Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Agência de Wisconsin proíbe falar sobre clima

Tesoureiro do estado americano convence comissariado a aprovar a norma

Evan Lehmann e ClimateWire
Tori Rector/Flickr
A restrição, aprovada por 2 votos a 1, impede os 10 funcionários do BCPL de falar sobre mudanças climáticas, inclusive sobre seus potenciais impactos nos mais de 21.160 hectares de terras florestais do estado. O conselho canaliza as rendas obtidas com essas terras para projetos de educação pública
Matt Adamczyk, tesoureiro estadual de Wisconsin se recusou a explicar suas opiniões sobre mudanças climáticas um dia depois de encabeçar o esforço para impedir uma pequena agência estadual de falar sobre a elevação das temperaturas.

A medida, validada na última terça-feira, dia 7, dividiu drasticamente as autoridades eleitas que supervisionam o obscuro Conselho de Comissários de Terras Públicas (BCPL, em inglês), e levou o único democrata na cúpula de três pessoas a advertir que ela “simboliza uma tendência muito perigosa” na política do estado.

Aprovada por 2 votos a 1, a restrição impede os 10 funcionários da entidade de falar sobre mudanças climáticas, inclusive sobre seus potenciais impactos nos mais de 21.160 hectares de terras florestais do estado.

O BCPL usa a renda da exploração dessas áreas para projetos de educação pública.

Além da proibição de comentar o clima, os funcionários também passaram a ser obrigados a notificar os três comissários eleitos do conselho antes de responderem a quaisquer perguntas enviadas por e-mail sobre aquecimento global.

Para completar, uma referência no site do BCPL sobre os efeitos da escalada dos termômetros sobre espécies florestais invasoras recentemente foi apagada (excluída).

O tesoureiro da entidade, Matt Adamczyk, um republicano eleito em novembro passado, declarou em uma entrevista que introduziu a proibição para manter os funcionários estaduais “concentrados em suas tarefas”.

Na mesma ocasião, contestou as alegações feitas por adversários políticos, segundo os quais seu empenho é motivado por divergências ideológicas sobre mudanças climáticas “produzidas pelo homem”.

Adamczyk se recusou a opinar se a mudança climática é real ou se gases de efeito estufa decorrentes de atividades humanas, como dirigir carros, estão levando ao aumento das temperaturas.

“Honestamente, nem me importo em discutir isso”, respondeu ao ser questionado sobre suas opiniões.

“Como tesoureiro estadual não desempenho nenhum papel na política climática. Isso não tem nada a ver com o meu trabalho. Não quero discutir méritos... do tema”.

Doug La Follette, o secretário de estado democrata de Wisconsin e membro do conselho de terras públicas, argumentou que a proibição politiza a ciência climática.

Ele foi o único membro do BCPL a votar contra a medida. O procurador-geral do estado Brad Schimel, outro republicano, apoiou a moção de Adamczyk.

“Ele é um republicano ultraconservador [tea party republican], que nega que a mudança climática exista”, La Follette desabafou em uma entrevista, referindo-se a Adamczyk.

Lobby “louco”

O BCPL é uma entidade que raramente chama atenção.

A agência supervisiona um fundo fiduciário com cerca de US$ 1 bilhão em bens/ativos, que fornece empréstimos a comunidades de Wisconsin para projetos de desenvolvimento econômico e de infraestrutura, como modernização de sistemas de tratamento de águas residuais.

Com os rendimentos que arrecada por meio de taxas de juros, ela aprimora bibliotecas escolares.

O BCPL também arrecada dinheiro com a venda de madeira extraída das terras públicas que administra, e redireciona esse montante para o sistema da University of Wisconsin.

Embora a agência mantenha um perfil discreto, sua secretária-executiva certamente não faz o mesmo.

Tia Nelson é filha do já falecido Gaylord Nelson [4/6/1916 – 7/7/2005], ex-governador de Wisconsin e senador democrata americano que criou o Dia da Terra.

Adamczyk admitiu ter instaurado a proibição com base no trabalho anterior de Nelson sobre mudança climática.

Em 2007, o ex-governador democrata Jim Doyle, nomeou Tia como copresidente da Força-Tarefa para Aquecimento Global de Wisconsin que, em 2008, apresentou um relatório recomendando que o estado adotasse metas de redução de emissões, padrões de eficiência energética e um programa cap-and-trade (“limite e negociação”).

