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Pesquisadores se tornam suas próprias cobaias em nome da ciência

Deb Roy gravou a maior parte dos primeiros dois anos de vida de seu filho para tentar compreender como as crianças aprendem a usar a linguagem.
Auto-experimentação – Capítulo 5

200 mil horas de conversa de bebê podem desenrolar a língua de um robô?


Deb Roy espera tornar os robôs mais inteligentes fazendo-os imitar seu filho

Por Nikhil Swaminathan

Quando Deb Roy e sua esposa recebem convidados que irão conhecer seu filho de dois anos e meio – o casal está mantendo o nome em sigilo para proteger a privacidade da criança –, a primeira coisa a fazer é pedir às visitas que preencham um formulário de consentimento. Incomum, é verdade, mas o casal está apenas tentando avisar as pessoas que suas ações e vozes podem ser registradas pelas 11 câmeras olho de peixe e 14 microfones escondidos em sua casa em Cambridge, Massachusetts, e que captam quase todos os sons já proferidos por seu filho.

Os dois objetivos principais da parafernália são compreender como as crianças aprendem a usar a linguagem e então usar a inteligência vislumbrada para ensinar robôs a falar.

Roy, de 39 anos, chefe do grupo de máquinas cognitivas no Laboratório de Mídia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), está documentando cada “conversa” entre pais e filho naquilo que ele chama de Human Speechome Project (algo como “Projeto Fala Humana”). Ele estima que, quando terminar a frase de gravações do projeto, ao final deste ano, terá cerca de 200 mil horas de gravação em vídeo e áudio – ou cerca de 70% dos primeiros dois anos de seu filho, além de uma parte de seu terceiro ano de vida.
Será que um robô poderá aprender a falar usando um processo similar ao de uma criança que aprende a usar a linguagem?
Roy começou o projeto depois de chegar a um beco sem saída em um estudo com um robô chamado Toco. Quando era aluno de graduação do Laboratório de Mídia do MIT, ele queria ensinar o robô a falar; assim, programou Toco com um sofisticado programa de processamento de imagens e fala, combinado a algoritmos que podiam ser aprendidos por máquinas. No entanto, quando Roy colocou uma bola em frente à câmera de Toco, percebeu que a máquina não podia distinguir a diferença entre “bola” (o objeto) e “redondo” (a característica do objeto), já que ambos estavam representados da mesma maneira em sua memória de computador.

Então, Roy decidiu que o primeiro passo para superar essa dificuldade era descobrir como crianças aprendem a resolver o mesmo problema.

Pesquisadores já tinham tentando decifrar o processo de aquisição de linguagem, geralmente observando mães e seus filhos em um laboratório ou em ambiente doméstico. Mas era difícil chegar a conclusões rápidas e definitivas a partir de observações tão limitadas. “Na psicologia do desenvolvimento sempre valeu a pena coletar um grande número de dados com poucas crianças, ou uma pequena quantidade de dados de um grupo muito maior de crianças”, explica Steven Pinker, lingüista da Harvard University, que propôs uma idéia similar há muitos anos. Em casos como o de Roy, “os resultados se sustentam quando aplicados a amostras maiores, contanto que sejam analisadas questões básicas, para as quais as crianças provavelmente não demonstrarão uma grande variação individual”.
Roy planeja fazer um cruzamento dessa grande quantidade de dados para tentar identificar algum tipo de padrão na maneira como ele, sua esposa (Rupal Patel, professora de patologias da fala na Northeastern University, em Boston) e o filho falam, e como conceitos comuns são ensinados e aprendidos. (Ele ressalta que quando o pai e a mãe são professores, “você provavelmente é obrigado a ouvir muita conversa”). Ele espera reconstituir os processos mentais que permitem que a criança aprenda gradualmente a relacionar o significado e a expressão das palavras estudando certas “pistas”: que palavra foi dita (por exemplo, “comida?”), quem a disse (Patel); o que o emissor queria naquele momento (colocar o filho no cadeirão), e a resposta (“Não”).

Nada confortável com a idéia de observar estranhos 24 horas por dia, sete dias por semana, Roy preferiu deixar tudo em família (com o consentimento de Patel). Não que suas vidas sejam totalmente transparentes. Um botão de “emergência” permite que o casal delete coisas que prefere não deixar gravadas. Como mais uma medida de segurança, as transcrições de áudio são separadas e enviadas em seções aleatórias para os profissionais que fazem o serviço, o que limita a possibilidade de reconstituir acontecimentos do lar do casal.

A análise dessa “torre de bebê” só está começando, mas Roy já percebeu que parte das gravações poderia ajudar famílias de crianças com problemas de comunicação. “Se quisermos expandir o estudo ou ajudar outras pessoas em estudos similares, saberemos quais questões éticas são importantes.”
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