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Anticorpos detém o mortal vírus Ebola em primatas

Tratamento combinado de anticorpos e proteínas evitou a morte de primatas contaminados com Ebola-Zaire

lightpoet/shutterstock
Tratamento combinado de anticorpos e proteínas contra vírus evitou a morte de alguns primatas infectados com Ebola-Zaira, mesmo administrato três dias após a infecção.

 
Por Jo Adetunji e The Conversation

Nota do Editor: O ensaio a seguir foi republicado com permissão de The Conversation, uma publicação online que cobre as pesquisas mais recentes.

Em se tratando de vírus, o Ebola desperta um medo bem especial. Suas cepas infecciosas podem provocar febre hemorrágica severa, que em estágios avançados leva a sangramentos de olhos, ouvidos e nariz, e também da boca e do reto. Uma cepa específica, a Zaire, é um dos vírus mais mortais conhecidos, fatal em até 90% dos casos.

O Ebola é transmitido através do contato com sangue e outros fluidos corporais infectados, e já provocou surtos esporádicos e mortais em seres humanos na África. Não há cura, vacina ou tratamento estabelecido com medicamentos (um tratamento chamado de siRNAs tem uma alta taxa de sucesso se administrado minutos após a infecção) e, na África, frequentemente em áreas remotas, a abordagem geral envolve contenção e cuidados paliativos.

Em um novo estudo, porém, pesquisadores canadenses descobriram que um tratamento combinado de anticorpos e proteínas que lutam contra vírus evitou a morte de alguns primatas infectados com o Ebola-Zaire, mesmo quando administrado três dias após a infecção e quando os primeiros sintomas da febre, que incluem fatiga e vômitos, começaram a aparecer.

O estudo, publicado em Science Translation Medicine, se baseia em trabalhos anteriores na área. Usando um medicamento feito a partir de três anticorpos de ratos, os pesquisadores declararam que ele protegeu dois de quatro primatas não-humanos que receberam o tratamento dois dias após a infecção. Mas quando combinados com interferon vetorizado com adenovírus (uma proteína preparada com material viral que ajuda a ativar o sistema imunológico), três de quatro macacos cynomolgus sobreviveram três dias após a infecção.

Em macacos rhesus, porém, todos os quatro sobreviveram após receberem essa combinação três dias após a infecção. Um estudo anterior com uma taxa de sucesso semelhante foi conduzido com porquinhos-da-índia.

De acordo com os autores, as descobertas mostram que anticorpos podem controlar o modo de replicação o vírus Ebola e, o mais crucial, que combinados também poderiam estender a janela de tempo para tratar a doença.

Gary Kobinger, um dos autores do estudo, declarou que essa foi a primeira vez em que uma terapia combinada usada em primatas não-humanos apresentou potencial de ser 100% eficaz.

“No passado, mostrou-se que anticorpos sozinhos só funcionavam 100% nas primeiras 24 horas após a infecção, e apenas 50% após 48 horas”, observou ele. “Agora, com essa combinação, chegamos ao dia três e ao dia quatro. Para nós como equipe, é uma espécie de santo graal conseguir 100% [de eficácia] quando já detectamos sintomas clínicos e infecção”.

O Ebola pertence à família filoviridae de vírus, que rapidamente se replica e suplanta o sistema imunológico do hospedeiro. O período de incubação da primeira infecção até a morte pela febre varia entre dois e 21 dias, e em áreas mais remotas onde ocorrem surtos, mais tempo seria crucial. 

De acordo com Thomas W Geisber, especialista em Ebola e siRNAs da University of Texas, a pesquisa foi “altamente significativa, porque mostra proteção contra o Ebola em um modelo robusto da doença humana: primatas não-humanos”. Sua única preocupação, apontou ele, é a natureza do vírus usado no estudo.

Quando estoques do vírus Ebola-Zaire são preparados em laboratório para uso em experimentos, muitos são classificados como 7U ou 8U – isso se refere à quantidade de vírus em forma natural (sem mutação). Mas isso ainda pode variar.

“Dois estoques 7U podem ser muito diferentes – por exemplo um estoque predominantemente 7U, com 50% de 7U, e outro 7U com cerca de 98%”, observou Geisber. “A única maneira de saber com certeza é fazendo o sequenciamento profundo deles”. 

Vírus com grandes populações de 7U provocam uma doença mais rápida em macacos e teoricamente são mais difíceis de controlar, apontou ele. No entanto, “estudos anteriores conduzidos com populações maiores de vírus 7U usando outros anticorpos monoclonais não protegeu [primatas não-humanos] contra o Ebola-Zaire, enquanto estudos usando anticorpos diferentes contendo populações altas de 8U, sim. É difícil dizer se a diferença se dá devido aos anticorpos ou ao vírus utilizado.

“Minha impressão é que a diferença se dá porque estoques de vírus com grandes populações de 7U são mais patogênicas em primatas e mais difíceis de controlar”.

Ainda que Geisbert acreditasse que o uso de siRNAs era mais promissor, tratar o Ebola poderia se resumir a uma combinação “dos tratamentos mais promissores – como tratamentos de HIV”, propôs ele.

Kobinger declarou que o estudo usou um vírus 7U que continha aproximadamente 80% da população natural. O próximo passo seria trabalhar com outra grande equipe de anticorpos para descobrir um “coquetel ainda mais potente” para estender a janela de tratamento.

As siRNAs eram eficazes, mas uma “prova de conceito” que não se adequava às condições do mundo real, lembrou ele. “Elas funcionam melhor quando injetadas diariamente durante sete dias, mas o tratamento tem que ser iniciado 30 minutos após a infecção para atingir 100%... Mesmo com uma contaminação dentro de um laboratório, isso pode ser irreal. No mundo real, nós precisamos de mais de 24 horas”.

O Ebola apareceu pela primeira vez no Sudão e no Zaire (atualmente República Democrática do Congo), em meados dos anos 70. Desde então, cinco cepas foram identificadas: Zaire (1976), Sudão (1976), Reston (1989), Costa do Marfim (1994) e Bundibugyo (2007) – batizadas com o nome do local em que foram inicialmente descobertas. A Reston, descoberta no estado norte-americano da Virgina, e mais tarde em porcos nas Filipinas (e anticorpos em alguns criadores de porcos) não provoca febre hemorrágica em humanos. O Ebola Costa do Marfim foi descoberto após um cientista contrair a infecção durante a autópsia de um chimpanzé morto.

Antoine Wystrach não trabalha para, dá consultoria, têm participação ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que porventura se beneficie deste artigo, e não tem afiliações relevantes.  

Este artigo foi originalmente publicado em The Conversation. Leia o artigo original em: https://theconversation.com/first-ebola-antibody-treatment-to-halt-deadly-virus-in-primates-19251