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A história das “estrelas além do tempo” reais da NASA

Mulheres negras trabalhando nos bastidores como “computadores humanos” foram vitais para a Corrida Espacial

Nos anos 60, os astronautas do programa Mercury Alan Shepard, Gus Grissom, John Glenn e outros absorviam as glórias de serem os primeiros homens norte-americanos a viajarem para o espaço. Nos bastidores, eles receberam ajuda de centenas de funcionários anônimos da Nasa, incluindo os “computadores humanos” que realizavam os cálculos para as suas trajetórias orbitais. O filme “Estrelas Além do Tempo” (2016), baseado no livro “Hidden Figures” de Margot Lee Shetterly, celebra as contribuições de algumas dessas funcionárias. A estreia no Brasil será no dia 2 de fevereiro.

Em 1935, o Comitê Nacional para Aconselhamento sobre Aeronáutica (Naca, na sigla em inglês), precursor da Nasa, contratou centenas de mulheres como computadores, ou seja, para resolver equações matemáticas e cálculos à mão, de acordo com uma história da Nasa. As computadores trabalhavam no Laboratório Aeronáutico Langley Memorial, em Virgínia.

O conceito de computadores humanos não era novo. No final do século 19 e início do 20, mulheres “computadores” na Universidade de Harvard analisavam fotos de estrelas para aprender mais sobre suas propriedades básicas. Essas mulheres fizeram descobertas ainda hoje fundamentais para a astronomia.  Por exemplo: Williamina Fleming é conhecida principalmente por ter classificado as estrelas com base em suas temperaturas, e Annie Jump Cannon desenvolveu um sistema de classificação estelar usado até hoje (das estrelas mais frias para as mais quentes: O, B, A, F, G, K, M.)

Durante a Segunda Guerra Mundial, o número de computadores cresceu. Langley começou a recrutar mulheres negras com diplomas de graduação para trabalhar como computadores, de acordo com a Nasa. No entanto, as políticas de segregação racial vigentes na época exigiam que essas mulheres trabalhassem em uma seção separada, chamada de Computadores da Área Oeste  — embora as seções de computação tenham se tornado mais integradas depois dos primeiros vários anos.

Com o passar dos anos e a evolução do centro, as computadores da Área Oeste se tornaram engenheiras, programadoras de computadores digitais, as primeiras gerentes negras do Langley e gênios de trajetórias, cujo trabalho lançou o primeiro norte-americano, John Glenn, para a órbita em 1962.

"Estrelas Além do Tempo” foca em três computadores específicos: Mary Jackson, Katherine Johnson e Dorothy Vaughan. Aqui está um pequeno trecho da biografia desses mulheres:

 
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MARY JACKSON (1921-2005)

Jackson veio de Hampton, Virginia. Ela se formou com notas altas do ensino médio e recebeu um diploma de bacharel de ciência do Instituto Hampton de Matemática e Física, de acordo com a biografia postada no site da Nasa. Ela iniciou sua carreira como professora, e teve outros vários empregos antes de entrar no Naca.

Como computador na seção de Computação da Área Oeste, ela esteve envolvida com trabalhos relacionados a túneis de vento e experimentos de voo. O trabalho dela era extrair dados relevantes desses experimentos. Ela também tentava ajudar outras mulheres a avançarem em suas próprias carreiras, de acordo com a biografia, dando conselhos a respeito de quais oportunidades educacionais seguir.

"Ela descobriu que geralmente era algo tão simples quanto a falta de alguns cursos, ou talvez a localização do indivíduo, ou então as tarefas dadas a elas, e, claro, o sempre presente teto de vidro que a maior parte das mulheres parecia encontrar,” afirma a biografia.

Depois de 30 anos no Naca e na Nasa (onde ela eventualmente se tornou engenheira), Jackson decidiu se tornar uma especialista em oportunidades iguais para ajudar mulheres e minorias. Embora seja descrita como uma trabalhadora de bastidores, ela ajudou muitas pessoas a serem promovidas ou a se tornarem supervisoras. Ela se aposentou da Nasa em 1985.

 
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KATHERINE JOHNSON (Nascida em 1918)

Johnson demonstrou um brilhantismo precoce nas escolas da Virgínia Ocidental e foi colocada em séries avançadas para sua idade, de acordo com a Nasa. Ela cursou o ensino médio aos 13 anos em uma escola no campus da Faculdade Estadual da Virgínia Ocidental, e aos 18 começou seus estudos na mesma faculdade. Depois de se formar com as maiores honras, começou a trabalhar como professora em 1937.

Dois anos depois, quando a faculdade decidiu integrar suas escolas de graduação, vagas foram oferecidas para Johnson e dois colegas homens. Ela se inscreveu rapidamente, mas saiu para ter filhos. Em 1953, quando ela voltou para o mercado de trabalho, Johnson passou a fazer parte da seção de Computação da Área Oeste do Langley.

Ela começou trabalhando com dados de testes de voo, mas sua vida mudou rapidamente depois que a União Soviética lançou seu primeiro satélite em 1957. Por exemplo, suas equações matemáticas foram usadas em um compêndio de palestras chamado Notas sobre Tecnologia Espacial. Essas palestras eram ministradas por engenheiros que formaram o Grupo de Tarefa Espacial, a seção de viagens espaciais do Naca.

Nas missões do programa Mercury, Johnson fez a análise de trajetória para a missão Freedom 7, de Shepard, em 1961, e (a pedido de John Glenn) fez o mesmo trabalho para sua missão orbital em 1962. As trajetórias de Glenn já eram planejadas por computadores digitais, mas o astronauta fez questão que a própria Johnson analisasse os números para ter certeza de que estavam certos.

"Quando questionada sobre sua maior contribuição para a exploração espacial, Katherine Johnson menciona os cálculos que ajudaram a sincronizar o lander lunar do Projeto Apollo com o módulo de comando e serviço que orbitava a Lua,” escreveu a Nasa. “Ela também trabalhou no ônibus espacial e no Satélite de Recursos Terrestres, e foi autora e coautora de 26 relatórios de pesquisa.”

Johnson se aposentou da Nasa em 1986. Aos 97 anos, em 2015, recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior honra civil dos Estados Unidos.

 
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DOROTHY VAUGHAN (1910-2008)

Vaughan começou a trabalhar no Langley Memorial em 1943 depois de ter iniciado sua carreira como professora de matemática em Farmville, Virgínia. Seu emprego e posição durante a Segunda Guerra Mundial eram temporários, mas (em parte graças à uma nova ordem executiva que proibia discriminação nas indústrias de defesa) ela foi contratada permanentemente porque o laboratório possuía uma riqueza de dados para processar.

Mesmo assim, a lei exigia que ela e suas colegas negras trabalhassem separadas das computadores brancas, e as primeiras supervisoras também eram brancas. Vaughan se tornou a primeira supervisora negra do Naca em 1949 e garantia que suas funcionárias recebessem promoções e aumentos quando mereciam.

A segregação acabou em 1958, quando o Naca virou Nasa e essa última criou uma divisão de análise e computação. Vaughan era uma programadora especialista em FORTRAN, uma linguagem computacional proeminente da época, e também contribuiu para um foguete lançador de satélites chamado Scout (Teste de Utilidade Orbital Controlado Sólido). Ela se aposentou da Nasa em 1971.

 

Elizabeth Howell, SPACE.com

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