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Agência de Energia dos EUA pede a cientistas para sumirem com referências a mudanças climáticas

Pesquisadores foram instruídos a censurar as descrições de seus projetos

Shutterstock
Diversos pesquisadores que receberam doações do Departamento de Energia (DOE, na sigla em inglês) dos EUA receberam pedidos para que removessem as referências a “mudanças climáticas” e “aquecimento global” das descrições de seus projetos.

Em um dos casos, uma funcionária do Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico (PNNL, na sigla em inglês) do DOE em Richland, Washington, pediu a uma ecologista que omitisse referências a mudanças climáticas em sua proposta de bolsa para satisfazer as “restrições linguísticas de orçamento” do presidente estadunidense Donald Trump. A cientista, Jennifer Bowen da Universidade Northeastern em Boston, Massachusetts, publicou no Facebook um email da funcionária do laboratório, no dia 24 de agosto.

“Pediram que eu entrasse em contato para que você atualizasse a redação do resumo da sua proposta, removendo expressões como ‘aquecimento global’ ou ‘mudanças climáticas’”, disse a funcionária Ashley Gilbert, coordenadora de projeto no Laboratório de Ciências Moleculares Ambientais do PNNL, no email. O projeto de Bowen examinará como estressores ambientais, tais como as mudanças climáticas, afetam a ecologia de pântanos de água salgada.

O escritório de Gilbert disse à revista Nature que ela não estava disponível para comentar o assunto, e um porta-voz do PNNL enviou as perguntas para a sede do DOE em Washington, DC. Shaylyn Hynes, representante do Departamento, se recusou a responder as questões sobre a situação, mas disse que “não há uma política do departamento para banir o termo ‘mudanças climáticas’ dos materiais do DOE.”

Não foi possível contatar Bowen para comentar o assunto. Contudo, Jonathan Sanderman, biogeoquímico do Centro de Pesquisa Woods Hole em Falmouth, Massachusetts, e co-pesquisador principal no projeto sobre o pântano, confirmou que o email veio de Gilbert. Sanderman especula que os funcionários da PNNL “estão preocupados que as bolsas sejam retiradas caso alguém veja que elas incluem mudanças climáticas”.

Não é o único

Os projetos de Bowen e Sanderman estão entre 14 anunciados no dia 23 de agosto como ganhadores de bolsas de pesquisa do EMSL e do Joint Genome Institute, que é gerido pelo Laboratório Nacional Lawrence Berkeley do DOE, na Califórnia

Outro ganhador de bolsa do grupo, o ecologista Scott Saleska, da Universidade do Arizona em Tucson, confirmou que recebeu um pedido de um funcionário do DOE no dia 24 de agosto para remover as referências da mudanças climáticas da descrição de seu projeto. O estudo de Saleska foca nos efeitos da decomposição de material vegetal no permafrost, e o resumo da equipe destaca as implicações deste processo nas mudanças climáticas.

A proposta de orçamento para 2016 da Casa Branca para o Departamento de Ciência do DOE sugere reduzir ou eliminar o apoio da muitos programas de pesquisa sobre clima e áreas de pesquisa, como feedbacks climáticos. Porém, o documento também enfatiza a necessidade de estudar como o carbono circula pelos ecossistemas, uma categoria a qual abrange projetos de Bowen, Sanderman e Saleska.

Segundo Saleska, parece que os gerentes de programas do DOE estão tentando enquadrar o trabalho que eles apoiam para que pareçam alinhados com as diretrizes de orçamento da Casa Branca. “O que mais eles podem fazer?”, ele pergunta. Saleska diz que está mais preocupado pelas prioridades de pesquisa estarem sendo estabelecidas pela ideologia política, o que está em contradição com o pensamento científico.

Sanderman também lamenta o fato de cientistas estarem sendo forçados a mudar a forma como falam sobre seu trabalho. “Mas se isso é preciso para fazer prosseguir com a ciência por alguns anos, acredito que entraremos no jogo”, ele acrescenta.

Jeff Tollefson, Nature

Este artigo é reproduzido com permissão e foi originalmente publicado no dia 25 de agosto de 2017.
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