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Represamento na Amazônia ameaça futuro de hidrelétricas

O desmatamento projetado para a região pode reduzir o potencial de Belo Monte 

Dr. Morley Read/Shutterstock
Estudo publicado em Proceedings of the National Academy of Sciences, realizado por pesquisadores nos Estados Unidos e no Brasil descobriram que o desmatamento em grande escala da Amazônia produziu efeitos sobre o ciclo de água da região – e sobre o clima
Por Erin Brodwin

A Bacia Amazônica é o epicentro das usinas hidráulicas do mundo – as mesmas chuvas torrenciais que dão à região sua folhagem exuberante também a tornam um excelente destino para desenvolvedores buscando capitalizar sobre essa fonte de energia supostamente renovável. Mas a sustentabilidade de longo prazo desses projetos, que usam o fluxo natural de água para gerar eletricidade, atualmente está em estudo.

Um novo estudo sobre a Hidrelétrica de Belo Monte, um dos maiores complexos energéticos do mundo atualmente em construção no Rio Xingu, na região leste da bacia, descobriu que o desmatamento em grande escala na Amazônia oferece uma ameaça significativa para o potencial energético da usina.

Apesar de muitos estudos terem examinado os impactos do desmatamento na vizinhança imediata de projetos de energia hidrelétrica, menos atenção foi dada a seus efeitos em escala regional. De fato, estudos anteriores descobriram que a perda de árvores dentro da bacia de sítios de energia hidrelétrica aumentarou a capacidade de geração de energia da barragem no curto prazo, porque menos árvores estavam disponíveis para extrair água do solo e exportá-la para fora da bacia em um processo conhecido como evapotranspiração

Mas ao longo de uma região inteira, menos folhagem significa menos chuva, então rios fluem com menos potência.

 Em seu estudo, publicado em Proceedings of the National Academy of Sciences, pesquisadores nos Estados Unidos e no Brasil descobriram que o desmatamento em grande escala da Amazônia produziu efeitos sobre o ciclo de água da região – e sobre o clima. Uma perda de 40% da floresta tropical amazônica, previram os cientistas, poderia reduzir a precipitação da região em até 43% entre julho e outubro, prolongando a temporada de seca da região. O desmatamento, portanto, reduziria a descarga hídrica dos rios – supondo uma perda florestal nula, a água dos rios flui durante cinco meses, entre fevereiro e junho. Mas se 40% das árvores da região fossem eliminadas, essa janela de grande fluxo diminuiria, durando apenas de março até maio. Essencialmente, “os picos diminuem”, explica Michael Coe, cientista sênior do Programa Amazônico do Centro de Pesquisa Woods Hole em Falmouth, no estado de Massachusetts, que trabalhou no estudo. Além disso, o pico de descarga hídrica de abril seria reduzido em aproximadamente 33%.

 Então, independentemente do compromisso dos empreendedores com a conservação acentuada da Bacia do Xingu, o estudo sugere que eles terão que levar em conta os efeitos do desmatamento regional sobre a capacidade de geração de energia de seus projetos. “Você pode fazer um ótimo trabalho conservando a floresta em um local”, observa Coe, “mas pode ser prejudicado por atividades ocorrendo em outro”.

Pesquisadores estimam que se as práticas de eliminação de árvores continuarem como projetado, o projeto Belo Monte poderia ver seu potencial de geração de energia reduzido em até 38%.