Nenhuma das recomendações jamais foi colocada em prática.

Adamczyk também focalizou a viagem de Nelson a Washington, D.C., em 2009, para depor perante o Congresso em apoio a um programa federal de cap-and-trade que, segundo ela, teria se encaixado perfeitamente nos esforços de seu Estado.

“Não entendo por que uma pessoa que trabalha para uma pequena agência de Wisconsin, que lida com moeda [fiduciária], viajaria de avião à custa do estado... para prestar depoimento sobre um projeto de lei hiperpartidário”, alfinetou Adamczyk e qualificou a viagem, ou o lobby, de “louco”.

Tia Nelson se recusou a comentar, mas durante a reunião de terça-feira passada, enfatizou que sua nomeação pelo governador não reduziu sua carga de trabalho no BCPL, de acordo com uma gravação de áudio da sessão.

Ela também deixou claro que não tem trabalhado em mudança climática desde que apresentou aquele relatório em 2008 e testemunhou perante o Congresso em 2009.

Até Adamczyk admite que seja “quase frívolo, ou insensato” que o conselho tenha colocado em votação as ações de Nelson de seis anos atrás, e ainda sob as ordens de outro governador.

Acrescentou, porém que “isso é obviamente sua paixão”, salientando que Nelson trabalhou em questões climáticas durante mais de 15 anos na organização não governamental Nature Conservancy em Washington, D.C.

Governador de Wisconsin não se intromete — quase

Há cerca de um mês, Adamczyk acusou Nelson de “roubo de tempo” devido às suas atividades há cinco e seis anos, e propôs uma resolução para demiti-la, informou La Follette.

A medida falhou quando Schimel se uniu a La Follette para derrubá-la.

“O fato de ele [Adamczyk] levar essa sua vendeta/vingança para as atividades do BCPL simplesmente foi desnecessário e absurdo”, sentenciou La Follette, que serve no conselho há 30 anos; um período que descreveu como apartidário.

“Para esse absurdo de negação climática mostrar sua desagradável e feia cabeça dentro do conselho realmente é uma vergonha”, resumiu.

La Follette e a NextGen Climate [entidade que luta para levar a mudança climática ao primeiro plano da política americana], um grupo aliado democrata, descrevem a proibição de Wisconsin como uma reminiscência da controvérsia na Flórida, onde funcionários da mesmo agência local são obrigados a evitar o uso do termo “mudança climática”, de acordo com uma norma não escrita na administração do governador Rick Scott.

Adamczyk informou não ter conversado sobre mudança climática e sobre o conselho com o governador de Wisconsin Scott Walker, um provável candidato republicano à presidência dos Estados Unidos.

Laurel Patrick, uma porta-voz de Walker, fez saber que o governador não está envolvido com o conselho [o BCPL].

“Dito isso, em termos gerais, o governador Walker não acredita que seja insensato adotar, ou instaurar políticas que exijam que os funcionários do conselho se concentrem em atividades relacionadas ao mesmo”, escreveu Patrick em um e-mail.

No ano passado, Adamczyk conduziu uma campanha política bem fora do comum.

Sua maior promessa era eliminar sua própria posição, ao afirmar que o cargo de tesoureiro é um desperdício de dinheiro.

A maior parte das responsabilidades de seu gabinete de fato foi transferida para outras agências, e, de acorco com o próprio Adamczyk, seu trabalho equivale a cerca de dois telefonemas de 15 minutos cada por mês para participar de reuniões do conselho de terras públicas.

Após assumir seu cargo em janeiro, Adamczyk demitiu dois funcionários e convenceu um terceiro a sair também.

Agora só ele e um estagiário ocupam o escritório do tesoureiro no porão do Capitólio.

O BCPL também é um alvo de suas ambições de disciplina fiscal.

Ele criticou Tia Nelson por fazer uma assinatura do jornal The New York Times e procurou ter o nome dela removido do papel timbrado oficial.

“Meu objetivo não é discutir os méritos do aquecimento global”, declarou Adamczyk ao ser questionado novamente sobre suas opiniões sobre mudança climática.

“Não vou entrar na política disso. Só estou dizendo que isso [o clima] não tem nada a ver com nossa organização”.

 

Reproduzido de Climatewire com permissão de Environment & Energy Publishing, LLC. www.eenews.net