Artigos
edição 122 - Dezembro 2009
Depois do dilúvio
Inundações, secas e ondas de calor vêm alertando administradores urbanos a tomar medidas ousadas para proteger pessoas e propriedades
por John A. Carey
Getty images
Inundações como esta do rio Delaware força cidades a planejar para o clima radical
Durante um século Dubuque, no estado americano de Iowa, atraiu trabalhadores. Conforme surgiam, as novas gerações construíram casas, lojas e ruas que acabaram por cobrir o córrego Bee Branch. A água borbulhava por tubos subterrâneos fora da vista e da memória de muitos.

Até que as chuvas vieram. Em 16 de maio de 1999, 14,2 cm de chuva caíram em 24 horas. Os tubos do riacho e as galerias pluviais transbordaram, levantando as tampas de bueiro e transformando as ruas em rios furiosos na altura do peito das pessoas. Centenas de casas e empresas foram inundadas.

O prefeito Roy Buol se lembra com detalhes da reunião de bairro realizada algumas semanas depois. “Todos estavam perturbados”, diz ele. Em 2001, a cidade concebeu um plano-mestre para resolver o problema da inundação: transformar o riacho submerso novamente em rio aberto com margens graduadas para dar conta das enchentes. Claro que isso exigiria derrubar dezenas de casas. “A sugestão não foi bem recebida”, segundo Deron Muehring, engenheiro civil da cidade. O planejamento foi interrompido.

Então, em junho de 2002, caíram mais de 15 cm de chuva durante dois dias, jogando novamente água da tempestade nas casas e edifícios que tinham acabado de ser reformados. Isso ajudou a romper o impasse político e uniu os líderes da cidade num plano de US$ 21 milhões para refazer o bairro que precisou eliminar casas e adicionar um parque verdejante com um riacho passando por ele, juntamente com duas bacias de retenção. A decisão não dependeu de palavras sobre a mudança climática ou da necessidade de salvar o planeta para as gerações futuras. Os moradores estavam fartos, e líderes locais temiam que o bairro sofresse um declínio irreversível. A cidade começou comprando 74 propriedades e o início da construção ocorreu após outra inundação em 2010. Engenheiros já restauraram cerca de 610 m do córrego Bee Branch. Quando o projeto estiver concluído em 2013, a cidade poderá até resistir a novos dilúvios de 25 cm ou mais de julho passado, que provocaram vários milhões de dólares em prejuízos.

As ações de Dubuque são um microcosmo de uma história maior que se desdobra em todos os Estados Unidos. As políticas federais de combate às mudanças climáticas estão paralisadas, e alguns membros do Congresso acusam os cientistas de inventarem tudo. Mas as cidades, vilarejos, autoridades de fornecimento de água, agências de transportes e outras entidades locais não estão interessadas em debater se a mudança climática é real ou não: estão agindo agora. Como Dubuque, eles já enfrentam enchentes, secas, ondas de calor, elevação dos mares sem precedentes e a morte e destruição que esses acontecimentos podem impor. “Temos de levar a adaptação a sério”, avalia o senador do estado de Iowa, Rob Hogg.

Aproximadamente 16 estados americanos têm ou estão desenvolvendo planos de adaptação às alterações climáticas, segundo o Georgetown Climate Center, em Washington, D.C., que trabalha com os estados. [Informação: a esposa do autor, Vicki Arroyo, é diretora- executiva do centro.] Embora ninguém tenha computado os números exatos, centenas de comunidades e agências vêm reagindo ao clima cada vez mais severo. Os que não estão trabalham com tapa-olhos, como sempre, segundo a urbanista Mikaela Engert, que ajudou a desenvolver os planos para Keene, New Hampshire.
1 2 3 4 5 6 »
John A. Carey é jornalista free-lancer, ex-correspondente-sênior da BusinessWeek, onde cobria ciência, tecnologia,
medicina e meio ambiente.
Veja aqui todos os artigos publicados neste site!