiretamente.

O executivo que perdeu suas regalias na crise é acometido subitamente de forte opressão no peito. Um manto de suor recobre seu rosto. Sua pele torna-se pálida e a respiração é ofegante. Em alguns minutos é conduzido a um pronto-socorro. Os exames não revelaram nenhuma alteração. O cardiologista calmamente informa-lhe o diagnóstico: “Sua saúde física está em ótimo estado. Seu problema é psicológico”. Cenas como essa são reproduzidas diariamente em hospitais de todo o mundo.

Mas é um erro interpretar esse tipo de ocorrência como mero “problema psicológico”, pois essa postura minimiza a importância dos efeitos da mente sobre o corpo. Só nos Estados Unidos, 1,5 milhão de pessoas sofre ataque cardíaco por ano. É difícil determinar quantos desses eventos devem ser atribuídos ao estresse. Uma equipe de pesquisadores da University College London fez uma ampla revisão em questionários aplicados a pessoas que sofreram ataques cardíacos entre 1974 e 2004 e compilou respostas dadas à seguinte questão: “O que você estava fazendo ou sentindo nas horas que antecederam o ataque cardíaco?”. Estresse emocional estava entre as respostas mais comuns.

O que fazer para amenizar o impacto da crise econômica na vida cotidiana?

Para alguns, o abandono do ato de fumar, a redução no consumo de café e adoção de dietas ricas em legumes e frutas, em detrimento de excessivo consumo de carne vermelha, estão entre eles. Há uma lista que pode parecer clichê, mas que não deve ser subestimada. Ampliar o interesse por temas elevados, por cultura, boas leituras, música, artes em geral. Procurar o convívio de pessoas mais sábias, aproximar-se mais dos verdadeiros amigos e das pessoas queridas. Talvez devêssemos incluir aí um pouco de filosofia, quem sabe até mesmo religião em doses adequadas.

Mas há algo, amplamente desenvolvido entre os animais, particularmente entre os chimpanzés, que deveríamos retomar como uma das formas de enfrentar o absurdo que nos espreita a cada dia: altruísmo, ou o retorno à indignação ética.
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Edson Amâncio é neurocirurgião. Autor de O homem que fazia chover e outras histórias inventadas pela mente (Barcarolla, 2006).
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