O procedimento padrão é que esse professor ensine as chamadas equações de Maxwell, que descrevem o comportamento dos campos eletromagnéticos (luz e ondas de rádio, por exemplo). Mas, imagine se um aluno, mais dedicado que a média, já ouviu falar na eletrodinâmica de Weber, desenvolvida no século 19, aproximadamente na mesma época em que Maxwell elaborou suas idéias sobre eletrodinâmica. E imagine que esse aluno faça algumas perguntas aparentemente bastante simples para seu professor: Por que as idéias de Weber foram abandonadas e as de Maxwell triunfaram? Por que não se estuda eletrodinâmica de Weber no lugar das idéias de Maxwell? Não poderiam as duas teorias serem estudadas como alternativas uma da outra? A teoria de Maxwell é de fato melhor que a de Weber?
Levando em conta que cursos sobre eletromagnetismo de Maxwell são consagrados no mundo todo, essa pergunta não parece, à primeira vista, exigir uma resposta complicada para um professor experiente. Mas a situação não é bem essa. Mesmo o mais experiente professor pode se encontrar em uma situação na qual ele não consiga dar uma resposta rápida e concisa, até porque pesquisadores (pelo menos alguns deles) também têm algumas dúvidas sobre essas questões. Alguns anos atrás, um físico brasileiro chamado André K. T. Assis provou um resultado bastante interessante, ao menos do ponto de vista do estudo dos fundamentos da física. Ele mostrou que, se a eletrodinâmica de Weber estiver correta, então a massa inercial de uma carga elétrica depende da distribuição de outras cargas ao seu redor.
É interessante notar que esse bizarro efeito não vale no âmbito da teoria de Maxwell. Mais surpreendente ainda foi a publicação de um artigo do físico V. F. Mikhailov nos Annales de la Fondation Louis de Broglie, no qual ele afirma que esse resultado pôde ser confirmado experimentalmente, o que colocaria as idéias de Maxwell realmente em xeque e representaria um retorno em grande estilo às idéias de Weber No entanto, será publicado muito em breve um artigo de Johann E. Junginger e Zoran D. Popovic, na revista Canadian Journal of Physics, no qual os autores não apenas mostram a principal falha no experimento de Mikhailov como também refazem a experiência corretamente e demonstram em laboratório (com equipamento relativamente simples) que a massa inercial de elétrons (que são partículas com carga elétrica) de fato não depende da distribuição de cargas ao redor, com uma margem de erro inferior a 1%. Na prestigiada revista Physical Review E, G. Cavalleri e colaboradores já tinham demonstrado em 1998 que a força eletrodinâmica de Weber dá a direção errada da radiação gerada por uma carga acelerada e que também não explica o fenômeno da luz síncrotron, amplamente confirmado em aceleradores de partículas do mundo todo.
Esse tipo de discussão mostra que, mesmo em se tratando de teorias consagradíssimas, pesquisadores de hoje ainda encontram questões bastante importantes cujas respostas não são tão óbvias. Apenas lecionar aquilo que já se conhece há décadas ou séculos não basta. É necessário praticar o senso crítico. Agora imagine o leitor o tipo de discussão e confusão que podem causar teorias bem mais recentes e complexas, como as de supercordas, tão discutidas nos dias de hoje. Ciência é isto: discussão. |