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Aproximação Cuba - Estados Unidos não favorece ciência

Embargo econômico continua em vigor e limita o avanço bilareral da biomedicina

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Por Dina Fine Maron|Véalo en español

Quando Sergio Jorge Pastrana tem arquivos grandes e pesados para baixar ele espera até viajar para fora de sua pátria insular.

Como secretário de relações exteriores da Academia de Ciências de Cuba ele desfruta de um lugar privilegiado no acesso à pesquisa de ponta, mas a limitada capacidade de banda larga na ilha é um constante lembrete do embargo econômico dos Estados Unidos, que tem prejudicado a importação de tecnologia de informática além de modernas ferramentas de pesquisas médicas.

O bloqueio, imposto no início de 1962, na era do então presidente John F. Kennedy, ainda está em vigor, mas cientistas nos dois países estão acompanhando com muita atenção os recentes comentários do presidente Barack Obama sobre um degelo das relações bilaterais.

No final do ano passado, Obama começou a tomar medidas para normalizar os contatos e estabelecer uma embaixada em Havana; mas cancelar o embargo requer uma lei aprovada pelo Congresso americano.

Em seu discurso sobre o Estado da União, em 20 de janeiro, o presidente instou o Congresso a “iniciar os trabalhos para por fim ao embargo”.

Para cientistas, a suspensão da proibição de intercâmbio econômico, comercial e financeiro inauguraria uma nova era de oportunidades, especialmente em medicina.

O bloqueio tem prejudicado fortemente o setor médico cubano desde a sua imposição.

Embora a exportação de material médico para Cuba seja legal, essas vendas são limitadas por extensas restrições.

“De fato, por uma questão de política [americana], a venda de tecnologia estado da arte nesse setor não está autorizada”, de acordo com um relatório de 2011 das Nações Unidas. Como resultado, Cuba frequentemente é incapaz de adquirir certos suprimentos médicos para pesquisa, ou seus cientistas são forçados a procurar alternativas muito dispendiosas.

O embargo também proíbe transações comerciais de empresas americanas em Cuba e impede a maioria dos cidadãos americanos de viajar prontamente para a ilha ou gastar dinheiro ali com turismo.

A lei americana também desferiu um duro golpe contra o trabalho médico cubano ao multar outros países (as chamadas terceiras partes) por realizarem negócios com a nação caribenha.

Em 1999, o presidente Bill Clinton ampliou o embargo ao proibir filiais estrangeiras de empresas americanas de realizar negócios com Cuba.

Muitos pesquisadores biomédicos dos Estados Unidos não podem trabalhar com cientistas cubanos porque pesquisas americanas normalmente são subsidiadas com verbas federais, e essas somas não podem ser usadas para apoiar parcerias científicas cubano-americanas.

Cientistas cubanos frequentemente são impossibilitados de fazer a manutenção de grande parte de sua tecnologia de escaneamento, por falta de peças de reposição vendidas por empresas ligadas aos Estados Unidos. Eles também não podem baixar prontamente grandes conjuntos de dados informatizados ou até comprar certos livros de medicina.

De acordo com o relatório de 2011 da ONU, o Instituto Nacional de Oncologia e Radiobiologia de Cuba não tinha um citômetro de fluxo, uma tecnologia que pode ser empregada para estudar células cancerosas, porque a empresa americana Becton, Dickinson and Company recusou-se a vender o equipamento assim que soube, através de um intermediário, quem usaria as máquinas.

E, até recentemente, Cuba não tinha conseguido adquirir uma moderna máquina de Imageamento por Ressonância Magnética (MRI) de alta potência, ou alto campo.

Um dia após o discurso sobre o Estado da União, Pastrana conversou com a Scientific American.

“Essa é uma medida muito boa”, aplaudiu, encorajando o governo a ajudá-lo a pôr fim ao embargo. Mas foi cauteloso ao acrescentar: “resta ver até onde isso pode progredir com os republicanos”.

O National Institutes of Health (NIH), por exemplo, não recebeu orientações sobre como as medidas da Casa Branca para normalizar as relações bilaterais afetarão possibilidades de pesquisa e financiamento enquanto o embargo ainda estiver em vigor.

No entanto, pesquisadores médicos cubanos não ficaram completamente isolados durante todos esses anos.

Apesar das limitações impostas pelas sanções, um pequeno número de cientistas americanos formou parcerias com colegas cubanos usando fundos privados ou de fundações. E, em2014, aAssociação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) e a Academia de Ciências de Cuba prometeram cooperar para fomentar as pesquisas sobre câncer, doenças emergentes e infecciosas, o cérebro e a resistência a drogas.

Mas há pouco dinheiro disponível para apoiar essa iniciativa. De acordo com Pastrana, porém, a suspensão do embargo certamente fortaleceria os trabalhos nessas quatro áreas de pesquisas.

