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Agronegócio americano assume a segurança alimentar

Regulamentação ineficaz ou desprezada gera consumidores doentes e produtores empobrecidos

 

Izf/Shutterstock

CAMPOS DE MORANGO: Empresas privadas, como a Comissão de Morangos da Califórnia, responderam à demanda por produtos mais seguros ao utilizar protocolos de cultivo mais rigorosos. Imagem: rodale.com
Por Erin Brodwin

A comida saudável mata – ou, pelo menos, pode matar.

Em 2010, doenças alimentares adoentaram quase 20 mil americanos. Desses infectados, mais de quatro mil tiveram que ser hospitalizados; 68 morreram.

Os principais culpados foram bactérias – Salmonella e Escherichia coli, para ser mais exato – escondidas em produtos considerados saudáveis.

Apesar de as taxas de infecção por E. Coli terem diminuído desde que empresas de produção de alimento começaram a se adequar a novas regulamentações de segurança alimentar em 2006, casos de infecção por salmonela permaneceram estáveis por mais de uma década.

Estima-se que americanos gastem US$365 milhões em despesas médicas diretas todos os anos tratando casos de intoxicação por Salmonella, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.

Em um esforço para tentar reduzir surtos, alguns fazendeiros e produtores começaram a instituir novas práticas em vez de esperar regulamentações mais rígidas do governo. Sua motivação: os lucros.

A U.S. Food and Drug Administration, que pode traçar suas origens ao Pure Food and Drug Act de 1906, ainda tem que impor um conjunto universal de padrões para garantir que a comida que ingerimos seja segura.

Em vez disso, a agência publicou regulamentações específicas para cada indústria. Regulamentações introduzidas em janeiro foram desenvolvidas para fortalecer o Food Safety and Modernization Act de 2011, dando à FDA poder para regular o agronegócio diretamente.

Regras mais rígidas podem não ajudar. Apesar de o vice-comissário chefe da FDA, Michael Taylor, prometer que a reforma nacional está a caminho, a agência tem pouco poder para impor as leis que espera serem cumpridas em fazendas americanas.

Historicamente, fazendas domésticas não cumprem a legislação federal. A FDA supervisiona mais de três milhões de instalações alimentares, dois milhões de fazendas, 900 mil restaurantes, 114 mil negócios de varejo, e 189 mil “outras” instalações alimentares.

Sem um esforço robusto para impor mandados de segurança, a maioria dessas instalações fica sem regulamentação. Atualmente, a FDA inspeciona a maioria dos produtores de alimentos dos Estados Unidos a cada 10 anos. Taylor aponta que aprovar leis federais é uma coisa. Fazê-las serem cumpridas, é outra. “Isso não vai ser fácil”, alerta ele. 

De qualquer forma, consumidores procuram alimentos mais saudáveis, especialmente conforme o público se torna mais consciente de surtos bacterianos e, nos últimos sete anos, fazendas comandaram a resposta.

Consumidores começaram a exigir produtos mais saudáveis por meio de seu poder coletivo de compra, explica Greg West, presidente e CEO da National Pasteurized Eggs, em Lansing, Illionois. A empresa de West, que produz ovos pasteurizados para tentar eliminar a Salmonella, viu a demanda por seu produto dobrar no ano passado. E West está mais do que feliz em fornecer ovos mais seguros – as vendas, de acordo com ele, dispararam desde os surtos de Salmonella nos anos 1990, e de um mais recente, em 2006, que chegou às manchetes nacionais.  

De acordo com West, evitar surtos bacterianos é uma questão de reduzir riscos. Alguns casos de doenças relativas à Salmonella, aponta ele, poderiam ter sido evitados simplesmente cozinhando-se bem os produtos.

Infelizmente, muitas pessoas não cozinham ovos completamente; ovos pochê e moles, muito fáceis de fazer, são todos vetores bacterianos. “Por que não deter o risco antes de ele entrar na cadeia de fornecimento?”, pergunta ele. Todos os ovos da empresa passam por um banho pasteurizador de água quente. Em seguida cada ovo é selado com uma camada de cera, para evitar uma potencial contaminação futura, e então carimbado com um “P” em um círculo vermelho para denotar que foi pasteurizado.

