Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

A transformação da lagarta em borboleta implica autofagia

Apenas certos grupos celulares sobrevivem e dão origem a olhos, asas e outras estruturas adultas

 

Shawn Hanrahan/wikimedia commons
Por Ferris Jabr

Quando crianças, muitos de nós aprendemos o processo maravilhoso pelo qual uma lagarta se transforma em uma borboleta. Normalmente, a história começa com uma lagarta muito faminta que eclode de um ovo. Essa lagarta, mais cientificamente chamada larva, devora e se entope de folhas ficando cada vez mais gorda e comprida através de uma série de “mudas” em que ela se desfaz de sua pele. Um dia, a lagarta para de comer, fica pendurada de ponta-cabeça em um pequeno galho ou uma folha e tece um casulo sedoso ao seu redor ou se transforma em uma crisálida brilhante. Dentro de sua cápsula protetora, a lagarta transforma radicalmente seu corpo e depois de certo tempo emerge como borboleta ou mariposa.

Em que implica essa transformação radical? Como uma lagarta se reorganiza em uma borboleta? O que acontece dentro de uma crisálida ou de um casulo?

Primeiro, a lagarta se “digere”, libertando enzimas para dissolver todos os seus tecidos. Se você abrisse um casulo ou uma crisálida no momento certo, uma “sopa” de lagarta escorreria para fora. Mas o conteúdo da pupa não é inteiramente uma massa amorfa. Certos grupos de células altamente organizadas, conhecidas como discos imaginais, sobrevivem ao processo digestivo. Antes de eclodir, quando uma lagarta ainda está se desenvolvendo dentro de seu ovo, ela desenvolve um disco imaginal para cada uma das partes do corpo adulto de que necessitará como borboleta ou mariposa madura: para seus olhos, asas, pernas e assim por diante. Em algumas espécies esses discos imaginais permanecem dormentes durante toda a vida da lagarta; em outras, os discos começam a tomar a forma de partes do corpo adulto antes mesmo que a lagarta forme uma crisálida ou um casulo. Algumas lagartas se locomovem por aí com diminutas asas rudimentares enfiadas em seus corpos. Mas isso é algo que você nunca saberia só olhando para elas.

Uma vez que uma lagarta desintegrou todos os seus tecidos, exceto os discos imaginais, ela usa a “sopa”, rica em proteínas, ao seu redor para alimentar a rápida divisão celular necessária para formar asas, antenas, pernas, olhos, órgãos genitais e todas as outras características de uma borboleta ou mariposa adulta. O disco imaginal para a asa de uma mosca-das-frutas, por exemplo, pode começar com apenas 50 células e saltar para mais de 50 mil células até o fim da metamorfose. Dependendo da espécie, certos músculos e seções do sistema nervoso de uma lagarta são em grande parte preservados na borboleta adulta. Um estudo até sugere que as mariposas lembram o que aprenderam nas fases finais de suas vidas como lagartas.

Observar essa metamorfose à medida que ela acontece é difícil, pois perturbar uma lagarta dentro de seu casulo ou crisálida pode perturbar a transformação. Michael Cook, no entanto, que mantém um fantástico website sobre bichos-da-seda, tem algumas fotos incríveis de uma mariposa-de-seda Tussah (Antheraea penyi) que não conseguiu tecer um casulo. Você pode ver as delicadas asas translúcidas cor de jade, antenas e as pernas de uma pupa que ainda não amadureceram em uma mariposa adulta — vislumbre do que normalmente permanece oculto.