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edição 60 - Maio 2007
Pesca e pesquisa no mar profundo
Investimento em pesquisa e conservação é fundamental para preservar a vida marinha
por Alberto Lindner e Marcelo V. Kitahara
Alberto Lindner/NOAA
O fundo do mar em profundidades superiores a 200 metros é a última grande fronteira marinha a ser explorada. Denominado “mar profundo”, esse gigantesco ambiente, cujo potencial para o desenvolvimento de pesquisas é igualmente imenso, representa dois terços da superfície total da Terra e mais de 90% do fundo oceânico.

Estima-se em mais de 1 milhão o número de espécies animais – ainda desconhecidas – que habitam o mar profundo. O estudo dessa biodiversidade é uma área de pesquisa emergente, e dezenas de novas espécies de peixes, corais e outros animais são descobertos anualmente. A grande vantagem dos programas de pesquisa recentes é a capacidade de observar os animais in situ, ou seja, no seu próprio ambiente, através da utilização de submarinos tripulados ou operados por controle remoto, os ROVs (Remotely Operated Vehicles). Descobertas marcantes realizadas com estes equipamentos incluem as fontes hidrotermais e, mais recentemente, os bancos de corais de profundidade.

Porém, a utilização de submarinos de pesquisa tem custo elevado, privilégio quase exclusivo do mundo desenvolvido. Conseqüentemente, pouco se sabe sobre a conformação tridimensional e a abundância dos ecossistemas de mar profundo nos países em desenvolvimento. E é nas águas profundas das regiões tropicais de países como o Brasil que existe o maior potencial para a descoberta de novas espécies de organismos marinhos. A falta de recursos financeiros dificulta os investimentos em pesquisa submarina de custo elevado. No Brasil, entretanto, já são utilizados submarinos não tripulados, principalmente pela indústria do petróleo. O que falta é desenvolver equipamentos específicos para as demandas da pesquisa básica, com sistema de coleta de espécimes e câmeras fotográficas e de vídeo de alta resolução.

No entanto, a grande preocupação de biólogos e oceanógrafos não é a carência de equipamentos no curto prazo, mas a possibilidade de os ecossistemas de mar profundo serem destruídos rapidamente por outra atividade humana: a indústria da pesca. A pesca em águas profundas brasileiras teve início no final da década de 90, através do arrendamento de embarcações estrangeiras. Ainda existem poucos dados sobre seu impacto no país, mas observadores de bordo relatam a captura de até 4 toneladas de corais de profundidade em um único lance de redes de arrasto. Esses relatos são corroborados por registros fotográficos dos corais no convés das embarcações de pesca e são evidência contundente da existência de bancos de corais de profundidade na Zona Econômica Exclusiva (ZEE) brasileira.
Alberto Lindner e Marcelo V. Kitahara
Muitos países estão proibindo a pesca de arrasto de fundo para evitar a futura destruição de ambientes marinhos ainda não explorados pela indústria pesqueira. No Alasca, por exemplo, a atividade foi banida em uma área de quase 1 milhão de km2. No mar mediterrâneo e no mar negro, esse tipo de pesca não é permitido em profundidades superiores a 1 mil metros, totalizando 1.630.000 km2 de área de exclusão de pesca.
É fundamental e urgente a implementação de medidas semelhantes no Brasil. Nossa proposta é que o governo federal proíba, como precaução, a pesca de arrasto de fundo em profundidades superiores a 1 mil metros na ZEE brasileira. Como a indústria da pesca ainda não explora essas regiões mais profundas, a medida não teria efeito econômico ou social. Além de preservar áreas de grande interesse científico, a proibição sinalizaria também que o país prioriza a conservação de áreas marinhas.

Atualmente, o Brasil protege menos de 1% dos 3.540.000 km2 de sua ZEE. As poucas áreas existentes de preservação marinha, como o Parque Nacional Marinho de Abrolhos, são, literalmente, ilhas no meio de um oceano desprotegido. Com a proibição da pesca de arrasto de fundo abaixo dos 1 mil metros, esse panorama mudaria radicalmente. O Brasil passaria a proteger a maior parte do fundo oceânico de sua Zona Econômica Exclusiva, tornando-a a segunda maior área de exclusão de pesca do mundo. Sem dúvida, um enorme impacto ecológico. E sem nenhum impacto econômico.

Alberto Lindner é Ph.D. pela Universidade Duke e pós-doutorando do Centro de Biologia Marinha da USP. Em 2002, participou da descoberta dos “Jardins de Coral” do Alasca, que resultou na 3a maior área de exclusão de pesca de arrasto do mundo. Marcelo V. Kitahara é mestre pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutorando do Coral Genomics Group, Universidade James Cook, Austrália. Em 2006, concluiu um dos mais detalhados estudos de corais de mar profundo da ZEE brasileira.
Alberto Lindner e Marcelo V. Kitahara Alberto Lindner é Ph.D. pela Universidade Duke e pós-doutorando do Centro de Biologia Marinha da USP. Em 2002, participou da descoberta dos “Jardins de Coral” do Alasca, que resultou na 3a maior área de exclusão de pesca de arrasto do mundo.
Marcelo V. Kitahara é mestre pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutorando do Coral Genomics Group, Universidade James Cook, Austrália. Em 2006, concluiu um dos mais detalhados estudos de corais de mar profundo da ZEE brasileira.
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