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“Cirurgia Genética” pode se tornar possível

Nova empresa pretende explorar potencial terapêutico de enzimas que recortam genes

Kent Dayton
Feng Zhang é um dos fundadores da Editas Medicine, que pretende usar a tecnologia CRISPR de edição genética para tratar doenças.
 

Por Helen Shen e Revista Nature

Em vez de tomar pílulas para tratar suas doenças, um dia pacientes poderão optar por uma ‘cirurgia’ genética – usando uma inovadora tecnologia de edição de genes para remover mutações nocivas e trocá-las por DNA saudável.

O sistema, chamado de CRISPR (Repetições Palindrômicas Curtas Regularmente Interespaçadas e Aglomeradas, em tradução literal), explodiu em popularidade no ano passado, com engenheiros genéticos, neurocientistas e até mesmo biólogos especializados em plantas vendo-a como uma ferramenta de pesquisa altamente eficiente e precisa. Agora, o sistema de edição genética produziu uma empresa de biotecnologia que está atraindo a atenção de investidores.

A Editas Medicine, com sede em Cambridge, no estado de Massachusetts, anunciou seu lançamento em 25 de novembro com um capital inicial de US$43 milhões. A empresa, fundada por cinco dos principais pesquisadores da CRISPR, planeja desenvolver terapias que modifiquem diretamente genes relativos a doenças 

“Essa plataforma poderia ter um profundo impacto sobre vários transtornos genéticos”, declara o presidente interino Kevin Bitterman, capitalista investidor da Polaris Partners em Waltham, Massachusetts, que é um dos financiadores da Editas

O melhor corte

A tecnologia CRISPR se baseia em uma estratégia imunológica que bactérias usam para detectar e remover DNA exógeno. A enzima de restrição Cas9 encontra seu alvo com a ajuda de uma sequência-guia de RNA que pesquisadores já conseguem modificar para visar praticamente qualquer gene de interesse.

A Editas não divulga os alvos que pretende atacar, mas a tecnologia pode ser testada pela primeira vez em doenças provocadas por uma única cópia genética incorreta, declara Feng Zhang, neurocientista do Instituto McGovern de Pesquisa Cerebral do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e um dos fundadores da Editas.

 A simples desativação da cópia que provoca a doença poderia abrir o caminho para que uma cópia saudável assuma o comando. Tratar doenças envolvendo duas cópias defeituosas de genes exigirá a correção do gene com a adição de DNA saudáel – um feito que, de acordo com Zhang, exigirá mais trabalho e modificações.

Competição acirrada

Abordagens convencionais de terapia genética usaram vírus para transportar DNA – um método comparativamente impreciso que pode introduzir genes benéficos, mas que não modifica sequências defeituosas.

A edição de genes específicos que a Editas está tentando fazer só foi dominada por uma empresa até o momento: a Sangamo BioSciences de Richmond, na Califórnia. A Sangamo usa um sistema diferente: nucleases com íons zinco (zinc finger), para recortar e desativar genes de interesse.

Muitos pesquisadores declaram que a CRISPR é mais fácil de usar e personalizar se comparada a nucleases zinc finger, mas a Sangamo tem uma boa vantagem sobre a Editas. Os testes clínicos da empresa estão mostrando resultados encorajadores ao usar zinc finger nucleases para interromper a codificação genética de uma proteína de superfície celular usada pelo HIV para invadir células do sistema imune.

“A CRISPR pegou o mundo acadêmico de surpresa, e é uma tecnologia nova bastante empolgante”, declara Philip Gregory, diretor científico da Sangamo.

Mas, de acordo com ele, ainda existem vários problemas a resolver, incluindo estudos que sugerem que a Cas9 pode fazer cortes em locais inesperados no genoma. Zhang explica que várias equipes, inclusive a sua, estão trabalhando para aumentar a especificidade da enzima, e que já obtiveram progresso.

As duas empresas esperam obter a aprovação da Food and Drug Administration dos Estados Unidos (FDA). “A FDA nunca aprovou um produto de terapia genética”, observa Nicholas Bishop, analista de biotecnologia da Cowen and Company em Nova York. A área está se recuperando lentamente de alguns fracassos importantes e letais com testes iniciais de terapia genética baseada em vírus. Atualmente, de acordo com Bishop, “o clima dos reguladores está melhorando consideravelmente”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 2 de dezembro de 2013.