Saswato R. Das
| Laboratório Nacional de Los Alamos |
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A explosão Starfish Prime produziu elétrons energéticos que viajaram ao longo das linhas do campo magnético da Terra e produziram fenômenos de aurora que puderam ser vistos até em Honolulu.
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Em 1962, um pequeno satellite esférico pesando cerca de 77 kg foi lançado de Cabo Canaveral. Seu nome era Telstar 1 e ele foi o primeiro satélite comercial de telecomunicações – o pioneiro de uma longa linhagem que nos levou ao mundo digital de hoje, onde programas de televisão e outras mídias são facilmente acessíveis de qualquer lugar do globo.
No mês de fevereiro seguinte, porém, o Telstar 1 estava completamente destruído por elétrons energéticos de um teste nuclear de alta altitude dos Estados Unidos.
Walter Brown, engenheiro do Bell Laboratories que trabalhou no projeto, lembra dos triunfos e da precoce destruição do Telstar 1. Atualmente professor de ciência de materiais e engenharia na Lehigh University, ele recorda que seu trabalho era “examinar como a radiação no espaço afeta células solares e semicondutores” – e ele conseguiu muito mais do que esperava.
Na véspera do lançamento, os Estados Unidos haviam produzido uma explosão nuclear a 400km de altitude, a sudoeste da Ilha Johnston, no oceano pacífico. O teste, conhecido como Starfish Prime, liberou uma energia equivalente a 1,4 megatons (milhões de toneladas) de TNT, criando um enorme pulso eletromagnético que produziu uma aurora espetacular sobre o pacífico.
“As pessoas que dispararam a explosão ficaram completamente surpresas pelo enorme número de elétrons de alta energia que foi liberado”, observa Brown. “Elas não tinham ideia de que isso aconteceria até começarmos a ver o fluxo, cem vezes maior do que o previsto”.
Sem querer, o satélite se tornou um experimento para analisar o resultado de uma explosão nuclear sobre equipamentos eletrônicos. “Aprendemos muito sobre radiação com o Telstar 1”, ressalta ele. “A princípio, o satélite não podia ser ligado, alguns transistores tinham falhado. Mas os engenheiros eletrônicos deram um jeito e ele funcionou”.
Os esforços conseguiram tempo suficiente para que o satélite provasse seu valor. Em 11 de julho de 1962, um dia após o lançamento, o Telstar 1 retransmitiu as imagens de uma bandeira americana, localizada do lado de fora de uma estação base em Andover, no estado do Maine, para uma em Pleumeur-Bodou, na França. Brown se lembra do que aconteceu na estação de Andover quando o satélite foi ligado e a transmissão de rádio começou: “O líder do projeto, Eugene O’Neill, deu vivas e fez sinais positivos – e de repente todos o imitavam”.
Em 23 de julho de 1962, o Telstar 1 transmitiu um programa estrelando Walter Cronkite, um jogo de baseball e segmentos de uma conferência de imprensa do presidente Kennedy. Naquela tarde ele transmitiu a primeira ligação telefônica sem cabo pelo Atlântico.
O Telstar 1 justificou a visão de John Robinson Pierce, um famoso engenheiro do Bell Labs que havia calculado que 25 satélites colocados em órbitas adequadas ao redor da Terra poderiam fornecer comunicação contínua entre quaisquer dois pontos do globo, retransmitindo sinais. O primeiro teste de sua ideia foi o satélite Echo 1, um balão gigante de 30 metros de diâmetro que a Nasa lançou em 1960. Conhecido como satélite de comunicações passivo, por não carregar eletrônicos, ele agia como um grande refletor de sinais e foi usado pelos engenheiros do Bell Labs para retransmitir sinais de telefone, rádio e televisão. Já o Telstar 1 foi mais longe: ele tinha sua própria fonte de energia – células solares que geravam aproximadamente 14 watts de força e um transponder para receber e retransmitir sinais de televisão ou chamadas telefônicas.
Seu sucesso inspirou uma geração inteira de cientistas e engenheiros. Louis Lanzerotti, físico do Instituto de Tecnologia de New Jersey que passou muitos anos nos Bell Labs e trabalhou em missões espaciais como a Voyager, Ulysses e Galileo, era estudante de pós-graduação em física nuclear na Harvard University quando o Telstar 1 entrou em órbita. “Os alunos de pós-graduação no laboratório de cíclotron comentavam isso”, lembra ele. “Falávamos em mandar sinais pelo Atlântico”.
Mas o inevitável não podia ser adiado por muito tempo: em fevereiro de 1963, o acúmulo de danos radioativos finalmente fez os transistores do Telstar 1 falharem de maneira irreparável. Felizmente, os elétrons energizados haviam se dissipado quando a Nasa lançou o Telstar 2, um ano depois. Nessa época, tanto os Estados Unidos quando a União Soviética haviam cessado os testes nucleares de alta altitude.