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edição 80 - Janeiro 2009
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Em busca do tempo perdido
Antes de começar a tratar seres humanos com células-tronco embrionárias, precisamos resolver questões fundamentais
por Lygia da Veiga Pereira
[continuação]

Uma boa notícia leva a outra: logo em seguida, o governo federal anunciou o investimento de mais R$ 21 milhões em pesquisas com CTs, e a criação da Rede Nacional de Terapia Celular, com os objetivos de estruturar o esforço nacional de pesquisa em terapia celular, ampliar a geração de conhecimento por meio de uma maior interação na comunidade científica e qualificar novos profissionais. Essa rede deve criar uma grande sinergia entre os grupos brasileiros, acelerando o ritmo das pesquisas com células-tronco no país.

Finalmente, em outubro de 2008, nosso grupo anunciou o estabelecimento da primeira linhagem de CTs embrionárias humanas no Brasil, a BR-1 – ou seja, conseguimos extrair aquelas 50-100 células pluripotentes de um embrião descongelado, cultivá-las e multiplicá-las em milhões de células, que agora podem ser usadas para pesquisa por vários grupos brasileiros. Apesar de não ser inédito no mundo – afinal, as primeiras linhagens de CTs embrionárias humanas surgiram nos Estados Unidos em 1998, esse é um feito de grande importância para o país. Adquirimos autonomia em relação às pesquisas com CTs embrionárias, que antes dependiam do recebimento de células de grupos estrangeiros, amarradas a várias restrições de patentes. Passamos a dominar todos os processos envolvidos no uso terapêutico das CTs embrionárias, desde a retirada daquelas poucas células de um embrião até a transformação dessas células em neurônios capazes de tratar um camundongo com lesão de medula.

Mas, e os nossos pacientes? Quando poderão ser tratados com as CTs embrionárias? Por incrível que pareça, apesar dos ótimos resultados terapêuticos dessas células em várias doenças em modelos animais, no mundo todo ninguém recebeu ainda uma injeção de CTs embrionárias. Algumas empresas americanas comunicaram ter desenvolvido tratamentos seguros com essas células e já pediram licença para iniciar testes em seres humanos – provavelmente este ano. Assim, finalmente, saberemos se a promessa terapêutica dessas células se cumpre nos pacientes.

Como os leitores podem ver, o que chamei de “final feliz” foi na verdade um começo muito entusiasmado da busca pelo tempo perdido nas pesquisas com CTs embrionárias no país. Com a primeira linhagem brasileira – BR-1 – recuperamos bastante o atraso. Este ano seguiremos neste ritmo, contando com um governo comprometido com políticas bem definidas de prioridades nas pesquisas com células-tronco, unindo forças e criando condições para transformálas numa realidade terapêutica em benefício de toda a população.
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Lygia da Veiga Pereira é professora livre-docente e chefe do Laboratório de Genética Molecular do Instituto de Biociências da USP e autora dos livros Clonagem: da ovelha Dolly às células-tronco e Seqüenciaram o genoma humano... E agora? (Editora Moderna).
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