Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Agências de defesa dos Estados Unidos lidam com genética dirigida

A tecnologia pode espalhar modificações genéticas rapidamente

 

James D. Gathany/Wikimedia Commons
Os JASONs, grupo de cientistas de elite que aconselha o governo dos EUA sobre segurança nacional, têm ponderado sobre questões que vão desde cibersegurança à renovação do arsenal nuclear do país. Porém, em um encontro em junho, o grupo secreto avaliou uma nova ameaça: a genética dirigida, uma tecnologia de engenharia genética que pode espalhar modificações rapidamente por populações inteiras, e poderia ajudar a vencer mosquitos vetores de malária.

Esse encontro faz parte de um esforço mais amplo da segurança nacional dos EUA neste ano para lidar com os possíveis riscos e benefícios de uma tecnologia a qual poderia levar espécies à extinção e alterar ecossistemas inteiros. No dia 19 de julho, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA, na sigla em inglês) dos EUA anunciou um financiamento de US$ 65 milhões para cientistas que estejam estudando tecnologias de edição gênica; a maior parte do dinheiro será direcionada para trabalhos com genética dirigida. E uma correspondente de inteligência estadunidense da DARPA está planejando financiar pesquisas sobre detecção de organismos os quais contenham genética dirigida e outras modificações.

“Toda tecnologia poderosa é uma questão de segurança nacional”, diz Kevin Esvelt, engenheiro evolutivo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge, que ganhou o financiamento da DARPA para limitar a disseminação das modificações de genética dirigida. Esvelt diz que também compareceu ao encontro dos JONSON no mês passado em San Diego, na Califórnia, onde ele descreveu como possíveis bioterroristas podem transformar genética dirigida em armas. Contudo, segundo Esvelt, ele está mais preocupado com a potencial liberação acidental de organismos modificados por cientistas. “Estou preocupado com os erros biológicos.” Assim como o exército dos EUA, de acordo com Renee Wegrzyn, oficial de programa da DARPA liderando a iniciativa “Safe Genes”, que apoiam a pesquisa em restrição da genética dirigida. A tecnologia foi desenvolvida, nos últimos anos, em moscas, mosquitos e outros organismo, utilizando a edição gênica CRISPR. Uma equipe baseada no Reino Unido espera iniciar testes de campo com genética dirigida em mosquitos Anopheles gambiae, o principal vetor de malária da África, em 2024. "Tenho ficado bastante animado para assistir aos avanços, mas observei, enquanto minha preocupação aumentava, que eles estão superando a biossegurança ", diz Wegrzyn.

A discussão sobre genética dirigida dos JASONs envolveu cerca de 20 cientistas, de acordo com Philipp Messer, geneticista de populações da Universidade Cornell em Ithaca, Nova Iorque, que compareceu ao encontro. (Enquanto cidadão alemão, ele foi identificado como estrangeiro e acompanhado por uma escolta.)

"Eu não estou acostumado a esse tipo de conferência", diz Messer, que contou ao grupo sobre os esforços de seu laboratório para estudar a evolução da resistência às modificações CRISPR por genética dirigida em moscas. "Nós apenas tivemos discussões abertas sobre essa tecnologia, qual acreditamos ser o estado atual do campo e quais pensamos serem os problemas." Gerald Joyce, bioquímico do Instituto Salk em La Jolla, Califórnia, e um membro dos JASONs o qual Messer disse coorganizar a reunião, recusou-se a comentar a reunião, o que provavelmente levará a um relatório classificado.

As contramedidas da genética dirigida

No âmbito do programa DARPA, sete equipes ganharam contratos de quatro anos. Esvelt planeja desenvolver modificações CRISPR com genética dirigida em nematóides - organismo modelo de reprodução rápida - que são feitos para espalhar uma modificação genética em um ambiente local e, em seguida, extinguir-se, um conceito que outros cientistas estão buscando. Ele e as outras equipes que recebem financiamentos militares também planejam desenvolver ferramentas para contrariar modificações que se espalham fora de controle. Tais métodos incluem produtos químicos os quais bloqueiam a edição de genes ou "modificações anti-genética dirigida" as quais podem reverter uma modificação genética ou imunizar organismos selvagens inalterados, por isso são resistentes a genética dirigida.

Essas ferramentas poderiam combater uma modificação de genética dirigida implantada para causar danos, como aqueles que fazem insetos transmitirem doenças de forma mais eficaz ou levar toxinas. Mas tais contramedidas são muito mais propensas a serem implantadas contra lançamentos acidentais de laboratórios de pesquisa, diz Esvelt. As vagas ou inexistente diretrizes de biossegurança para trabalhar em organismos de genética dirigida aumentam as chances de uma liberação, segundo ele.

Outras ações estão em andamento para financiar o trabalho que estuda as implicações de segurança nacional da genética dirigida. Na próxima semana, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Inteligência (IARPA, na sigla em inglês), que faz parte do Escritório do Diretor de Inteligência Nacional dos EUA, realizará uma reunião sobre um programa de financiamento planejado para detectar organismos geneticamente modificados os quais são potencialmente prejudiciais, incluindo aqueles provenientes de genética dirigida.

Todd Kuiken, que estuda políticas relacionadas à biologia sintética na Universidade Estadual da Carolina do Norte em Raleigh, está contente de ver a pesquisa sobre genética dirigida receber mais recursos. Contudo, ele tem dúvidas sobre o interesse dos militares norte-americanos nesse campo; com o Safe Genes, a DARPA se tornou o maior financiador governamental do mundo em pesquisa de genética dirigida. Kuiken se preocupa que isso possa semear suspeitas sobre modificação de genes em partes do mundo as quais vêem os militares dos EUA sob luz menos favorável, incluindo países os quais se beneficiam com a eliminação de vetores de doenças, como mosquitos.

Esvelt compartilha essas preocupações, mas vê o apoio militar como a única maneira, por enquanto, de avançar com a tecnologia, tornando-a mais seguro para uma eventual implantação. Os financiadores privados, como a Fundação Bill e Melinda Gates, em Seattle, Washington, e a Tata Trusts, uma instituição de caridade com base em Mumbai, gastaram dezenas de milhões em pesquisa de genética dirigida, mas esse financiamento foi direcionado a projetos ou instituições específicas. Outros financiadores do governo ainda não fizeram grandes contribuições para o campo. "Ninguém mais nos oferece grandes quantias de dinheiro", diz Esvelt.

O programa DARPA previne explicitamente a liberação de organismos de genética dirigida e exige que os vencedores do contrato trabalhem em condições rigorosas de biossegurança, além de divulgarem o plano de seus experimentos ao público - medidas que devem reduzir o risco de qualquer liberação acidental, acrescenta Esvelt. "Se o que está te preocupando é que seus vaqueiros causando problemas, então o que você realmente quer fazer é empregar esses vaqueiros para garantir que eles permaneçam longe de problemas."

Ewen Callaway, Nature

Este artigo foi reproduzido com permissão e foi publicado originalmente no dia 21 de julho de 2017.
Para assinar a revista Scientific American Brasil e ter acesso a mais conteúdo, visite: http://bit.ly/1N7apWq