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Ameaça a tubarões desestabiliza ecossistemas

Tubarões-tigre inibem consumo de algas que absorvem gás carbônico e fornecem abrigo para peixes e mariscos

J`nel/Shutterstock
Tubarões-tigre controlam acesso e o sobreconsumo de algas que realizam fotossíntese e abrigam pequenos animais marinhos importantes para a alimentação humana
Por Michael Heithaus e Inside Science Minds Guest Columnist

Este artigo foi publicado originalmente pelo Inside Science News Service.

(ISM) — Em termos gerais, a maioria dos tubarões do mundo está em apuros — apuros grandes.

Em algumas áreas o manejo adequado estabilizou as populações, mas provavelmente em níveis muito inferiores aos de décadas atrás.

No resto do mundo, a pesca de tubarões continua a ser uma ameaça séria para muitas espécies. Estimativas recentes sugerem que cerca de 100 milhões de tubarões são mortos pela indústria pesqueira a cada ano.

Devido ao seu crescimento lento — tubarões podem levar uma década ou mais para atingir a maturidade — e seu baixo índice de reprodução — muitas espécies têm menos de uma dezena de crias por ano —, essa taxa de pesca é insustentável. O declínio de tubarões continuará.

Por que devemos nos preocupar? O que isso significa para os oceanos e para a indústria pesqueira orientada para outras espécies além de tubarões?

Sabemos de estudos realizados em terra que quando grandes predadores são removidos, ecossistemas inteiros podem ser desestabilizados.

Isso pode ser ruim para os animais e para as pessoas. Se coisas semelhantes acontecerem nos oceanos não precisamos apenas pensar em como estancar o declínio de tubarões, mas provavelmente teremos que encontrar meios para reconstruir suas populações.

A atenção que a Semana do Tubarão do Discovery Channel começou a dedicar a esses animais a partir de 4 de agosto é grande, mas ela precisa se estender além dessa semana para que esses predadores e os lugares em que vivem possam se recuperar e, talvez, prosperar.

Nos últimos 15 anos, meus colegas e eu temos tentado determinar o quanto os tubarões-tigres são importantes nessa baía cheia de tubarões, adequadamente chamada de Shark Bay, na Austrália Ocidental.

Por que dar a volta a meio mundo? Simples: para estudar tubarões em um lugar onde o seu ecossistema ainda está relativamente intocado. Além disso, por que Shark Bay tem algumas das maiores concentrações (“camas”) de algas marinhas do mundo, importantes porque constituem um habitat que alimenta populações de peixes e crustáceos dos quais as pessoas dependem.

Essas formações de algas também ajudam a combater a mudança climática ao absorverem dióxido de carbono da atmosfera.

Ao trabalharmos em Shark Bay, podemos entender o papel dos tubarões e o que poderia acontecer com a baía e suas camas de algas se os tubarões-tigre desaparecessem. Isso também nos permite prever o que pode ocorrer em outros lugares onde ocorreu sobrepesca de tubarões.

Em Shark Bay, não temos trabalhado apenas com os tubarões, mas também com suas presas, inclusive golfinhos, tartarugas-marinhas e peixes-bois, e o ecossistema mais amplo.

Nossas descobertas mostram que os tubarões-tigres são fundamentais para o ecossistema da baía, mas não como se poderia imaginar. Ocorre que o medo de tubarões, tanto dos peixes-bois como das tartarugas-marinhas que consomem algas e plâncton, ajuda a evitar a depauperação dessas formações por pastoreio excessivo.

O mecanismo é o seguinte: os tubarões-tigres gostam de caçar em águas rasas na baía, um lugar perfeito para a proliferação das camas de algas. Para evitar que se tornem lanche de tubarão, as tartarugas e os peixes-bois geralmente evitam essas áreas, permitindo que as algas e outros vegetais se transformem em um habitat exuberante e abrigo para peixes pequenos e crustáceos, espécies que as pessoas querem pescar.

Nas áreas não frequentadas pelos tubarões, as camas de algas estão bem depauperadas por um pastoreio excessivo e não sustentam grandes populações de peixes e crustáceos. Isso significa que se perdêssemos tubarões-tigres na baía, os organismos fotossintetizantes seriam totalmente devorados.

A perda das camas de algas seria uma péssima notícia para os peixes e os pescadores, e talvez até para as tartarugas-marinhas e os peixes-bois! Ela poderia resultar também na perda de uma grande quantidade de dióxido de carbono que voltaria para atmosfera em vez de ser absorvida pelas algas. Já há evidências de que a perda de tubarões está prejudicando os vegetais em alguns lugares.

Nas Bermudas e no oceano Índico, onde os números dessas criaturas diminuíram, as populações crescentes de tartarugas-marinhas estão fazendo camadas inteiras de algas marinhas praticamente desaparecer. Mas não é só nos ecossistemas de algas marinhas que os tubarões são importantes.

Estudos recentes indicam a possibilidade de que os recifes de corais saudáveis também precisam deles.

Felizmente, muitos países começaram a reconhecer que os tubarões podem atrair turistas. Os benefícios econômicos associados a esse tipo de turismo podem ultrapassar a renda obtida com a pesca dos animais. Além disso, tem havido uma crescente conscientização de que se não reduzirmos a pesca de tubarões eles desaparecerão. Isso levou alguns países a adotar quotas de pesca destinadas a manter os animais em níveis populacionais sustentáveis.

Outros países foram mais longe. Santuários de tubarões, onde eles são protegidos da pesca, foram instituídos nas águas de diversos países ao redor do mundo.

Esse tipo de abordagem preventiva é vital para proteger e restaurar as populações, enquanto os cientistas trabalham para aprender mais sobre o seu papel potencialmente crítico em recifes de corais e outros ecossistemas marinhos.