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Anestesia geral pode provocar demência?

Pessoas sensíveis devem evitar procedimentos cosméticos ou cirurgias eletivas que exigem anestesia geral

 

Stefan Ray via flickr
O que sabemos sobre a relação entre anestesia geral, que normalmente é inalada e deixa uma pessoa completamente inconsciente, e demência, uma condição permanente e debilitante?

 
Por Roni Jacobson

Sanfra Anastine foi submetida a uma cirurgia aos 42 anos e não conseguiu falar durante umas 12 horas após o procedimento. Depois da operação seguinte, aos 56 anos, ela levou três meses para recuperar a fala.

Agora, aos 61 anos, Anastine afirma que não tem mais dificuldades parar formar palavras, mas continua mais esquecida que antes de sua segunda cirurgia. E ela está com medo do que acontecerá se ela tiver que ser anestesiada novamente.

É comum escutar que um paciente idoso “simplesmente não é o mesmo” após uma cirurgia, admite Roderic Eckenhoff, um anestesista da University of Pennsylvania.

Muitas pessoas se perguntam se a anestesia, formulada para deixar pessoas grogues e privá-las temporariamente de suas faculdades mentais, é responsável.

Pacientes idosos muitas vezes apresentam uma condição chamada declínio cognitivo pós-operatório, em que eles experimentam lapsos de memória e atenção, mas normalmente isso não dura mais que algumas semanas.

A maioria das evidências sugere que receber uma anestesia geral durante a cirurgia não aumenta a probabilidade de desenvolver demência duradoura. Mas é óbvio que alguma coisa acontece.

Experimentos recentes em animais e com células humanas mostram que a anestesia pode aumentar o acúmulo de proteínas atualmente consideradas subjacentes à doença de Alzheimer, especialmente se a substância for ministrada em doses elevadas.

A pergunta é: o que sabemos sobre a relação entre anestesia geral, que normalmente é inalada e deixa uma pessoa completamente inconsciente, e demência, uma condição permanente e debilitante?

Embora seja um componente corriqueiro da medicina moderna, grande parte do funcionamento da anestesia é um mistério.

Evidências indicam que moléculas do fármaco se ligam a certas regiões na superfície de neurônios e desativam diversas proteínas importantes em uma ampla gama de funções cognitivas, inclusive no sono, na atenção, memória e na aprendizagem.

Mais recentemente, estudos sugeriram que além de visar áreas específicas envolvidas no sono e no estado alerta, a anestesia geral age ao neutralizar (desligar) as redes neurais que permitem a comunicação entre diferentes regiões do cérebro.

Como a anestesia afeta tantos processos e áreas cerebrais distintas, alguns pesquisadores temem que isso possa ter consequências imprevisíveis.

Na anestesia, as moléculas “podem ser gatilhos de outros mecanismos, que não têm nada a ver com a própria anestesia”, explica Maria Lioudyno, uma neurocientista da University of California,em Irvine. Inclusive“processos que talvez estejam associados à neurodegeneração”.

No nível celular, Lioudyno descobriu que a anestesia pode desencadear uma “cascata” química que aciona a liberação de micróglias, células imunes normalmente acionadas para combater infecções no cérebro. Quando ativadas por longos períodos de tempo, elas podem inflamar tecidos cerebrais e, possivelmente, contribuir para gerar problemas cognitivos associados à doença de Alzheimer.

Pesquisas recentes em animais também mostraram que anestesia pode induzir mudanças cerebrais como as que hoje são consideradas subjacentes à demência.

Em estudos realizados em 2004 e 2007, por exemplo, Eckenhoff e seus colegas constataram que expor camundongos a anestésicos inalados, especialmente em doses elevadas, acelerou o acúmulo e a toxicidade de beta-amiloides, uma proteína implicada no desenvolvimento de Alzheimer. Outras observações mostraram um efeito semelhante com a tau, outra proteína associada a essa doença.

Eckenhoff adverte que esses estudos ainda são muito preliminares.

Humanos são imensamente mais complexos que camundongos e só por que alguma coisa aparece em uma placa de Petri, não quer dizer que ela leve ao desenvolvimento de Alzheimer.

Apesar das mudanças apresentadas em células e tecidos, “o efeito sobre o que realmente nos interessa — cognição, memória, capacidade de aprender — parece, de fato, ser mínimo”, observa o anestesista.

Além disso, evidências epidemiológicas lançam dúvidas sobre a ligação entre receber anestesia e desenvolver demência.

Em um estudo de 2013 na Clínica Mayo, médicos compararam registros médicos de 900 pessoas com mais de 45 anos que desenvolveram demência com um grupo similar que não apresentou a doença. Eles descobriram que os dois grupos tinham recebido anestesias com frequências similares, sugerindo, portanto, que era improvável que elas fossem um fator de risco.

Mas, embora anestesias não pareçam aumentar o risco de demência, não há como negar que algumas pessoas aparentemente são bem mais afetadas por elas que outras.

Uma possível explicação é que seus efeitos talvez sejam amplificados em pacientes que já têm uma predisposição genética à demência, ou têm outros fatores de risco. “Humanos vêm em muitos tamanhos diferentes e têm diferentes condições preexistentes que podem colocá-los em maior risco”, salienta Robert Whittington, professor de anestesiologia clínica no Columbia University Medical Center.

Foi constatado que o declínio cognitivo pós-operatório é especialmente prevalente em pacientes submetidos a uma cirurgia cardíaca, por exemplo, assim como em pessoas com diabetes e hipertensão, condições que também foram associadas à doença de Alzheimer.

No entanto, é difícil distinguir entre os efeitos da anestesia e os causados pela própria intervenção. O que se sabe é que cirurgias são experiências traumáticas que provocam inflamação.

Eckenhoff acredita que a neuroinflamação decorrente de uma cirurgia e não a anestesia em si é a verdadeira responsável pelo declínio cognitivo, que pode “interagir com uma patologia latente em alguém com doença de Alzheimer incipiente” e acelerá-la. “Não achamos que anestesia e cirurgia de fato causem Alzheimer ou demência”, acrescenta. “Acreditamos que ela [a anestesia] interage com vulnerabilidades individuais, e pode acelerar seu desenvolvimento”.

Cientistas estão trabalhando em meios para identificar populações que podem ser mais suscetíveis à demência através de biomarcadores e outros testes, na esperança de algum dia empregar essa informação para tornar cirurgias mais seguras para elas.

Isso poderia incluir potencialmente anestésicos mais inteligentes, orientados biologicamente, ministrados junto com medicamentos para combater o estresse envolvidoem cirurgias. Descobriu-se, por exemplo, que as estatinas, substâncias comumente utilizadas para tratar doenças cardiovasculares, reduzem o declínio cognitivo em camundongos quando ministradas antes de uma operação.

Por enquanto, porém, Eckenhoff recomenda que pessoas sensíveis evitem procedimentos cosméticos ou outras cirurgias eletivas.

Scientific American 23 de outubro de 2014