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Aquecimento de lago muda piscicultura e favorece invasores

Comunidade indígena americana de Keweenaw Bay é afetada por alterações no lago Superior

 

megankhines/Flickr
As águas mais quentes do lago Superior estão levando a atividade pesqueira a diversificar seus viveiros à medida que uma variedade maior de peixes começa a proliferar, inclusive o walleye (foto acima).
Por Brian Bienkowski e The Daily Climate

L’ANSE, Michigan — Dedicados há muito tempo à criação de trutas, que sustentam sua pesca comercial, a comunidade indígena de Keweenaw Bay começou a criar walleyes (lúcio, em português) que historicamente não conseguiam sobreviver em grande parte do gélido lago Superior.

“Começamos a criar os peixes em incubadoras em 2005”, explicou Evelyn Ravindran, uma especialista em recursos naturais junto à tribo. “Estamos vendo cada vez mais exemplares deles”.

A pesca comercial tem sido uma atividade básica constante da comunidade nas últimas décadas. Como o walleye é um peixe muito procurado na parte inferior dos Grandes Lagos, a tribo acrescentou essa espécie aos seus viveiros, apostando numa boa oportunidade de negócio.

As águas geladas do lago Superior costumavam ser frias demais na maioria dos pontos para o walleye sobreviver; mas elas esquentaram muito mais rápido que o previsto nas últimas cinco décadas devido a enxurradas mais quentes e menos gelo.

Essa mudança está oferecendo novos habitats para muitos peixes.

Vulnerável a espécies invasivas

Sendo mais quente, no entanto, o lago Superior tem menos espaços adequados para algumas espécies de trutas, além de ser vulnerável a espécies invasivas que já mudaram drasticamente os outros quatro Grandes Lagos (lagos Michigan, Huron, Erie e Ontário).

Cerca de 20 membros da tribo pescam comercialmente, informou Gene Mensch, biólogo do Departamento de Recursos Naturais da Comunidade Indígena de Keweenaw Bay.

Não há dúvida de que a pesca da truta acrescenta à base da pirâmide econômico-alimentar da tribo, embora “não se possa colocar uma etiqueta de preço no que isso significa” para alguns de seus membros, comentou Mensch.

O lago está esquentando mais rápido que a atmosfera, segundo Jim Kitchell, professor da University of Wisconsin em Madison, e autor de um novo estudo que examina os peixes do lago. “Os lagos Michigan e Huron também estão aquecendo, mas à metade da taxa [do lago Superior]”.

Mais walleyes, menos chinooks

Nos últimos 40 anos, as águas do profundo lago de água doce sofreram um aumento médio de temperatura de aproximadamente 2,5ºC, em parte devido a uma redução de 50% de sua cobertura de gelo no mesmo período.

Essas mudanças aumentaram as áreas adequadas à vida dos walleyes em mais de 577 km2 — uma vez e meia a área da cidade de Detroit. O salmão “chinook”, ou salmão-rei, a truta-de-lago (lean lake trout, em inglês) viram seus habitats aumentar respectivamente em cerca de 495 km2 e 417 km2 de acordo com o estudo de Kitchell e colegas.

O lago Superior, o maior dos Grandes Lagos, cobre uma área de 82.103 km2.

“Observamos as maiores mudanças nos walleyes. Há 30 anos elas estavam limitados a algumas poucas áreas muito pequenas”, disse Kitchell. “Eles expandiram seu habitat de modo fenomenal”.

Os índices de pesca comprovam isso. De acordo com dados do Departamento de Recursos Naturais de Michigan, em 2012 os barcos de pesca fretados no Lago Superior pegaram 7.3 walleyes para cada excursão. Em 1998 esse número era de 0,002.

Águas mais quentes não são favoráveis para todos os peixes. O habitat da truta-de-lago (Salvelinus namaycush), ou siscowet (em inglês), uma espécie gorda que adora águas profundas, encolheu mais de 160 km2.

Lago remoto

Dos cinco Grandes Lagos, o Superior é o que mais se assemelha à sua atividade pesqueira de 100 anos atrás, antes que espécies invasivas alterassem os outros lagos de forma bastante drástica. O lago, que beira o norte de Minnesota, Wisconsin, a Península Superior de Michigan e o Canadá, é mais remoto e tem um tráfego naval menos intenso que os outros.

Temperaturas mais elevadas poderiam tornar as espécies invasivas um problema maior, especialmente a lampreia-marinha, também chamada de peixe-vampiro por ser sanguessuga, observou David Jude, um cientista de pesquisa pesqueira da University of Michigan, que não esteve envolvido no estudo.

As lampreias-marinhas já estão presentes no lago e se alimentam principalmente de trutas-de-lago.

“Habitats em expansão muitas vezes significam peixes maiores já que há maior disponibilidade de alimentos”, esclareceu Kitchell. “As lampreias gostam de peixes maiores”.

As lampreias-marinhas se grudam em um peixe hospedeiro e literalmente sugam sua vida. Cada lampreia pode matar 18 kg ou mais de peixes durante sua vida.

Os pescadores de anzol da comunidade indígena de Keweenaw Bay estão pegando cada vez mais de lampreias, informou Ravindran.

“Estamos observando um número maior de marcas de lampreias-marinhas”, disse a especialista. “Antes era raro ver as marcas em qualquer peixe, exceto trutas. Agora elas estão em arenques, em peixes de carne branca”.

Com as mudanças de temperatura, o profundo conhecimento que os indígenas e outros pescadores ao redor do lago cultivaram ao longo dos anos já não se coaduna com a realidade, comentou Ravindran.

“As pessoas costumavam saber que o ‘peixe branco’ estaria lá em determinada hora do dia ou época do ano”, disse. “Agora eles têm de procurar”.

Este artigo foi divulgado originalmente em The Daily Climate, a fonte de notícias sobre mudanças climáticas publicada pela Environmental Health Sciences, uma empresa de mídia sem fins lucrativos.