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A mãe da era atômica

Lise Meitner solucionou a questão da fissão nuclear - e embora nunca tenha ganho um Nobel, é a única mulher fora da mitologia a ter um elemento químico com seu nome

Wikimedia Commons
Pouco antes do Natal de 1938, sentada no tronco de uma árvore nas florestas nevadas da Suécia, a física austríaca Lise Meitner e seu sobrinho favorito, Otto Frisch - também físico - fizeram uma série de cálculos em restos de papel. Eles trabalhavam a pedido de colegas na Alemanha, que encaravam um mistério. Alguns experimentos pareciam mostrar que, quando bombardeados com nêutrons, os átomos de urânio se dividiam em elementos mais leves, em vez de se tornarem elementos mais pesados como era de se esperar. Os alemães apelaram a Meitner por uma explicação - e ela a forneceu. O urânio estava, de fato, se dividindo, liberando uma “explosão” de energia cinética, exatamente consistente com a famosa equação E = mc², de Einstein. Ela e Frisch inventaram o termo fissão nuclear para o processo. E, com isso, a era atômica começou.

Em 29 de agosto de 1982, quase 44 anos após essa extraordinário avanço - e 35 anos atrás nesta semana - o elemento radioativo sintético (isto é, que não ocorre naturalmente) meitnério foi criado pela primeira vez. O único elemento, até hoje, a receber o nome de uma mulher que não era uma figura mitológica, ele foi batizado em homenagem a Meitner, uma verdadeira pioneira na pesquisa sobre radioatividade.

Lise Meitner (1878 - 1968) nasceu em Viena, na Áustria, e foi a terceira de oito crianças em uma família judia de classe média. Embora a educação de uma menina terminasse aos 14 anos nos padrões austríacos do século XIX, Lise continuou a ter aulas particulares e, em 1905, conseguiu seu doutorado em física pela Universidade de Viena. Ela foi a segunda mulher a fazer isso na instituição. Foi lá que Ludwig Boltzmann, seu professor universitário, introduziria nela “a visão da física como uma batalha pela verdade suprema”. Esta visão persistiria durante toda sua vida.

Após alguns trabalhos iniciais em radioatividade, em 1907, ela decidiu ir a Berlim para trabalhar com Max Planck. Em Berlim, Meitner foi obrigada (pela política da universidade sobre mulheres) a pedir a permissão de Planck para participar de palestras. Embora hesitante (e notando que ela possuía um doutorado), ele concordou. Meitner, entretanto, também estava interessada em fazer pesquisa científica e iniciou uma colaboração com Otto Hahn. Foi uma combinação perfeita, com Hahn como químico experimental e Meitner como física teórica.

Como assistente do Instituto de Química da Universidade de Berlim, Hahn tinha acesso a algumas das melhores instalações. Meitner, por outro lado, não possuía uma posição profissional (já que era mulher) e só tinha permissão para fazer seu trabalho nos confins de um antigo armário de carpinteiro localizado no porão do instituto. O único banheiro acessível para ela ficava em um restaurante, na rua. Finalmente, em 1909, as universidades prussianas começaram a diminuir suas barreiras para mulheres e, agora, Meitner tinha acesso aos laboratórios do instituto (e a conveniência de um banheiro feminino recentemente instalado).

Hahn e Meitner deram grandes passos em seu trabalho com radioatividade, o que levou a uma rápida sucessão de artigos: três em 1908 e seis em 1909. Em 1912, Meitner e Hahn se mudaram para o novo Instituto de Química Kaiser Wilhelm; Meitner finalmente saiu do armário de carpinteiro. Aqui, Meitner não trabalhava como “física convidada” e, um ano depois, seu cargo se tornou permanente.

Em 1917, ela finalmente recebeu sua própria seção de física e um salário quase (porém não o bastante) equivalente ao de Hahn. Por volta da mesma época, Meitner e Hahn descobriram o isótopo protactínio, o que levou Meitner a ganhar a Medalha Leibniz. Em 1926, ela se tornou a primeiro mulher na Alemanha a ser professora titular.

