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Acidificação aquática afeta populações de salmão-rosa

Emissões de carbono que causam acidez oceânica também atingem espécies de água doce

SHUTTERSTOCK
Niina Heikkinen ClimateWire

Salmões-rosa (Oncorhynchus gorbuscha) estão fornecendo a pesquisadores indicações preocupantes sobre como a acidez induzida por dióxido de carbono (CO2) pode afetar espécies de peixes de água doce até o final do século 21.

Um estudo publicado on-line em 29 de junho em Nature Climate Change mostrou que a exposição precoce a elevados níveis de CO2 durante o estágio larval de desenvolvimento teve significativos efeitos negativos no tamanho, metabolismo e na capacidade dos peixes de perceber ameaças em seu ambiente.

De acordo com Michelle Ou, ex-aluna de mestrado na Universidade da Colúmbia Britânica (UBC), em Vancouver, no Canadá, o trabalho foi um dos primeiros a analisar como diferentes níveis de CO2 poderiam afetar larvas de peixes em água doce.

“De fato, não esperávamos observar tantos efeitos”, admitiu Ou. “Só estávamos investigando aleatoriamente para ver o que poderíamos encontrar”.

O salmão-rosa, ou rosado, parecia ser uma boa espécie para começar.

Esses peixes não são apenas abundantes e economicamente importantes, mas também servem como uma espécie-pilar em ecossistemas marinhos, terrestres e de água doce, de acordo com os pesquisadores.

Embora vivam no oceano aberto como adultos, salmões-rosa passam suas primeiras semanas de vida em riachos de água doce.

Uma vez que evoluem de larvas para alevinos, os pequenos peixes deixam os córregos em que eclodiram e nadam rumo ao mar aberto. Mais tarde, como adultos, eles retornarão aos mesmos riachos para desovar.

Ou e seus colegas da UBC fizeram um experimento para testar como peixes estavam respondendo não só às concentrações ambientes de CO2, mas também aos níveis de acidez previstos até 2100.

Depois de obterem embriões de salmão de uma incubadora, os pesquisadores os transferiram para tanques de escoamento de água doce, com concentrações de CO2 ambientais, altas ou variáveis.

Após 10 semanas, eles testaram os diminutos peixes para verificar se o desenvolvimento deles tinha ou não sido afetado pelas diferentes condições.

Os cientistas não só descobriram que os peixes eram menores e mais leves, mas que seus sentidos também tinham sido afetados.

As larvas de salmão-rosa eram mais ousadas perto objetos novos (desconhecidos) e não pareciam ter medo de sinais de alarme na água que normalmente levariam peixes a fugir. 

Perda de peso e navegação debilitada

Os peixes também tinham um sentido olfativo enfraquecido que os impedia de reconhecer aminoácidos específicos associados aos rios em que nasceram.

Isso foi significativo porque se acredita que o reconhecimento desses aminoácidos desempenhe um papel importante na capacidade de navegação do peixe, explicou Ou.

“Pense nisso como uma impressão digital olfativa de seus riachos natais, e eles a usam para encontrar seus caminhos para ‘casa’”, acrescentou ela. 

Embora salmões-rosa sejam menos específicos que outras espécies salmonídeas quanto ao local em que desovam, a pesquisa sugere que níveis mais elevados de CO2 poderiam acabar impedindo que os peixes encontrem o caminho para seus riachos natais se forem incapazes de se adaptar, disse Ou. 

Uma vez que os peixes atingiram a idade em que normalmente nadariam para o mar aberto, os pesquisadores os transferiram para tanques de água salina, que tinham os mesmos níveis, ou níveis aumentados de acidificação induzida por CO2.

Quando os peixes cresceram em água doce e água marinha com altas concentrações de CO2, eles perderam peso a uma taxa duas vezes mais rápida que peixes que só foram expostos a água salgada com níveis mais altos de CO2.

Sua capacidade de absorver oxigênio também diminuiu em 30%, de acordo com o estudo.

Os resultados mostraram que os ecossistemas de peixes e água doce podem ser mais vulneráveis aos crescentes níveis de dióxido de carbono do que se pensava, embora os pesquisadores realmente não saibam por que o CO2 esteja tendo esse efeito.

Falta de pesquisa 

De acordo com Chris Harley, ecologista marinho na UBC, que não esteve envolvido no estudo, foi somente nos últimos cinco a 10 anos que ecologistas começaram a estudar seriamente o impacto do dióxido de carbono nas diversas espécies.

Antes disso, a comunidade científica acreditava que o oceano estava tão bem protegido (“tamponado”), que níveis mais elevados de CO2 atmosférico teriam pouco impacto na vida marinha. 

Agora, pesquisadores estão lutando para descobrir e entender como as condições mudaram, uma vez que existem tão poucos dados para criar uma comparação de linha basal, observou ele.

Parte da razão por que levou mais tempo para reconhecer o impacto do CO2 é porque peixes adultos tendem a ser mais capazes de lidar com níveis mais elevados de acidez, explicou Colin Brauner, professor de zoologia na UBC e coautor do estudo.

“As pessoas têm olhado por longo tempo para a exposição a CO2 em peixes adultos. Se você os expuser a uma concentração 10 vezes mais alta que a utilizada em nosso experimento, eles não têm um problema. Suas guelras podem bombear para fora o ácido, para que o sangue deles permaneça estável. Por isso, todo mundo achou que os peixes estariam bem” observou ele.

Comparativamente, estudos recentes em peixes tropicais mostraram que larvas de peixes experimentam efeitos bastante significativos em decorrência de CO2 elevado, argumentou.

Poucas pesquisas se concentraram em espécies de água doce, porque as condições tendem a ser muito mais variáveis entre córregos, lagos e rios.

No entanto, são necessários mais estudos sobre como o CO2 afeta peixes nesses hábitats, porque cerca de 40% das espécies vivem em água doce, enfatizou Ou 

De acordo com Brauner, essa nova pesquisa sugere que os efeitos do CO2 em peixes larvais podem ser mais amplos que pesquisas anteriores mostraram.

“É possível que, durante aquele desenvolvimento incipiente, todos os peixes sejam afetados de modo similar. Não sabemos com certeza, mas a maioria do que observamos em salmões em desenvolvimento é visto também em peixes tropicais em desenvolvimento” observou Brauner.

“Se o mecanismo for o mesmo, isso poderia ter um efeito abrangente”.

Reproduzido de Climatewire com permissão de Environment & Energy Publishing, LLC. www.eenews.net, 202-628-6500 

 

Publicado em Scientific American em 30 de junho de 2015.