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Pesquisadores se tornam suas próprias cobaias em nome da ciência
 
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Apenas dois medicamentos são aprovados pela FDA para o tratamento do alcoolismo nos Estados Unidos. Nenhum dos dois funcionou para Olivier Ameisen, que usou um relaxante muscular com um propósito não previsto pela bula.
[continuação]

Finalmente, depois de convalescer em Paris em 2001 (para onde foi para ficar perto dos pais e parentes), Ameisen leu um estudo sobre um relaxante muscular que havia acabado com o desejo por cocaína de um dependente. O medicamento, o baclofen, também havia demonstrado eficácia no tratamento contra a ansiedade e depressão. Ansioso para experimentar o bacoflen, ele prescreveu uma dose alta para si mesmo. Dentro de algumas semanas, a necessidade de álcool havia evaporado. Quando o auto-experimento completou onze meses, ele publicou um estudo de caso sobre o auto-tratamento na revista especializada Alcohol and Alcoholism, e agora está escrevendo um livro chamado The End of My Addiction (“O fim da minha dependência”), em que registra sua jornada de sucesso.

Pesquisadores acreditam que o bacoflen pode aumentar os níveis cerebrais do neurotransmissor GABA (sigla para ácido gama-aminobutírico), envolvido na regulação do desejo por substâncias que provocam dependência, ao estimular um subgrupo de receptores GABA. Mas, ao contrário da experiência de Ameisen, um estudo duplo-cego recente com 80 alcoólatras na Escola de Medicina da University of North Carolina, em Chapel Hill, não encontrou nenhuma diferença no resultado entre as pessoas que tomaram baclofen e outras que receberam um placebo. No entanto, Ameisen ressalta que a dosagem de 30mg por dia dada os participantes do estudo era muito menor que sua dose diária de 270mg que, de acordo com estudos, as pessoas podem tolerar sem manifestar nenhum efeito colateral, como sonolência ou fraqueza muscular.

“O baclofen ainda está em discussão”, afirma James C. Garbutt, professor de psiquiatria e pesquisador sênior do estudo na University of North Carolina. Ele nota que a droga pode reduzir a ansiedade e a insônia que muitas vezes acompanham o afastamento do álcool, o que pode facilitar a transição para a sobriedade, mas diz também que os pesquisadores não podem prever precisamente quem pode se beneficiar da droga enquanto não houver um estudo mais abrangente.

Mesmo assim, Ameisen insiste que, para ele, o medicamento foi um salva-vidas. Agora, em vez de virar um litro e meio de uísque por dia, ele toma apenas 70mg de baclofen. Agora Ameisen já pensa em voltar a praticar a medicina, mas por enquanto está satisfeito em se corresponder com pesquisadores de substâncias que provocam dependência, diretamente de seu apartamento em Paris, e em encorajá-los a conduzir ensaios clínicos mais completos do baclofen.
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