Em 1938, o reinado de Hitler finalmente forçou Meitner a deixar seu trabalho para trás e fugir da Alemanha, eventualmente terminando em Estocolmo, no Instituto Nobel de Física (da Real Academia Sueca das Ciências), onde o prêmio Nobel de 1924 Manne Siegbahn foi recentemente nomeado diretor. Aqui, ela ganhava o salário de um assistente júnior e viveu com dinheiro emprestado em um pequeno quarto de hotel. Embora Meitner tenha recebido espaço no laboratório, ela não recebeu recursos reais para iniciar seu próprio grupo, nem foi convidada para se juntar ao grupo de pesquisa de Siegbahn (provavelmente devido ao preconceito dele em relação a mulheres e - sendo ele oito anos mais novo - pelo fato de simplesmente de ver a abordagem científica dela como antiquada). Sem colaboradores, equipamentos ou mesmo seu próprio conjunto de chaves os quais permitissem sua entrada em laboratórios e oficinas, sua situação lembrava muito o tempo no armário de carpinteiro vários anos antes. Suas mãos estavam amarradas, e ela não conseguiu realizar seu trabalho.

No entanto, ela continuou a colaborar com Hahn. De fato, não era difícil manter contato com ele em Berlim, pois o serviço de correio era muito rápido e eles escreviam um ao outro diariamente. E então, em novembro de 1938, ela e Hahn se encontraram em Copenhague (o que era um segredo bem guardado na época, e foi totalmente excluído das memórias posteriores de Hahn) para discutir seu projeto em andamento. O projeto estava centrado em investigações sobre as reações nucleares do urânio. Isso era algo que intrigava Meitner desde o trabalho pioneiro de Enrico Fermi em 1934. Ela trouxe a idéia a Hahn e o persuadiu por semanas antes dele finalmente concordar em se juntar a ela. Foi ela quem liderou a investigação por quatro anos antes de sua partida forçada da Alemanha.

De volta a Berlim, Hahn e seu assistente Fritz Strassmann continuaram seus experimentos. Nas palavras de Strassmann, é claro que Meitner continuou a ser a força orientadora do projeto: "felizmente, a opinião e o julgamento de L. Meitner tinham tanto peso junto a nós em Berlim que imediatamente realizamos os experimentos de controle necessários." Seus experimentos pareciam mostrar uma descoberta surpreendente: o urânio se divide em elementos mais leves quando bombardeado com nêutrons. Como isso poderia acontecer? Afinal, cerca de quatro anos de trabalho prévio dos principais cientistas do campo sugeriram que um elemento mais pesado (o transuranium) - não mais leve - seria criado. Incrédulo, Hahn escreveu para Meitner: "talvez você possa encontrar uma explicação fantástica." E foi isso que ela fez.

Embora suas contribuições para a descoberta da fissão nuclear estejam bem documentadas e ela tenha sido indicada ao Prêmio Nobel em diversas ocasiões, nunca recebeu um (tanto em química quanto em física). Em 1944, o Prêmio Nobel de química foi dado apenas a Hahn pela notável descoberta da fissão nuclear. Inicialmente, Hahn se referiu ao trabalho como um esforço colaborativo entre ele, Meitner e Strassmann, mas depois - e para sempre - ele manteve o discurso de que o achado foi fruto apenas da química experimental que ele e Strassmann haviam feito, chegando até mesmo a sugerir que a física havia, na verdade, impedido a descoberta

Enquanto a fama que Meitner merecia era negada a ela, uma associação injusta com a bomba atômica surgia. Meitner era totalmente contra armas nucleares: “eu não me associarei a uma bomba!” De fato, ela foi a única física Aliada proeminente a recusar um convite para trabalhar no projeto em Los Alamos.

No entanto, Meitner recebeu muitas honras em sua vida: o Prêmio Max Planck em 1949; doutorados honorários de Princeton, Harvard e outras universidades dos Estados Unidos; o Prêmio Enrico Fermi em 1966 (dividido com Hahn e Fritz Strassmann), só para citar algumas.

E, é claro, há o meitnério.

Scott Bembenek
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