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edição 38 - Julho 2005
Cultura da morte
Cercado de polêmica, Russel Ogden revela o submundo da eutanásia clandestina.
por Diane Matindale
Annie Marie Musselman
Russel Ogden revela o submundo da eutanásia clandestina.
Em 1990, o canadense David Lewis, portador do HIV, anunciou num jornal de Vancouver que tinha ajudado oito amigos soropositivos a cometer suicídio - um ato que, no Canadá, se configura como assassinato aos olhos da lei. Para muitos, a notícia apenas confirmou a supeita de algo que estava acontecendo havia tempos na comunidade de aids. Para Russel Ogden, pós-graduando em criminologia da Universidade Simon Fraser em busca de um projeto de pesquisa, foi uma oportunidade para se aventurar em caminhos nunca antes trilhados por cientistas.

"Eu tinha toda uma população convivendo em meu próprio quintal com questões da eutanásia havia algum tempo", lembra Ogden, que é tido por muitos como o primeiro pesquisador da América do Norte a ter estudado formalmente a prática clandestina do suicídio assistido e da eutanásia. Em 1994, Ogden publicou sua tese de mestrado, que documentou o funcionamento dessa rede ilícita. As revelações chocaram o Canadá.

Na década que se seguiu, Ogden encontrou entraves legais e éticos. As autoridades o pressionaram várias vezes a identificar seus informantes. Tal intimidade com a lei o convenceu a esconder sua pesquisa: hoje ele mantém seus dados a sete chaves. E, aos 42 anos, trabalhando em Vancouver, Ogden já deveria ser um cientista bem estabelecido. Em vez disso, ainda corre atrás de um doutorado cursado a distância na Universidade de Groningen, na Holanda - as universidades canadenses o rejeitaram. A ausência de credenciais acadêmicas tradicionais, porém, não foi empecilho para Ogden. Ele quer saber quem pede a morte assistida, quem a fornece e como isso é feito.

Detalhes escabrosos sobre essa prática foram revelados no primeiro estudo de Ogden, no qual 17 pessoas, incluindo médicos, enfermeiros, conselheiros, assistentes sociais e dois padres, contaram com detalhes como ajudaram vítimas de aids a se matar. Mas a maior surpresa foi o fato de que essas mortes não foram as "boas mortes" tantas vezes descritas nos livros pró-eutanásia, que tendem a romantizar o processo. Dos 34 casos de eutanásia, Ogden descobriu que metade fracassou e acabou causando ainda mais sofrimento. Em cinco situações, a asfixia foi malsucedida. Em uma delas, a pessoa que ajudou no suicídio teve de recorrer a uma arma de fogo para matar o paciente - em outro, a cortar os pulsos dele com uma lâmina de barbear. Essas tentativas fracassadas muitas vezes fizeram com que a eutanásia levasse várias horas ou até mais para ser concluída; em um caso, demorou quatro dias para a pessoa morrer.
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