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Apetite chinês por carne agrava a poluição

Crescimento da criação de animais para consumo aumenta de emissão de gases de efeito estufa 

Grigvovan/Shutterstock
Gases de efeito estufa são gerados em cada etapa da produção de animais. Seus resíduos e processo digestivo emitem metano que, de acordo com cientistas, pode aquecer o planeta 34 vezes mais rápido que o dióxido de carbono em um período de 100 anos. Dejetos animais também emitem outro tipo de gás de efeito estufa chamado óxido nitroso, que é quase 300 vezes mais potente que o dióxido de carbono.
Por Coco Liu e ClimateWire

Em um apartamento no 27º andar de um arranha-céu na cidade de Chongqing, no sudoeste da China, Zhan Li, de 43 anos, está preparando o almoço para sua família. Ela já cozinhou peixe no vapor, fritou costelinhas de porco, e tirou uma panela borbulhante de sopa de pato do fogão a gás.

“Quando eu era criança, costumava comer carne uma ou duas vezes por mês”, comentou enquanto acendia o fogo para fazer o próximo prato. “Agora preparo carne todos os dias, tentando recuperar tudo o que perdi anos atrás”, acrescentou.

Zhan é uma de muitos chineses que colocam cada vez mais carne em suas mesas de jantar. Eles fazem isso por razões nutritivas, mas especialistas temem que a mudança resulte em dificuldades maiores em outra frente: na batalha da China contra o aquecimento global.

Gases de efeito estufa são gerados em cada etapa da produção de animais de fazenda (inclusive aves). Seus dejetos e processos digestivos emitem metano que, de acordo com cientistas, pode aquecer o planeta 34 vezes mais rápido que o dióxido de carbono (CO2) em um período de 100 anos. Resíduos animais também emitem outro tipo de gás de efeito estufa, chamado óxido nitroso (N2O), [com efeito estufa] quase 300 vezes mais potente que dióxido de carbono.

De acordo com estatísticas do governo, a produção animal na China contribuiu com mais da metade das emissões de gases de efeito estufa em suas atividades agrícolas, liberando o equivalente a 445 milhões de toneladas de CO2 em 2005, ano dos últimos dados disponíveis.

Essa avaliação só leva em conta emissões diretas. Se considerarmos ainda o CO2 gerado pelo uso de combustíveis fósseis em instalações que criam e processam animais para produzir alimentos e as emissões de gases de efeito estufa associadas à produção de rações e ao transporte de carne, o impacto climático geral do setor seria bem maior.

Especialistas chineses ainda estão tentando determinar a dimensão desse impacto, mas eles sabem que ele será considerável. De acordo com um relatório de 2013 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) as emissões resultantes da criação global de animais respondem por 14,5% do total de gases de efeito estufa produzidos pelo homem na atmosfera. Isso significa que elas desempenham um papel mais relevante nas mudanças climáticas que todos os carros do mundo juntos. A China, responsável pela produção de 50% da carne suína, 20% da carne de aves e 10% da carne bovina do mundo, lidera o grupo dos grandes poluidores em termos de emissões de gases de efeito estufa associadas à criação de animais.

Uma nação muda de hábitos

Essas emissões devem aumentar porque o apetite da China por carne está disparando. Estatísticas da FAO mostram que o consumo anual de carne no país quadruplicou para 59,5 kg por pessoa entre 1985 e 2005, e especialistas esperam que a tendência continue, impulsionada pelo aumento da renda dos consumidores e pelo desejo de um estilo de vida mais rico em proteínas.

Paralelamente, o tipo de carne preferido pelos chineses também está mudando. Historicamente, a carne suína teve um papel central na gastronomia e cultura da nação: os caracteres da escrita chinesa (ideograma) para “lar” mostram até um porco embaixo de um telhado. No entanto, um recente estudo do grupo Rabobank, um líder global em alimentos e financiamentos agrícolas, com sede na Holanda, constatou que no consumo total de carne na China a de porco caiu de 80% em 1985 para 65% em 2011, ao mesmo tempo houve um aumento na demanda das carnes de boi, carneiro e aves.

Embora ainda seja necessária uma análise quantitativa, a mudança de dieta tem o potencial de anular as medidas de atenuação climática da China, alertou Pan Genxing, diretor do Centro de Agricultura e Mudança Climática da Universidade Agrícola de Nanjing. Isso porque a criação de bovinos é um processo mais intensivo em termos de recursos que a criação de suínos, explicou Pan. Atualmente, sua equipe está conduzindo um estudo que compara as pegadas de carbono dos diferentes tipos de produção de carne — o primeiro do gênero no país.

Alguns podem argumentar que cidadãos chineses só querem desfrutar uma dieta que ocidentais consideram normal e natural há anos. Por enquanto, cada americano ainda consome, em média, duas vezes mais carne que cada pessoa na China. Mas como pesquisadores do “think tank” (um “laboratório de ideias”) Brighter Green, com sede em Nova York, explicaram em seu relatório de 2011, “Dado que quase uma em cada cinco pessoas no mundo é chinesa, mesmo pequenos aumentos no consumo individual de carne ou laticínios terão amplos impactos coletivos ambientais e climáticos”.

Também existe a preocupação de que o crescente consumo de carne bovina na China não aumentará apenas suas próprias emissões de gases de efeito estufa, mas também as de outros lugares.

Nos últimos anos, Pequim assinou acordos multibilionários para comprar, em todo o mundo, safras agrícolas destinadas ao consumo animal (como ração ou forragem). Se os cidadãos chineses quiserem consumir mais carne bovina, ela provavelmente também terá de ser importada em vista dos limitados recursos de terras disponíveis para pastagens, argumentou Mia MacDonald, diretora-executiva da Brighter Green.

