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A SpaceX vai conseguir levar clientes para a Lua em 2018?

A empresa privada de lançamentos espaciais precisa superar vários obstáculos se quiser cumprir seu cronograma para uma missão lunar

Flickr/SpaceX
Muitas coisas terão que dar certo para que a SpaceX cumpra seu ambicioso calendário para enviar uma missão à Lua, dizem especialistas.

Na segunda-feira passada, dia 27 de fevereiro, o CEO e fundador da SpaceX, Elon Musk, anunciou que a companhia planeja levar dois clientes pagantes em uma viagem de uma semana ao redor da Lua antes do final de 2018.

Astronautas viram o lado mais distante da Lua pela primeira vez em 1969, mas a antiguidade dessa conquista não deveria levar ninguém a pensar que a missão proposta pela SpaceX sejá fácil, disse Wayde Hale, antigo gerente do programa de ônibus espaciais da NASA.

“Mesmo com a tecnologia de hoje, é uma tarefa extremamente difícil e perigosa de se empreender, não me importa quem você seja”, disse Hale, que se aposentou da NASA em 2010 e hoje é diretor de voo espacial humano na companhia de engenharia Serviços Aeroespaciais Especiais, com sede no Colorado.

A SpaceX poderia fazer uma missão lunar tripulada eventualmente, disse Hale, mas ele duvida que ela aconteça no próximo ano.

“Acredito que o cronograma deles é tão agressivo que parece impossível”, disse à SPACE.com.

“Desejo a eles muita sorte e certamente espero que tenham sucesso”, adicionou Hale. “Mas como um pagador de impostos, estou feliz que não haja dinheiro de impostos envolvido nisso”.

A SpaceX usará sua cápsula tripulada Dragon V2 e o foguete Falcon Heavy na missão lunar. Contudo, o Falcon Heavy ainda não foi lançado - seu primeiro voo está agendado para acontecer em algum momento do próximo verão - e a Dragon V2 ainda está sendo desenvolvida. De fato, a SpaceX ainda não lançou uma missão tripulada ou de qualquer outro tipo até hoje, apontou Hale.

A companhia está preparando a Dragon V2 para levar e buscar astronautas na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), em um contrato multibilionário com a NASA. O primeiro voo tripulado para a ISS acontecerá em meados de 2018, se o atual cronograma se mantiver, disse Musk na última segunda-feira durante uma teleconferência com repórteres. (Essas missões à ISS utilizarão o foguete Falcon 9 da SpaceX, não o Falcon Heavy.)

“Me sentiria muito mais positivo quanto ao programa se eles já tivessem demonstrado voos espaciais com humanos na sua cápsula Dragon V2 e recebido aprovação da NASA, de acordo com os padrões de segurança que a agência estabeleceu para o transporte de astronautas americanos à Estação Espacial Internacional”, disse Hale. “Mas, até agora, não fizeram nada disso”.

A Dragon V2, hoje projetada para ir apenas à ISS, também precisará ser modificada para uma missão lunar, disse Hale. Uma cápsula que voa ao redor da Lua precisará de um sistema de comunicação mais robusto e um escudo térmico mais capaz em relação a um que apenas vai e volta de baixa órbita terrestre, ele observou. (Durante a teleconferência da segunda passada, Musk disse que as modificações de comunicação serão, de fato necessárias para o voo ao redor da Lua, mas ele acrescentou que o escudo térmico da Dragon V2 tem um “projeto massivamente complexo” e pode aguentar a velocidade mais alta de reentrada de uma missão lunar.)

Levantar a Dragon V2 e o Falcon Heavy em tempo para a decolagem de uma missão lunar em 2018 será, sim, desafiadora, disse Phil Larson, antigo conselheiro de políticas espaciais do presidente Barack Obama que foi trabalhar para a SpaceX e hoje está na escola de engenharia da Universidade de Colorado em Boulder. Porém, “desafiadora” é bem diferente de “impossível”, salientou. “Acredito que Elon já confirmou anteriormente que não estipula prazos os quais não sejam tecnicamente possíveis”, disse Larson à SPACE.com.

E um pequeno atraso não seria exatamente o fim do mundo, ele acrescentou.

“Mesmo que o objetivo de lançar a missão em 2018 resulte em uma missão em 2019 ainda seria histórico”, disse Larson. “Não é como se uma diferença de um alguns meses mudasse tanto a magnitude dessa missão”.

Musk tende a estabelecer cronogramas ambiciosos, adicionou Larson. A SpaceX nem sempre os cumpre, mas a companhia tem um histórico de realizar coisas que nunca tinham sido feitas antes. Em 2010, por exemplo, a SpaceX se tornou a primeira entidade privada a lançar uma espaçonave (uma cápsula de carga Dragon robótica) na órbita terrestre e trazê-la de volta inteira. (Desde então, a companhia fez isso diversas vezes com a cápsula, que visita regularmente a ISS em voos não tripulados levando suplementos para a NASA.)

Além disso, a companhia já aterrissou o primeiro estágio da Falcon 9, de dois estágios, oito vezes durante missões orbitais, como parte de sua tarefa para desenvolver foguetes reutilizáveis. Ninguém mais fez isso, nem uma vez sequer. (Blue Origin, companhia administrada por Jeff Bezos, CEO da Amazon.com, realizou cinco pousos de foguetes, mas todos ocorreram durante voos de teste suborbitais.)

Foguetes total e rapidamente reutilizáveis são parte chave da visão da SpaceX para colonizar Marte - maior ambição de Musk e sua razão para fundar a empresa em 2002. E a missão de voo ao redor da Lua poderia ser um passo nesse caminho, dando à companhia importante experiência em espaço profundo, disse Larson.

“Para uma companhia que está procurando ajudar a liderar o caminho para o Planeta Vermelho, esse é um passo técnico totalmente lógico a se tomar”, ele disse.

 

Mike Wall, SPACE.com

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