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Pesquisa de oceanos perde valioso equipamento

Submersível capaz de fazer coletas e registrar imagens do fundo do mar explode sob pressão 

Cortesia de Instituto Oceanográfico Woods Hole (WHOI)
O submersível Nereus, da Woods Hole, sucumbiu à pressão extrema e implodiu a 10 quilômetros de profundidade enquanto explorava a vasta Fossa Kermadec.

 
Por Larry Greenemeier

Trabalhos para explorar as regiões mais profundas dos oceanos da Terra sofreram um grande golpe no último fim de semana, quando um dos mais importantes exploradores do fundo do mar implodiu vários quilômetros abaixo do Pacífico e emergiu em pedaços. Felizmente, o finado submersível Nereus era um robô, e ninguém se feriu quando ele sucumbiu à imensa pressão submarina durante um mergulho na Fossa de Kermadec, um sulco com 10 quilômetros de profundidade no solo do Oceano Pacífico, onde duas placas tectônicas se encontram a nordeste da Nova Zelândia.

Pesquisadores da Instituição Oceanográfica Woods Hole (WHOI, em inglês) construíram o veículo de alta tecnologia e operação remota para suportar pressões de até 1.125 quilogramas por centímetro quadrado. Ainda assim, foi aproximadamente essa pressão que talvez tenha implodido uma porção do submersível em 10 de maio.

O Nereus tinha seis anos de idade, e era um veterano de várias expedições às partes mais profundas do planeta, tendo visitado a Depressão Challenger – uma fissura com quase 11 quilômetros de profundidade a leste das Ilhas Marianas, no Pacífico ocidental – em maio de 2009. Dessa vez, a WHOI preparou seu principal explorador da zona hadal – abaixo de seis quilômetros – com uma tecnologia projetada especificamente para o mergulho histórico do cineasta e aquanauta James Cameron.

O próprio Cameron compara a perda do Nereus à perda de um amigo. “O Nereus era um robô incrível e pioneiro, e o único veículo atualmente ativo no mundo que poderia atingir as profundezas extremas das fossas oceânicas”, escreveu ele em uma declaração à WHOI após ouvir sobre o fim do submersível. “Essa é uma perda trágica para a ciência”.

O cineasta entende os sentimentos dos pesquisadores da WHOI, que ele já conhece há anos, desde que começou a estudar engenharia naval para fazer o filme O Segredo do Abismo, de 1989. “Andy Bowen, líder da equipe, e Tim Shank, cientista chefe da expedição a Kermdec, são amigos meus, e meus sentimentos estão com eles”, escreveu Cameron. “Eles não perderam apenas um filho; eles perderam uma grande oportunidade de explorar as profundezas do oceano – a última grande fronteira de exploração em nosso planeta”. Cameron apontou que “a perda de um único veículo agora nos impede de acessar uma área que tem o tamanho da América do Norte – que a área equivalente das profundas fossas ‘hadal’ combinadas. Hoje é um dia sombrio por muitas razões”.

Após Cameron doar seu veículo Deepsea Challenger à WHOI no ano passado, os cientistas usaram vários componentes daquele submersível para atualizar a tecnologia de flutuação, as câmeras e a iluminação do Nereus. As melhorias incluíram cerca de 1.500 esferas ocas de cerâmica, do tamanho de bolas de beisebol, instaladas nas partes superiores do veículo para mantê-lo de cabeça para cima e flutuando. Cientistas afixaram luzes LED sob os narizes de seus cascos gêmeos, logo acima das duas câmeras de alta-definição do submersível, que eram capazes de girar e inclinar enquanto gravavam as paredes, o solo e a vida marinha do local.

O Nereus – que custou cerca de US$8 milhões (principalmente) em financiamento federal, e que pesava 2.800 quilogramas – também tinha um braço manipulador para coletar rochas, sedimentos e amostras de vida marinha. Mais de quatro mil baterias recarregáveis de íons de lítio forneciam energia para 20 horas de operação. Uma fibra ótica com a espessura de um fio de cabelo transmitia vídeos de alta qualidade para o navio de pesquisa Thomas G. Thompson, que a WHOI havia despachado para conduzir a primeira de várias missões de exploração dos ecossistemas hadal.

Mark Schrope, correspondente de Scientific American, descreveu em detalhes a excursão da WHOI a Kermadec na edição de maio de 2014 da Scientific American Brasil. O escritor da WHOI, Ken Kostel, acompanha o progresso da equipe no blog Expeditions, também de Scientific American, desde que o Thomas G. Thompson deixou o porto em 12 de abril. A postagem mais recente de Kostel descreve o que aconteceu após a perda do Nereus.

O destino do Nereus adiciona certo nível de gravidade aos riscos que Cameron enfrentou durante sua própria missão em 2012, ainda que ele tenha subestimadoo perigo. No ano passado, o cineasta declarou durante uma sessão de perguntas e respostas com Scientific American:

“Eu duvido que meus batimentos cardíacos tenham aumentado muito. Talvez eu estivesse muito concentrado na missão quando removemos os flutuadores [na superfície]. Eu tinha uma lista de coisas a fazer que foi organizada com base em tempo, profundidade e medidas...

Um dos maiores problemas com o submersível é o fluxo de calor. A cabine do piloto é muito pequena, e havia muitos equipamentos junto comigo. Se eu ativasse todo o equipamento na superfície de uma vez, eu teria cozinhado. Eu ficaria cozido como um salmão, literalmente. Então havia todo um protocolo para só ativar as coisas quando necessário.

A melhor parte do mergulho com o Challenger Deep foi que eu consegui realizar tudo da minha lista logo na Fossa da Nova Britânia, e depois eu não tinha mais nada para fazer. E ainda tinha quase três quilômetros para descer”.

Pesquisadores a bordo do Thompson perderam contato com o Nereus após 30 dias no mar, sete horas após o início de um mergulho de nove horas na região mais profunda da fossa Kermadec. Mais tarde, a equipe identificou pedaços de detritos flutuando na superfície do mar como sendo partes do Nereus.