Como até agora auditorias sobre o comércio internacional e as emissões vinculadas a ele são praticamente inexistentes, países como o Brasil e o Paraguai correm o risco de serem acusados de gerar enormes quantidades de gases de efeito estufa, mesmo que uma parte deles esteja associada à produção de culturas forrageiras e produtos de origem animal para clientes chineses, alertou MacDonald.

Ela acrescentou que a situação é semelhante à que já está ocorrendo entre a China e países ocidentais, que primeiro terceirizaram sua poluição climática para a China ao transferirem suas fábricas para lá — e depois culparam o país por acelerar o aquecimento global.

Gás de efeito estufa subestimado

Ainda assim, emissões relacionadas à criação de animais e outras questões associadas não estão no centro das atenções de negociações internacionais sobre o clima; em parte devido à dificuldade de medi-las com precisão, salientou MacDonald. O resultado, segundo ela, é uma falta de consciência sobre o assunto entre os formuladores globais de políticas e a China dificilmente seria uma exceção.

“Quando fui convidada por acadêmicos chineses para visitar Xangai e Pequim em 2010, meus colegas e eu demos palestras sobre emissões resultantes da criação e industrialização de produtos animais. Algumas pessoas do governo participaram das reuniões. Nossas palestras foram bem recebidas por autoridades chinesas, mas elas ficaram surpresas”, lembrou MacDonald. “Minha impressão é que isso não era muito bem conhecido na China”.

Três anos depois, as coisas não parecem ter mudado muito. Embora o governo chinês tenha anunciado metas ambiciosas para reduzir as emissões e tenha destinado bilhões de dólares anualmente para promover tecnologias de baixo carbono, setores industriais intensivos em consumo energético, como a geração de energia elétrica e os transportes ainda são o foco principal, explicou Wanqing Zhou, uma associada da Brighter Green que pesquisa a ação climática da China. Acrescentou que políticas detalhadas sobre a produção animal de baixo carbono ainda são “um espaço em branco” no país.

“Pelo que sei a conexão entre consumo de carne e emissão de gases de efeito estufa não se tornou uma linha de pensamento dominante entre formuladores de políticas”, observou Zhou. “É difícil dizer se a inércia se deve a uma falta de interesse. É possível que o governo (chinês) esteja investigando essa questão, enquanto limitações de capacidade e dificuldades administrativas minam a ambição”.

Por fim, um recente telefonema para uma importante organização chinesa lançou alguma luz sobre como membros da indústria pensam sobre suas pegadas de carbono.

“Nós acompanhamos as notícias sobre redução de emissões, mas ninguém na associação está estudando isso”, informou o funcionário que atendeu ao telefone no escritório da Associação de Agricultura Animal da China, em Pequim. “A associação representa as necessidades da indústria chinesa de animais. Até agora, nenhum dos produtores nos perguntou sobre redução de emissões de gases de efeito estufa”, acrescentou o funcionário.

Comércio de carbono e manejo de resíduos podem ajudar

De fato, embora a China ainda tenha que emitir regulamentos que visem especificamente emissões associadas à criação de animais, a redução de emissões pode ser um subproduto de outras atividades. Para reduzir a poluição, por exemplo, os formuladores de políticas chineses proibiram o descarte direto de dejetos animais, uma importante fonte de metano e óxido nitroso.

Eles também incentivaram os criadores a aproveitar o comércio internacional de carbono. A gigante avícola do país Shandong Minhe Animal Husbandry Co. Ltd., por exemplo, construiu usinas de biogás alimentadas a esterco de galinha, que produzem energia limpa enquanto acumulam créditos de carbono que valem milhões de dólares.

Mas como os atuais preços do carbono alcançaram uma baixa histórica e o progresso nas negociações climáticas das Nações Unidas é lento, há grandes dúvidas sobre se os produtores de animais chineses continuarão desenvolvendo projetos de redução de emissões em troca de créditos de carbono.

Enquanto a China aumentou sua própria assistência financeira, alguns especialistas questionam se a indústria de animais (pecuária e outras) do país, dominada por pequenos produtores, será capaz de gerar resíduos suficientes para sustentar a operação econômica de uma usina de biogás.

Dong Renjie, um especialista em manejo de resíduos na Universidade Agrícola da China em Pequim, admitiu que o desafio é persuadir os produtores a tratar e reutilizar os dejetos de seus animais. Mas ele insistiu que o governo está trabalhando duro para alcançar uma mudança positiva.

“No ano passado, o Ministério de Proteção Ambiental da China emitiu uma nova regulamentação, que permite subsidiar a prática de transformar resíduos animais em fertilizantes orgânicos”, informou Dong. “O governo também está acompanhando de perto os países que tiveram sucesso em promover a tecnologia de biogás. Acredito que em breve desenvolveremos políticas mais práticas e popularizaremos o uso do biogás à base de esterco”.

Cientistas chineses também procuram ajudar. Uma equipe da província de Anhui, na região central da China, já desenvolveu uma nova linhagem de gado que emite 60% menos metano por quilo de carne produzida em comparação com a variedade original da região. Além disso, há esforços de pesquisa em andamento para reduzir as emissões de gases de efeito estufa ao alimentar os animais com rações de melhor qualidade 

Será que consumidores chineses também se envolverão na redução de emissões associadas à criação de animais, adotando táticas como “segundas-feiras sem carne”? Zhan, que estava preparando a refeição com peixe, carne de porco e sopa de pato para sua família, pareceu surpresa com a pergunta. “Não creio que estejamos consumindo carne demais”, respondeu ela enquanto continuou trabalhando em sua cozinha.

Reproduzido de Climatewire com permissão de Environment & Energy Publishing, LLC. www.eenews.net, 202-628-6500

Sciam 20 de maio de 2014

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