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A Civilização Minoica teve origem na Europa, não no Egito


Análises de DNA sugerem que os antigos cretenses eram descendentes de populações neolíticas

 


 

Cavorite/Flickr
Estudos de DNA sugerem que a civilização minoica pode ser europeia. Na imagem, o afresco Rainhas de Cnossos, do palácio Cnossos
Por Ewen Callaway e revista Nature

Da revista Nature

Quando o arqueólogo britânico Sir Arthur Evans descobriu o Palácio de Minos, de quatro mil anos de idade, em Creta em 1900, ele viu os vestígios de uma civilização há muito perdida com artefatos que a diferenciavam dos gregos da Idade do Bronze. Os minoicos, como Evans os chamou, eram refugiados do norte do Egito que haviam sido expulsos por invasores do sul há cerca de cinco mil anos, afirmou ele. 

Arqueólogos modernos questionaram essa versão dos eventos, e agora DNA ancestral recuperado de cavernas cretenses sugere que a civilização minoica emergiu dos primeiros agricultores que se estabeleceram na ilha milhares de anos antes.

Os minoicos floresceram em Creta durante 12 séculos até por volta de 1500 a.c., quando acredita-se que foram devastados por uma erupção catastrófica do vulcão Santorini e um tsunami subsequente. Eles são amplamente reconhecidos como uma das primeiras ‘altas culturas’ da Europa, renomados por sua cerâmica, metalurgia e afrescos coloridos. Sua civilização abasteceu mitos gregos como a história do Minotauro, a criatura meio-homem, meio-touro, que vivia em um labirinto.

Evans estava entre os primeiros a explorar Creta após sua independência do Império Otomano em 1898. A equipe que liderava descobriu o Palácio de Minos e encontrou artefatos muito diferentes dos da Grécia da Idade do bronze, incluindo túmulos circulares com paredes espessas que se pareciam com os dos antigos norte-africanos, e escritas ainda não decifradas batizadas de Linear A e hieróglifos minoicos.

Outros sugeriram que os minoicos se originaram no Oriente Médio, na atual Turquia ou no Mediterrâneo. Estudos genéticos de cretenses modernos tiveram pouco consenso.

George Stamatoyannopoulos, geneticista da University of Washington, em Seattle, que trabalha no problema há mais de uma década, esperava encerrar o debate examinando o DNA de minoicos que viveram milhares de anos atrás. “Uma de minhas motivações quando iniciei a coisa toda era ver se Sir Arthur Evans estava certo ou não”, declara ele.

A equipe de Stamatoyannopoulos organizou amostras de ossos e dentes de mais de 100 pessoas que viveram em Creta entre 4900 e 3800 anos atrás. Conseguiram recuperar DNA mitocondrial, que é transmitido pela linhagem materna - de 37 deles . A equipe analisou as amostras em dois laboratórios diferentes – um método de controle de qualidade comum em trabalhos com DNA antigo.

Troca cultural

As amostras minoicas tinham 21 marcadores de DNA mitocondrial diferentes, incluindo seis exclusivos de minoicos e 15 comuns nas populações modernas, da Idade do Bronze e em populações europeias do Neolítico. Nenhum dos minoicos tinha marcadores mitocondriais semelhantes aos de populações africanas do presente. Os resultados foram publicados online na Nature Communications em 14 de maio. 

De acordo com Stamatoyannopoulos, é provável que os minoicos sejam descendentes de populações Neolíticas que migraram para a Europa a partir do Oriente Médio e da Turquia. Escavações arqueológicas sugerem que agricultores antigos já viviam em Creta há cerca de nove mil anos, então eles poderiam ser ancestrais dos minoicos. Semelhanças entre artefatos minoicos e egípcios provavelmente foram resultado de trocas culturais pelo Mar Mediterrâneo navegável, e não de grande migrações, adiciona ele.

Wolfgang Haak, arqueólogo molecular da University of Adelaide na Austrália, acredita que a história inicial de Creta provavelmente é mais complicada, com várias populações Neolíticas chegando em momentos diferentes. “De qualquer forma, é bom ver alguns dados – se autênticos – dessa região da Europa contribuindo para esse problema grande e complexo”, comenta ele.

Stamatoyannopoulos aponta que as descobertas de sua equipe são limtiadas, porque o DNA mitocondrial representa apenas uma única linhagem materna para cada indivíduo – a mãe de uma mãe, e assim por diante. Com Johannes Krause, um paleogeneticista da Universidade de Tubingen, na Alemanha, a equipe agora planeja sequenciar os genomas nucleares de minoicos e outros ancestrais para aprender mais sobre sua história.

“Desde os últimos 30 ou 40 anos, há uma percepção cada vez maior de que a Creta Minoica foi fundada por populações da própria ilha”, explica Cyprian Broodbank, arqueólogo mediterrâneo do University College London. Ele dá as boas-vindas à mais recente linha de apoio para essa hipótese. “É bom ter algumas das velhas suposições de que minoicos migraram de alguma outra alta cultura resolvidas”, conclui ele.

Este artigo foi publicado com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 14 de maio de 2013.

19maio2013