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edição 57 - Fevereiro 2007
Em busca da pilula da memória
Perspectivas para o tratamento da perda cognitiva associada ao envelhecimento e doenças neurológicas
por Rafael Roesler
Um estudante lê um texto diversas vezes, repete em voz alta e faz anotações, na tentativa de aprender fatos, datas ou conceitos e recordá-los horas ou dias mais tarde, no momento de uma prova. Na véspera de um exame, muitos jovens gostariam de ter à mão uma "pílula da memória" ou "pílula inteligente": um medicamento que pudesse facilitar a função cognitiva e ampliar a capacidade de adquirir, armazenar e recordar informações, tornando mais fácil e rápido o árduo processo de aprender pelo estudo.

A conveniência do uso de pílulas por indivíduos novos e saudáveis para tentar ampliar a capacidade de aprendizado e memorização é tema para debate. No entanto, tais medicamentos representam uma necessidade real e uma enorme esperança para as pessoas afligidas pela perda de memória que acompanha o envelhecimento, a doença de Alzheimer e outros tipos de doenças neurológicas e psiquiátricas. De fato, a busca da "pílula da memória" é hoje um dos grandes desafios da pesquisa médica, concentrando os esforços de vários laboratórios em universidades, empresas de biotecnologia e indústrias farmacêuticas.

Apesar dos espetaculares avanços no entendimento das bases biológicas da memória obtidos pelos neurocientistas, especialmente nas últimas duas décadas, não se pôde ainda encontrar nenhum medicamento que a auxilie na prateleira da farmácia mais próxima. Os efeitos de compostos que hoje são comercializados como facilitadores da cognição, como os suplementos fitoterápicos gingko biloba e ginseng, são controversos e muitas vezes decepcionantes quando avaliados em estudos clínicos rigorosos. Os medicamentos utilizados para o tratamento da doença de Alzheimer, como o donepezil, que aumenta a concentração do neurotransmissor acetilcolina, não melhoram a retenção de memórias de maneira satisfatória.

O desenvolvimento desse tipo de medicamento é complicado pela complexidade da memória. Por exemplo, não se sabe como facilitar de forma seletiva a capacidade de memorizar informações desejáveis sem ao mesmo tempo estimular a retenção ou a recordação de acontecimentos irrelevantes, desagradáveis, ou mesmo traumáticos. Além disso, algumas substâncias, como o hormônio cortisol, podem em determinadas condições estimular uma fase da memória (o armazenamento de informações), mas prejudicar outra (a recordação da informação já armazenada).
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Rafael Roesler Professor de farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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