Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

A Estrela Vizinha Tem um Planeta?

Astrônomos descobrem evidências de exoplaneta no sistema estelar mais próximo de nós

ESO/L. Calcada
Conforme as transmissões de rádio e televisão da humanidade atingem o espaço e se propagam pela galáxia à velocidade da luz, especulamos quem pode estar ouvindo – e o que eles podem saber sobre nós. Uma civilização hipotética a 50 anos-luz de distância, com tecnologia para receber e decifrar nossas ondas de rádio, ouviria notícias de um planeta imerso na Crise dos Mísseis de Cuba, com imagens e sons de 1962 chegando a seus detectores.

Uma civilização alienígena habitando o sistema mais próximo do Sol, por outro lado, estaria muito mais atualizada com a vida moderna na Terra. Os extraterrestres de lá poderiam acompanhar os últimos meses da disputa presidencial de 2008 entre os senadores John McCain e Barack Obama – sem um julgamento muito severo da humanidade com base em todas aquelas propagandas políticas negativas, espero.

Até recentemente, porém, não se conhecia nenhum planeta que orbitasse uma das estrelas do trio mais próximo do Sol: Proxima Centauro, Alfa Centauro A e Alfa Centauro B. Agora uma equipe de pesquisadores europeus revigorou as esperanças de que nosso sistema solar de fato tenha vizinhos próximos. Em um artigo publicado on-line em 17 de outubro na Nature, a equipe relatou a descoberta de um planeta extrassolar orbitando Alfa Centauro B, a apenas 4,3 anos-luz de distância. (Scientific American é parte do Nature Publishing Group).

“Alfa Centauro B é, claro, um caso muito especial”, declarou o coautor do estudo, Stéphane Udry do Observatório de Genebra, na Suíça, em uma teleconferência com jornalistas. “Esse é nosso vizinho mais próximo”. O segundo exoplaneta mais próximo conhecido, Epsilon Eridani b, fica duas vezes mais longe.  

“Para mim, essa é a descoberta da década”, elogia a astrônoma Debra Fischer, da Yale University, que não participou do novo estudo. “É o sistema estelar mais próximo”, exclamou. 

Mas o mundo recém-descoberto, que por convenção receberá a estranha designação Alfa Centauro B b, é mais que uma novidade estatística. Ele deve ser um planeta rochoso como a Terra – sua massa pode ser até 1,13 vezes a de nosso planeta. E apesar de ser quente demais para sustentar a vida como a conhecemos, sua presença sugere que outros planetas podem existir em órbitas mais temperadas dentro do mesmo sistema planetário. 

“Esses planetas rochosos tendem a ocorrer em conjuntos”, aponta Fischer. “Podemos apostar que há mais planetas rochosos ao redor de Alfa Centauro B. Eles serão mais externos e podem estar numa zona habitável”.

É claro que essa suposição depende da validade da descoberta exoplanetária. A alegada descoberta está na fronteira do que é detectável com os melhores instrumentos astronômicos, e ainda precisa ser confirmada por outros astrônomos.

Udry e seus colegas encontraram o suposto planeta ao rastrear efeitos Doppler na luz estelar de Alfa Centauro B – o chamado método da velocidade radial de busca planetária. Planetas em órbita exercem um arrasto gravitacional sobre suas estrelas hospedeiras; alguns aceleram a estrela minimamente na direção da Terra, ou na direção oposta. O espectrógrafo HARPS da equipe de Genebra, instalado em um telescópio de 3,6 metros no Observatório La Silla, no Chile, é o melhor instrumento do mundo para medir pequenas mudanças em velocidades radiais interestelares.

Quanto menor é o planeta, menor é o empuxo gravitacional. Com aproximadamente a massa da Terra, o planeta que orbita Alfa Centauro B fica entre os menores conhecidos. Para extrair seu minúsculo sinal, os pesquisadores precisaram monitorar cuidadosamente e caracterizar a atividade de longo prazo da estrela. Assim como o Sol, onde manchas solares magnéticas aparecem aos montes e depois quase desaparecem enquanto seguem um ciclo de 11 anos, Alfa Centauro B também demonstra um padrão cíclico de atividade estelar. Manchas magnéticas podem mudar o fluxo convectivo do plasma dentro de uma estrela, o que por sua vez afeta sua velocidade medida em relação à Terra.

“Em Alfa Centauro B observamos um ciclo magnético de aproximadamente oito anos”, explicou o principal autor do estudo, Xavier Dumusque do Observatório de Genebra, na teleconferência. “Durante fases de atividade diferentes, a estrela pode apresentar  uma quantidade cada vez maior de manchas, o que perturba sua velocidade radial”.

Dumusque destacou que ele e seus colegas observaram Alfa Centauro B mais de 450 vezes durante vários anos para entender seu comportamento. Depois de subtrair os movimentos orbitais da estrela, bem como os efeitos presumidos de manchas estelares e seus semelhantes, o que restou foi uma minúscula flutuação – acelerações e desacelerações alternadas, atribuídas ao arrasto gravitacional de um planeta de pouca massa em uma órbita de 3,2 dias. O empuxo do planeta faz uma minúscula interferência de aproximadamente 50 centímetros por segundo na velocidade de Alfa Centauro B, que atualmente se move a cerca de 20 quilômetros por segundo em relação à Terra.

“Essa é uma detecção muito difícil de fazer”, admite Fischer. “Eu sei que a equipe da Suíça é extraordinariamente cuidadosa. Tenho muita confiança neles”. O grupo de Genebra foi o primeiro a descobrir um exoplaneta orbitando uma estrela parecida com o Sol, em 1995, e desde então já encontrou mais de 100 mundos novos. Outro grande caçador de planetas, Geoff Marcy da University of California, Berkeley, declara que a evidência para o novo planeta parece forte. “Se a existência do planeta estiver correta, e acredito que esteja, essa será uma descoberta histórica”, escreveu ele em um email. “É possível cuspir uma semente de melancia e acertar Alfa Centauro”.

Fischer conta que ela e seus colegas aprimoraram sensivelmente seu espectrógrafo no Chile, e que estão verificando se seus próprios dados podem contribuir para confirmar a existência de um planeta ao redor de Alfa Centauro B. Enquanto isso, astrônomos do mundo todo sem dúvida se voltarão para nosso sistema estelar mais próximo com interesse renovado e esperança de encontrar outros planetas por lá, especialmente planetas que possam abrigar vida. “Na verdade, isso me deixa muito otimista. Estou super animada com esse resultado”, declara Fischer. “Eu queria ter descoberto esse planeta”. 
Nas bancas!                     Edições anteriores                                            Edições especiais                              
Conheça outras publicações da Duetto Editorial
© 2012 Site Scientific American Brasil • Duetto Editorial • Todos os direitos o reservados.
Site desenvolvido por Departamento Multimídia • Duetto Editorial.