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Linhagem neandertal teve longo período de evolução

Conjunto de fósseis encontrados na Espanha pertencem a um ramo extinto da família humana

© Javier Trueba/Madrid Scientific Films
Crânio do sítio paleontológico de Sima de los Huesos, na Espanha, mostra características neandertais precoces.

 

 
Por Kate Wong

Em uma pequena caverna aninhada nas entranhas das montanhas Atapuerca, no norte da Espanha, encontra-se uma das descobertas paleontológicas mais extraordinárias de todos os tempos: um massivo conjunto de fósseis pertencentes a um membro extinto da família humana. O local é conhecido como Sima de los Huesos, o “poço de ossos”. Nele, cientistas encontraram pistas sobre a origem do homem de Neandertal.

Pesquisadores vêm escavando o sítio há anos e já recuperaram mais de 6.500 ossos de pelo menos 28 indivíduos até o momento. A descoberta oferece uma rara oportunidade de estudar um grupo populacional pré-histórico, em vez de apenas um exemplar. Agora, uma nova análise de 17 crânios do sítio está fornecendo novos insights.

Em um artigo divulgado em 19 de junho na publicação científica Science, Juan Luis Arsuaga, do Centro Misto UCM-ISII de Evolução e Comportamento Humanos, em Madri, e colaboradores relatam que os fósseis mostram que os neandertais tinham profundas raízes evolutivas; e que seus traços distintos evoluíram aos poucos e não como um conjunto, de uma só vez.

Os crânios de Sima datam do Pleistoceno Médio, há cerca de 430 mil anos, um período pouco compreendido da evolução humana, e exibem algumas características marcantes de neandertal, como o centro projetado da face, além de uma série de particularidades nos dentes e maxilares.

Eles são os fósseis mais antigos a revelar essas afinidades com nossos primos neandertais, embora não tenham seu clássico “chignon” (coque, em francês), um osso que se projeta pronunciadamente na parte posterior do crânio, e outros aspectos da caixa craniana neandertal.

Em resumo: para a equipe de cientistas, essa mistura de traços neandertais e não-neandertais indica que os fósseis de Sima representam um membro precoce do chamado clado-Neandertal — não o Homo neanderthalensis, mas uma espécie ou subespécie intimamente aparentada. [Em filogenia, um clado é um agrupamento que inclui um ancestral comum e todos os descendentes viventes ou extintos desse ancestral.]

Arsuaga e seus colegas observam que os traços neandertais evidentes nos crânios de Sima estão todos relacionados à mastigação, sugerindo que “a origem do clado Neandertal coincide com uma especialização mastigatória”.

Ainda não está claro de que tipo de especialização se trata, embora pesquisadores tenham argumentado anteriormente que os neandertais usavam seus dentes como uma “ferramenta preênsil” quando mexiam com peles de animais ou processavam alimentos. Eles podem, por exemplo, ter segurado uma extremidade de uma pele com uma mão enquanto agarravam a outra com os dentes, deixando uma mão livre para raspar a pele (o couro com pelos) da pele.

O cérebro da linhagem neandertal só expandiu mais tarde no processo evolutivo, atingindo um volume próximo ao do Homo sapiens anatomicamente moderno. Embora esses aumentos em tamanho ocorressem paralelamente nas linhagens do Neandertal e do H. sapiens, eles não produziram cérebros idênticos nos dois grupos.

Em um comentário que acompanha o relato publicado na Science, o paleoantropólogo Jean-Jacques Hublin do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, salienta que “há evidências claras de que o padrão de crescimento de cérebros humanos modernos desvia do de neandertais. Em humanos modernos, as áreas parietais e o cerebelo se expandiram bem no início do processo evolutivo, em uma fase crucial para o estabelecimento de habilidades cognitivas”. 

Em uma teleconferência à imprensa, Arsuaga comparou a Europa do Pleistoceno Médio a um mundo igual ao que reinaem A Guerra dos Tronos (Game of Thrones, em inglês), no qual diferentes populações de todo o continente competiam e se misturavam alternadamente, à medida que lutavam para sobreviver às oscilações climáticas da Era do Gelo. “O inverno estava chegando”, explicou ele. “O inverno chegou muitas vezes”.

 

Sobre a autora: Kate Wong é uma editora e redatora da Scientific American, que cobre paleontologia, arqueologia e ciências da vida. Siga-a pelo Twitter em @katewong.

As opiniões expressas são as da autora e não necessariamente as da Scientific American.

Sciam 19 de junho de 2014

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