Bloqueio ao progresso

Algumas das dificuldades de parcerias cubano-americanas têm sido flagrantemente aparentes.

Poucas companhias aéreas oferecem voos para Cuba. Tem havido incômodos problemas de vistos e restrições para o que cientistas americanos podem fazer enquanto estão na ilha.

Thomas Rothstein, um pesquisador americano que nos últimos cinco anos manteve uma parceria com um cientista de Havana para pesquisar vacinas contra câncer, se queixa: “Você não pode simplesmente comprar uma passagem e embarcar em um voo para viajar para lá na próxima semana. E é a mesma coisa de lá para cá. Para cientistas americanos, viagens a Cuba têm sido limitadas, de modo geral, a participações em congressos”.

E Rothstein conta que quando seu colega cubano o visita no Instituto Feinstein para Pesquisa Médica,em Nova York, ele normalmente não sabe até o último minuto se as autoridades americanas aprovarão o pedido de visto do pesquisador do Centro de Imunologia Molecular em Havana.

Mediante todas as limitações, os cubanos desenvolveram alguns “jeitinhos”.

Na falta de aparelhos de ressonância magnética de alto campo, os médicos do país recorreram a técnicas alternativas de imageamento cerebral, explica Pedro Valdes-Sosa, vice-diretor geral de pesquisa no Centro Cubano de Neurociências.

Valdes-Sosa nasceu nos Estados Unidos e estudou neurociênciaem Nova York; mas para avançar pesquisas cerebrais em Cuba sua equipe tem se concentrado em uma abordagem bem menos tecnológica ao usar a eletroencefalografia (EEG) para monitorar impulsos cerebrais e procurar anomalias em oscilações neurais.

Ao medirem a atividade elétrica do cérebro por meio de uma série de eletrodos colocados sobre o couro cabeludo e ligados a computadores, pesquisadores podem observar a atividade cerebral de forma não invasiva.

“Não é o melhor cenário porque não temos acesso a técnicas mais avançadas, mas é uma combinação de necessidade e escolha. Temos achado isso muito eficaz”, observa Valdes-Sosa.

Quanto a problemas de conectividade da internet, o neurocientista revela que outros pesquisadores muitas vezes enviam disquetes com dados via correio ao seu grupo. E, quando cientistas de Cuba querem submeter artigos a publicações especializadas revisadas por pares, eles muitas vezes mandam seus trabalhos em um disco rígido. Posteriormente, dados e revisões são enviados de volta `ilha, também em HD.

“Isso tudo pode levar meses”, lamenta Valdes-Sosa.

Defensores do degelo político-econômico sustentam que a suspensão do embargo seria benéfica para empresas que têm sido obrigadas a restringir seus produtos na nação insular.

Desde 2003, mais de 30 companhias, entre elas a Philips Electronics of North America Corp. têm sofrido penalidades por violarem o embargo de viagens, de acordo com o Serviço de Pesquisa do Congresso.

A mudança também poderia significar opções mais consistentes de escâneres médicos para pesquisas.

Importações diretas de equipamentos médicos dos Estados Unidos continuaram raras; e, ocasionalmente Cuba tem até esbarrado em dificuldades para conseguir peças de reposição.

A certa altura, tomógrafos computadorizados e equipamentos para angiografias e ultrassons da Philips, tecnologias comuns em instalações de atendimento à saúde em Cuba, estavam ociosos, deixando pacientes com poucas opções durante três anos, de acordo com a publicação The Lancet Neurology.

Em dezembro de 2009, o periódico científico relatou que a Philips, em um esforço para cumprir os regulamentos dos Estados Unidos, “não havia fornecido qualquer tipo de manutenção ou suporte técnico desde2006”.

Posteriormente, a Philips resolveu essas questões de acordo com os regulamentos, a empresa informou à Scientific American em uma declaração por e-mail. De acordo com o texto, a empresa “forneceu novos equipamentos médicos a hospitais em Cuba para o benefício do povo cubano”.

Mas de acordo com Valdes-Sosa, a manutenção para tecnologias médicas em Cuba continua sendo uma batalha árdua e difícil.

Na opinião de cientistas, para que os países realmente trabalhem juntos, o embargo terá de ser suspenso.

No ano passado, a comunidade internacional teve um vislumbre de como essa cooperação poderia ser. Em resposta à crise de Ebola na África ocidental, Cuba se uniu aos Estados Unidos no envio de centenas de profissionais das áreas médica e de saúde pública para ajudar.

“Quando nossos países deixaram de lado suas animosidades e diferenças, como aconteceu nos esforços humanitários na epidemia de Ebola na África Ocidental, os resultados têm sido excelentes”, resume Pastrana.

 

Publicado em Scientific American em 28 de janeiro de 2015.