Entre eles, o mosaico de "campos" e "matas" que teriam existido no sistema de colinas e planícies da bacia de São Paulo. As perguntas se sucedem: quais as áreas recobertas por grandes extensões de florestas? Existiam tipos diferentes de matas e de campos? Evidentemente, as respostas a essas perguntas envolvem uma reconstituição dos ecossistemas primários que constituíam o Planalto de Piratininga (recentemente designado Planalto Paulista). Com toda certeza, por meio de incontestáveis indicadores (remanescentes de matas nas serranias que envolvem as colinas da bacia de São Paulo; áreas cercadas de morros baixos envolventes, tipo Cotia-Embu; interflúvios Alto Tietê-Médio Parateí; extensões de solos vermelhos e tipo oxissolos ditos argilas porosas; reversos da Serra do Mar), predominam florestas tropicais de planaltos.
As temperaturas médias da região de São Paulo variavam entre 18o e 19oC nas colinas e planícies, e entre 16o e 17o nas serranias envolventes (Cantareira, Itapeti, Caucaia do Alto, Taxaquara, Bonilha). As taxas de umidade e chuvas compensavam largamente as deficiências de calor. Chovia muito no verão, e pró-parte no inverno. Uma climatologia dinâmica, que se estabeleceu desde 9.500 ou 6 mil anos atrás, responsável pela ampliação lateral das largas planícies aluviais, embutidas nas colinas. Abaixo dos sedimentos aluviais ocorrem espessas massas de areias herdadas de outros climas e processos de sedimentação (40 mil a 45 mil anos atrás).
Se é fácil entender a história vegetacional das florestas - independentemente de suas variações de composição biótica -, é bem mais difícil saber o que os primeiros colonizadores chamavam de "campos". Mesmo sem mapear com um mínimo de precisão os ecossistemas regionais que se diferenciam das florestas predominantes, pode-se reconhecer uma tipologia de formações campestres na região de São Paulo e arredores: campos de várzeas semi-pantanosas, entre diques marginais florestados e as barrancas de terraços fluviais ou encostas de colinas onde recomeçavam matas de "terra firme"; ilhotas de campos cerrados em setores de solos rasos sobre veios de laterita ou crostas de limonita (tipo "Nova Cumbica"). "Matas feias" em restritos espaços arenosos fortemente hidratados (tipo "Altos de Boracéia"). Áreas de legítimos campos cerrados em espaços de solos arenosos pobres e topografia colinosa suave (Ibiúna - margens de reservatórios).
Para aqueles que vinham do litoral, através das densas matas da Serra do Mar e dos morros do reverso da serra, os primeiros descampados naturais estavam nas largas planícies do rio Tamanduateí: daí o nome Santo André da Borda do Campo. Na beira alta dos rios meândricos regionais, em estreitos diques marginais, ocorriam florestas ripárias. À margem dessas matinhas beiradeiras estendiam-se as várzeas, sujeitas a inundações parciais ou gerais durante a época das grandes chuvas. Na várzea ligeiramente elevada ocorria o ecossistema das florestas de várzeas, baixas e pouco densas, ainda hoje detectáveis em alguns raros lugares. Nos terraços fluviais mantidos por cascalheiras - os lugares mais dotados de terras firmes ao lado das planícies de inundação - aparecia um misto de campos, manchas de matas e eventuais bosques de araucárias, remanescentes de outras épocas paleoclimáticas e paleoecológicas. Foi na banda dos terraços, próximo da linha d\\'água, que se estabeleceram aldeias indígenas, vivendo na primeira terra firme, e tendo água para o banho, para cozinhar e para beber, peixe para pescar.
Os missionários jesuíticos escolheram uma alta colina, entre o Tamanduateí e o Anhangabaú, para construir a igreja e a escola do Pátio do Colégio: um sítio defensivo e um pequeno templo na borda leste das colinas, voltado para a zona leste da época (Brás, Mooca, Pari, Cambuci de Baixo), onde iria se estabelecer a primeira zona rural paulistana. Por muito tempo a cidade permaneceu voltada para lá, tendo a "boa vista" dos cercadinhos agrícolas dispostos entre campos de várzeas e terraços. |