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Morro de Ipanema: conhecimentos

Várias linhas de estudo revelam o passado da bacia do Paraná

Aziz Nacib Ab`Sáber
O morro de Ipanema, situado na região de Iperó, entre Sorocaba e Boituva, no centro-sul da depressão periférica paulista, reserva um grande conjunto de conhecimentos de interesse para a educação.

Geomorfologicamente, é um acidente de grande exceção, emergente no meio de terras baixas colinosas que se estendem por mais de 12 mil km2.

Geologicamente, é a conseqüência de um vulcanismo hipoabissal tardio, anterior aos processos denudacionais que criaram a Depressão Periférica Paulista. Filogeograficamente, é um componente de um mosaico de ecossistemas sub-regionais que comporta cerrados e matas-galerias (vegetação ciliar), matinhas diferenciadas e descontínuas nas paredes sub-rochosas do morro. Existem também eventuais, porém altamente significativos, relictos de cactos mandacarus nas vertentes rochosas do morro. Esse fato, associado ao que já se conhece da região de Itu e Salto, permite reconstituir a história vegetacional da região. No passado ela abrigou caatingas, hoje relegadas a pequenos redutos de cactáceas, na forma de rupestres-biomas, logo seguidos por cerradões e cerrados recortados por florestas-galerias biodiversas. E, por fim, grandes matas tropicais nos morros de solos vermelhos argilo-arenosos das serranias de São Roque e Jundiaí. As florestas eliminaram importantes trechos de cerrado, mas não foram capazes de expulsar os minirredutos de cactáceas na serra do Jardim em Vinhedo e Valinhos, nos altos do Japi, na serra de São Francisco em Votorantim, em Salto e Itu, e no front rochoso das cuestas de Botucatu, e agora nos recém-identificados mandacarus dos morros de Araçoiaba e Ipanema.

Para entender essa época caracterizada por intrusões hipoabissais desfeitas em sills - massas tabulares de rocha ígnea que penetraram entre camadas de rocha mais antiga - nas soerguidas camadas de arenitos da formação de Itararé (originada no Carbonífero Superior), há que visualizar o fato de que o atual morro da Depressão Periférica comportava centenas de metros de espessura, que se estendiam até o embasamento de rochas cristalinas. As intrusões que perfuraram localmente o pacote de rochas da borda da Bacia Sedimentar do Paraná foram provavelmente as mais tardias em relação ao vulcanismo que precedeu os mega processos de separação da África e Brasil. Ao que tudo indica, primeiramente aconteceram os derrames basálticos e as intrusões hipoabissais de diabásios (rochas magmáticas cristalinas). A seguir, nos milhões de anos decorridos entre o Triássico Superior, o Jurássico e o Cretáceo Superior - através de bolsões magmáticos descontínuos e residuais - aconteceram as penetrações de sienitos em forma de ring dykes (diques anelares) de Itatiaia, da atual ilha de São Sebastião, Caxambu e alhures. Tudo acontecendo antes que a tectônica quebrável aparecesse no embasamento cristalino do Brasil de Sudeste. Ou seja, antes dos falhamentos que criaram a serra do Mar, a ilha de São Sebastião e a Mantiqueira. Por fim, um resíduo magmático, de grande exceção, teria interpenetrado a borda antiga da Bacia do Paraná, gerando a pequena área core, que mais tarde viria a ser o morro de Araçoiaba/Ipanema, com seus ankaratritos impregnados de magnetita. Um fato que, de resto, respondeu pelo histórico episódio da experiência industrial da Fazenda Ipanema.

Atendendo ao fato de que para muitos consulentes fica um tanto difícil entender questões geológicas de um sítio de exceção, como é o caso de Araçoiaba da Serra, julgamos algumas questões relacionadas com o desenvolvimento de Iperó, de intensificação da estrutura regional. Convém lembrar sempre que essa pequena cidade se localiza entre Sorocaba e a Fazenda Ipanema, que hoje é um verdadeiro patrimônio histórico no interior da Depressão Periférica Paulista.

Há que aproveitar a oportunidade para revitalizar Iperó, estabelecendo liames turísticos entre Sorocaba, Itu e Votorantim, para um ecoturismo cultural e científico. Uma tarefa para a qual muitos de nós podemos fazer proposições após sérios debates entre personalidades esclarecidas.