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A Ciência das Armas

Dados podem ajudar no debate sobre o controle de armas nos Estados Unidos

Shutterstock
Cético por Michael Shermer

De acordo com os Centros para Controle e Prevenção de Doenças, 31.672 pessoas morreram  nos Estados Unidos devido a armas de fogo em 2010 (esses são os números mais recentes disponíveis), um número desconcertante que muito maior que o de democracias ocidentais comparáveis.

O que podemos fazer quanto a isso? O vice-presidente executivo da Associação Nacional de Rifles (NRA), Wayne LaPierre, acredita saber a resposta: “A única coisa que detém um bandido com uma arma, é um mocinho com uma arma”.

Se LaPierre se refere a policiais e militares treinados profissionalmente, que praticam em campos de tiro, essa observação seria pelo menos parcialmente verdadeira. Se ele se refere a cidadãos particulares com pouco ou nenhum treinamento, ele não poderia estar mais errado.

Considere um estudo de 1998 publicado no Journal of Trauma and Acute Care Surgery que descobriu que “para cada vez que uma arma doméstica foi usada em legítima defesa, ou de maneira legalmente justificável, havia 4 disparos acidentais,7 ataques criminosos ou homicídios, e 11 tentativas ou suícidios consumados”.

A fantasia que donos de armas têm, de explodir bandidos invasores de lares ou assaltantes de lojas de bebidas, é um mito desbancado por dados mostrando que é 22 vezes mais provável que uma arma seja usada em um crime, uma morte ou ferimento acidental, uma tentativa de suicídio ou um homicídio em vez de legítima defesa.

Eu acreditei nisso durante os 20 anos que tive uma Ruger .357 Magnum com munição de ponta oca, projetada para despedaçar o corpo de qualquer pessoa que ousasse invadir minha casa, mas quando descobri essas estatísticas, eu me livrei da arma.

Mais ideias podem ser encontradas em um livro de 2013 publicado pela Johns Hopkins University Press chamado Reducing Gun Violence in America: Informing Policy with Evidence and Analysis, editado por Daniel W. Webster e Jon S. Vernick, ambos professores de política e administração de saúde da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg.

Além das 31.672 pessoas mortas por armas em 2010, outras 73.505 foram tratadas em salas de emergência de hospitais devido a ferimentos não-fatais de balas, e 337.960 crimes violentos não-fatais foram cometidos com armas.

Desses 31.672 mortos, 61% foram suicídios, e a vasta maioria dos demais foram homícidios cometidos por pessoas que se conheciam.

Por exemplo, das 1082 mulheres e 267 homens mortos em 2010 por seus parceiros íntimos, 54% foram mortos por armas.

No último quarto de século, armas estiveram envolvidas em mais homicídios de parceiros íntimos do que todas as outras causas de morte juntas.

Quando uma mulher é assassinada, é mais provavelmente por seu parceiro íntimo usando uma arma.

Independentemente do que realmente fez com que o astro olímpico Oscar Pistorius atirasse em sua namorada, Reeva Steenkamp (se ele a confundiu com um invasor ou se enlouqueceu durante uma briga de amantes), a morte dela é apenas a manchete mais recente.

Lembre-se, também, do destino de Nancy Lanza, morta por sua própria arma, em sua própria casa em Connecticut, por seu filho, Adam Lanza, antes que ele fosse para a Escola Primária Sandy Hook assassinar duas dúzias de crianças e adultos.

Como alternativa a armar mulheres contra homens violentos, a legislação pode ajudar: dados mostram que em estados que proíbem a posse de armas por homens que receberam uma ordem restritiva doméstica, homicídios de parceiras íntimas provocados por armas foram reduzidos em 25%.

Outro mito a cair diante dos fatos é o de que leis de controle de armas desarmam pessoas de bem e deixam os bandidos com armas.

Não é bem assim, declaram os autores da Johns Hopkins: “A forte regulamentação e supervisão de vendedores de armas licenciados – definidos como tendo uma lei estadual ou local que exija licenciamento para vender armas de fogo, registros obrigatórios desses vendedores, acesso de fiscalizadores aos registros para inspeções, inspeções regulares de vendedores de armas, e relatórios obrigatórios de roubo ou perda de armas de fogo – foi associada a um desvio 64% menor de armas de fogo para criminosos por parte de vendedores de arma no estado”.

Finalmente, antes  armar todos os americanos até os dentes como sugere a NRA, considere a causa primária do declínio da violência que ocorre há séculos, como documentado por Steven Pinker em seu livro de 2011, Os Anjos Bons da Nossa Natureza: a soberania da lei em estados que deixaram a decisão de disputas a cargo de cortes judiciais e restringiram a justiça pessoal através do uso legítimo de força por parte de policiais e militares treinados no uso adequado de armas.