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Al Gore avalia Observatório Terrestre

O satélite Observatório Climático de Espaço Profundo fornecerá uma perspectiva muito necessária sobre nosso planeta

SpaceX
Por Al Gore

O Fórum SA é escrito por especialistas em assuntos específicos de ciência e tecnologia

No domingo, 8 de fevereiro, finalmente [assistiríamos} ao lançamento do satélite Observatório Climático de Espaço Profundo (DSCOVR, em inglês). Há muito atrasada, a DSCOVR será uma missão de observação que irá até o Ponto de Lagrange 1, ou “L1”, um ponto único entre o Sol e a Terra (a aproximadamente 1,6 milhões de quilômetros da Terra, na direção do Sol) onde cada esfera tem seu arrasto gravitacional igualmente equilibrado pelo da outra.

A DSCOVR terá uma visão constante da Terra enquanto co-orbita o Sol junto com nosso planeta, e o hemisfério virado para o satélite ficará completamente iluminado pelo Sol enquanto a Terra gira. A partir desse ponto de vista único, a DSCOVR capturará e enviará para a Terra um feixe contínuo de imagens do planeta, semelhante à imagem histórica tirada em 7 de dezembro de 1972, durante a missão Apollo 17 – que continua sendo a única imagem desse tipo que nós temos há mais de 42 anos. Não é coincidência, então, que essa seja a fotografia mais publicada da história.

Do ponto de vista científico, o mais importante é que a DSCOVR proporcionará novas interpretações fundamentais sobre a rápida mudança de nosso clima, e dará a cientistas – pela primeira vez – a capacidade de medir precisamente o equilíbrio energético de nosso planeta. O “orçamento energético” da Terra pode ser calculado com uma simples fórmula aritmética: tome a quantidade total de energia solar que entra no sistema terrestre todos os dias e subtraia a quantidade total de energia infravermelha que sai do sistema terrestre e volta para o espaço todos os dias. O problema é que, mesmo que cientistas consigam medir o primeiro facilmente, eles nunca conseguiram medir o segundo com precisão – porque a radiação infravermelha sai por todos os 360 graus da superfície planetária. Mas quando a DSCOVR começar a enviar essa medida todos os dias a partir do ponto L1, cientistas conseguirão calcular com mais precisão o efeito total que gases que armazenam calor têm sobre o clima de nosso planeta.

Nossa medida atual do aquecimento global é uma combinação de várias fontes que cientistas costumam descrever como “ruidosas”. A melhoria do orçamento energético medida pelos instrumentos da DSCOVR, quando combinada aos dados já existentes, fornecerá uma visão ampla da crise do momento. (Originalmente, um segundo satélite que co-orbitaria o Sol a partir do lado não iluminado da Terra foi proposto junto com a DSCOVR, mas 180 graus é suficiente para realizar a tarefa, e custa quase metade do preço de uma missão maior).

A missão DSCOVR foi inicialmente concebida em 1998 quando, em cooperação com a Academia Nacional de Ciências, eu desafiei a Nasa a construir um satélite que pudesse avaliar nosso planeta e nos ajudar a compreender a crise climática de uma nova perspectiva. Originalmente batizado de Triana (em homenagem a Rodrigo de Triana, o navegador espanhol que foi o primeiro a ver o Novo Mundo a bordo do navio La Pinta, de Cristóvão Colombo), o lançamento da DSCOVR vem em um momento crítico para a humanidade.

A indústria está mais interessada no que foi determinado, nos anos desde a construção do satélite, como a missão principal do DSCOVR, gerenciada pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional: fornecer um sistema de alerta precoce para tempestades solares iminentes. Ejetadas do Sol a velocidades alucinantes, essas explosões solares podem destruir infraestruturas eletrônicas essenciais para nosso modo de vida atual. Como o tamanho dessas tempestades solares segue “leis de força”, quanto maiores, menos frequentes. Além disso, é ainda menos frequente que as maiores explosões estejam voltadas precisamente para a Terra. De qualquer forma, isso acontece. E quando acontece, essas explosões podem provocar danos custosos a circuitos eletrônicos, redes de transmissão de energia e outros sistemas vulneráveis a essas tempestades. Muitos ficaram aliviados ao saber que a DSCOVR substituirá o antigo e praticamente incapacitado sistema que atualmente fornece algum tipo de alerta sobre essas tempestades.

Também existem muitos satélites antigos no espaço que precisam ser substituídos, aprimorados e suplementados. O satélite DSCOVR ajudará a melhorar a utilidade de nossa frota de satélites que fica na baixa órbita terrestre ao fornecer um ponto de referência comum para sua calibragem – o que aumentará a sinergia entre muitos instrumentos diferentes em órbita observando e medindo mudanças no sistema terrestre.

Mas, junto com essas e outras missões cientificamente importantes, a DSCOVR também terá a capacidade de inspirar novas maneiras de pensar sobre a verdadeira natureza da condição humana, ao nos mostrar diariamente imagens que darão a cada pessoa na Terra a capacidade de observar sua própria cidade ou vila natal no contexto planetário, lembrando-nos de nossa obrigação de cuidar do que Buckminster Fuller descreveu há tanto tempo como “a Nave Espacial Terra”. 

Há mais de 42 anos, astronautas da Apollo 17 capturaram uma imagem da Terra que era diferente de todas as outras da história. A imagem Blue Marble (mármore azul, em português) mostra nossa Terra totalmente iluminada pelo Sol enquanto fica suspensa no imenso vazio do espaço. Essa foi a primeira imagem a mostrar a verdadeira face de nosso planeta, sem distorções, sua fragilidade e magnificência em uma única esfera azul.

A DSCOVR nos oferece a oportunidade de recapturar essa sensação de maravilha, empolgação e curiosidade que foi inspirada pela primeira vez pela Blue Marble. Em breve veremos maravilhosas imagens inéditas de nosso planeta todos os dias. De fato, a DSCOVR permanece como um testamento para os mesmos ideais que levaram a humanidade ao espaço pela primeira vez: resiliência, engenhosidade e a força do espírito humano. Mas a DSCOVR também trará uma grande lembrança de nossos limites físicos. Esse satélites e seus instrumentos darão à humanidade um novo ponto de vista a partir do qual observar os limites e a vulnerabilidade do Planeta Terra.

Não podemos ser impedidos por nossa vulnerabilidade; precisamos abraçá-la e permitir que ela nos lance adiante para preparmos um novo curso para a civilização humana. Nós podemos resolver a crise climática. Nós podemos criar um mundo próspero e sustentável. Mas precisamos agir agora.

Al Gore já foi vice-presidente dos Estados Unidos

Publicado por Scientific American em 6 de fevereiro de 2015

Nota da Redação de Scientific American Brasil: O lançamento, adiado por duas vezes, está previsto para ocorrer em 10 de fevereiro de 2015, terça-feira.