Outras empresas, porém, não podem banhar seus produtos em soluções bactericidas por uma questão de praticalidade.

A Fazenda Earthbound, em San Juan Bautista, na Califórnia, que perdeu US$70 milhões como resultado de um surto de E. Coli em seu espinafre em 2006, começou uma massiva inspeção de segurança em 2006 que incorporou vigorosos testes bacterianos com inovadores métodos de segurança, como a radiação UV. “No fim das contas, você não depende do governo ou da Academia”, declara Will Daniels, diretor de segurança alimentar da Fazenda Earthbound. “Você precisa ter relações com os fornecedores e conhecer o processo”.  

A Earthbound ainda está aperfeiçoando seus métodos. No momento, a empresa está trabalhando com a NASA para desenvolver uma tecnologia que faria previsões como mudanças sazonais de temperatura, de pequena escala, além de mudanças climáticas de grande escala que influenciam a presença de bactérias no solo, no ar e na água ao redor de plantações.

Ao final de tudo isso, de acordo com Daniels, eles esperam ser capazes de adaptar métodos de cultivo de acordo com mudanças de temperatura para ajudar a prevenir surtos bacterianos antes de eles começarem.

Quando a fazenda sabe, por exemplo, que um verão mais quente que o normal está se aproximando, produtores podem aumentar as doses de radiação UV. Daniels conta que a NASA já identificou uma forte correlação entre eventos climáticos e resultados de teste que são positivos para bactérias em suas plantações de espinafre.  

A Comissão de Morangos da Califórnia tornou produtos mais seguros não com o uso de novas tecnologias, mas com a melhor educação de fazendeiros, explica Andrew Kramer, diretor de educação de produtores. Morangos são colhidos o ano todo, então o campo fica sempre repleto de trabalhadores; por ser uma plantação de trabalho intensivo, morangos exigem uma abordagem de segurança centrada em pessoas. 

Quando a empresa descobriu que trabalhadores estavam descansando no campo em vez de descansar nas áreas designadas do lado de fora das plantações, por exemplo, ela também descobriu que os resíduos alimentares estavam diminuindo a qualidade da safra e atraindo animais para as áreas de cultivo.

A equipe de Kramer descobriu que animais e bactérias atraídos por restos também invadiam plantações. Especialistas da comissão logo perceberam que a culpa era de falhas na comunicação entre comissários, produtores e fazendeiros – produtores não estavam avisando fazendeiros sobre quebras de protocolo, e alguns sequer estavam fornecendo locais dedicados à alimentação.

Então especialistas da comissão começaram uma série de workshops de treinamento e educação em inglês e espanhol, e instruíram produtores a fornecer cadeiras portáteis a trabalhadores em um local central, evitando que restos de comida atraíssem bactérias a locais de plantação.

Para abordar outros problemas de segurança na plantação, diretores do programa de educação a produtores começaram com um quadro de segurança alimentar – um manual gigante com diagramas e ilustrações de segurança no campo.

Educadores de segurança na fazenda usam o quadro durante treinamentos, onde instruem trabalhadores sobre tudo, desde práticas corretas de higiene até como identificar uma safra doente antes que ela infecte o campo todo.

Kramer também comanda o programa de certificação de segurança alimentar que, por meio de uma série de cinco aulas, foi capaz de treinar produtores e equipes para colher suas plantações de modo a minimizar surtos de doenças. “Estamos pegando o conhecimento sobre as melhores maneiras de produzir uma safra segura e aplicando-o na prática”, explica Kramer. 

Fazendas sofrem riscos de contaminação vindos de várias fontes, de pássaros sobrevoando o local ao lixo que fazendeiros acidentalmente deixam nas plantas. Apesar de produtores e processadores não serem capazes de eliminar todos os problemas, eles estão tomando medidas para reduzir a contaminação patogênica.