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Líder entre animais é o que explicita a vontade da maioria

Para animais sociais a vida em grupo proporciona vantagens como proteção de predadores

Shtterstock
Para animais sociais, a vida em grupo proporciona vantagens como proteção contra predadores. Mas ela também pode acarretar um preço, porque nem todos os indivíduos têm necessidades idênticas.
Por Nala Rogers e Inside Science News Service

Quando filhotes de patos saem para tomar banho em um lago, eles normalmente seguem o mesmo líder, constatou uma nova pesquisa.

Mas, eles visitam a lagoa que é melhor para todos, ou só a que o chefe prefere?

Para fazendeiros, essa dúvida tem dificultado saber como cuidar igualmente bem de todos os seus patos; para biólogos a charada é determinar o que animais sociáveis realmente querem.

Originalmente, os pesquisadores queriam descobrir se patos preferem lagos ou lagoas mais profundos para nadar, ou se apreciam águas mais rasas, onde conseguem se apoiar nas patas.

Para isso, eles dividiram um bando de patinhos em 12 grupos de quatro e os colocaram em “piquetes” com acesso a dois lagos com profundidades diferentes.

A Real Sociedade para Prevenção da Crueldade contra Animais (RSPCA), a mais antiga instituição nacional de bem-estar animal do mundo, fundada em 1824 na Inglaterra, financiou a pesquisa para elaborar novos padrões para a criação humanizada de patos em fazendas.

Contrariando as expectativas, os filhotes pareceram preferir águas mais rasas. Mas os pesquisadores notaram algo mais: quando o grupo saía para um mergulho, eles andavam todos juntos.

“Isso nos levou a perguntar se quando um grupo de animais está decidindo alguma coisa essa decisão é tomada só por um indivíduo e os outros animais apenas seguem o líder, ou se todos tomam decisões independentes e chegam à mesma conclusão?”, explicou Donald Broom, professor emérito de bem-estar animal na Cambridge University no Reino Unido e um dos autores do estudo.

Se cada pato toma sua própria decisão, então os resultados são claros: eles gostam de águas rasas. Mas, se eles de fato seguem um líder, as coisas ficam menos óbvias, porque a escolha do chefe pode não ser o que os seguidores escolheriam individualmente.

Para verificar como filhotes de patos tomam decisões, os pesquisadores reanalisaram os vídeos do estudo original.

Eles descobriram que todos os 12 grupos tinham um nítido líder que tendia a comandar o deslocamento de seu bando para os lagos.

Em nove deles, ele iniciou a maioria dos movimentos coletivos em qualquer dado dia de observação. Nos outros três grupos, os líderes se mostraram menos consistentes, mas ainda assim também “puxaram a fila” na maioria dos dias observados.

Os resultados foram divulgados on-line na publicação científica Ethology em agosto deste ano.

“Ficamos bastante surpresos”, confessou Guiomar Liste, que conduziu o estudo como uma pesquisadora de pós-doutorado em Cambridge. “Eles são todos da mesma raça, da mesma linhagem. Eles são realmente similares; portanto, esse não é o tipo de situação em que você esperaria ver surgir uma liderança forte”.

Para animais sociais, a vida em grupo proporciona vantagens como proteção contra predadores. Mas isso também pode acarretar custos, porque nem todos os indivíduos têm necessidades idênticas.

Cervos com portes físicos diferentes, por exemplo, precisam passar períodos de tempo distintos forrageando para depois ficarem deitados para ruminar.

Se animais têm líderes e se existem diferenças sistemáticas entre suas necessidades e as dos seguidores, pode ser que cientistas não consigam distinguir as exigências específicas de cada animal em um grupo.

A solução óbvia seria testá-los individualmente. Mas quando animais habituados a viver em grupos sociais são isolados, eles ficam ansiosos e não se comportam normalmente.

Patos domésticos e a maioria dos animais de fazenda são sociáveis demais para serem examinados isoladamente.

Então, a pergunta é: será que patos seguidores na realidade precisam de lagos profundos, embora seus líderes prefiram águas rasas?

De acordo com os pesquisadores, provavelmente não.

Como eram tão parecidos, os filhotes provavelmente tinham necessidades e desejos similares. Além disso, os pequenos líderes não são bullies que se impõem à força; eles só podem liderar se os outros optarem por segui-lo.

“Se um líder simplesmente sair andando e os seguidores decidirem não acompanhá-lo, então, na maioria dos grupos animais, ele não pode fazer muita coisa a respeito. Trata-se de uma decisão mais consensual e mais complexa que parece à primeira vista”, salientou Larissa Contradt, uma pesquisadora acadêmica que estuda o processo de tomada de decisões coletivas em animais no Instituto Max Planck em Berlim, na Alemanha, que não esteve envolvida no estudo dos patos.

De acordo com ela e Donald Broom, animais muitas vezes seguem um indivíduo em particular porque esse animal tem mais informações e toma decisões melhores em nome do grupo.

Ainda assim, sem mais estudos, os pesquisadores não podem ter certeza de que seus resultados representam as necessidades dos patos seguidores.

De acordo com Guiomar Liste, dinâmicas de liderança e grupo são questões que pesquisadores negligenciam frequentemente quando testam preferências animais. Ninguém esperava que os patinhos tivessem líderes. O fato de que tinham destaca a necessidade de prestar mais atenção ao modo como animais influenciam mutuamente suas decisões.

Esse tipo de pesquisa tem aplicações que vão além de animais domésticos.

Conservacionistas, por exemplo, podem prever melhor os movimentos de animais selvagens quando eles entendem como grupos tomam decisões, de acordo com Conradt.

Esses insights podem até ajudar a explicar os princípios básicos por trás de decisões grupais tomadas por outra espécie social: humanos. Mas nesse caso os mecanismos subjacentes são obscurecidos pela língua e cultura. Portanto, é mais simples estudar esse processo decisório coletivo em outros animais, concluiu Larissa Conradt.

Utilizar animais mais simples, como patos, como modelos talvez ofereça um meio de estudar os fundamentos da sociabilidade entre espécies, inclusive a nossa.

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Essa matéria foi publicada originalmente por Inside Science News Service

Scientific American 31 de outubro de 2014