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Artigos |
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| edição 21 - Fevereiro 2004 |
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| No coração gelado da Antártida |
| Memórias do primeiro brasileiro a pisar no Pólo Geográfico Sul |
| por Rubens Junqueira Villela |
O coração da Antártida é formado por um vasto planalto de gelo, cuja altitude varia de 1.500 a 4 mil metros acima do nível do mar. Essa região da calota polar, de área equivalente à do Brasil, é na verdade o maior deserto do planeta e a parte de sua superfície onde imperam as mais hostis condições à existência de vida. Nela se registrou o frio mais intenso da Terra (-89,2ºC na base Vostok, da Rússia); a escuridão da noite polar perdura de 4 a 6 meses; ventos incessantes varrem as planícies, esculpindo sulcos e ondulações (chamados "sastrugi") sobre a dura crosta de neve. O teor de umidade do ar durante o ano é comparável ao dos grandes desertos de areia (a neve cai raramente, mas empilhada camada sobre camada, vai se transoformando em gelo). Grande parte dessa calota de gelo assenta-se sobre o fundo rochoso do continente.Algumas montanhas apontam seus picos acima da superfície. Em outras partes, o gelo assenta-se sobre fundo muito abaixo do nível do mar.
O Pólo Sul geográfico -- o ponto teórico em que emerge na superfície o eixo ao redor do qual a Terra gira -- está situado no coração do Planalto Polar, a uma altitude de 2.835 metros, sobre gelo de mais de 2.500 metros de espessura. Em novembro de 1956, como conribuição ao Ano Geofísico Internacional, os Estados Unidos plantaram, no pólo, uma base chamada Amundsen-Scott e que desde então é ocupada permanentemente. A partir de 1975, a base foi reinstalada sob uma redoma de aluminio de 60 metros de diâmetro. Conseguiu-se assim evitar o esmagamento das edificações pelo acúmulo de neve arrastada pelo vento.
Novembro de 1961: pela segunda vez, estou de volta à Antártida com a marinha norte-americana, representando o que é atualmente o Conselho Nacional Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e credenciado como correspondente de imprensa. Dessa vez viajei num avião Constellation, da Nova Zelândia até a base de McMurdo, na ilha de Ross, precisamente de onde partiram Ernest Shackleton (em 1907) e Robert Falcon Scott (em 1911) em busca da conquista do pólo. As chances de visitar a base no pólo eram bem poucas, por isso meu grupo de convidados foi surpreendido, dia 17, pelo aviso do comandante Hahn: "Estejam preparados para um vôo ao pólo sul às 13h30. Levem toda a vestimenta pesada, inclusive as de uso em caso de emergência. O almirante Tyree estará no mesmo vôo".
O avião Hércules voou a 600 km/h sobre a grande geleira de Beardomore, precisamente sobre o áspero caminho descoberto por Shackleton em 1908 e escolhido por Scott em 1911 para alcançar o planalto polar e atiangir o pólo. Este "Amazonas azul", como a geleira já foi descrita, tem 200 km de comprimento por 60 km de largura. |
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 | Rubens Junqueira Villela É meteorologista e professor aposentado do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. |
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