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Aquecimento oceânico é maior que antecipado

Oceanos austrais podem ter esquentado duas vezes mais rápido que o esperado, comprometendo a Terra

Alicia Navidad/CSIRO
Um flutuador, ou perfilador Argo.

 

 

 
Por John Upton e Climate Central

O RV Kaharoa zarpou de Wellington, na Nova Zelândia, em 04 de outubro, levando a bordo mais de 100 instrumentos científicos — e cada um deles acabará sepultado em um meio aquoso.

Os tripulantes passarão os próximos dois meses soltando os dispositivos de pouco mais de 22,5 kg, chamados Argo floats (“flutuadores Argo”, em tradução literal), nos mares entre a Nova Zelândia e as Ilhas Maurício, ao largo da costa de Madagascar. Os instrumentos afundarão e serão levados pelas correntezas, medindo temperatura, salinidade e pressão marítima à medida que retornam à superfície para transmitir os dados para um satélite. Os flutuadores (também chamados perfiladores), movidos a baterias, repetirão esse processo a cada 10 dias, até se esgotarem após quatro anos ou mais, tornando-se lixo oceânico.

Sob os auspícios de um programa internacional iniciado em 2000, e que só começou a produzir dados globais úteis em 2005, os oceanos do mundo, cada vez mais quentes e acidificados, já receberam milhares desses instrumentos invisíveis. Eles estão coletando e transmitindo dados que estão fornecendo a cientistas os retratos mais nítidos já obtidos da extensão até então insondável do aquecimento oceânico. Cerca de 90% do aquecimento global não se concentra em terra firme, mas nos mares.

Pesquisas publicadas em 5 de outubro concluíram que até cerca de 700 metros de profundidade dos oceanos austrais podem ter esquentado duas vezes mais rápido que se acreditava depois de 1970.

Historicamente, colher dados oceânicos confiáveis no hemisfério sul tem sido um desafio em vista do isolamento geográfico dos mares e sua relativa pobreza em termos de navegação comercial, que costuma participar da coleta de dados marítimos. Agora, flutuadores Argo e satélites estão ajudando a preencher essas lacunas de informações nos mares do sul e melhorando a precisão das medições e estimativas nos oceanos e mares boreais.

“Os dados dos [flutuadores] Argos são realmente vitais”, observou Paul Durack, pesquisador do Laboratório Nacional Lawrence Livermore (LLNL, sigla em inglês), na Califórnia, que liderou o novo estudo divulgado em Climate Nature Change. “As estimativas que tínhamos até agora foram subestimando sistematicamente as mudanças prováveis”.

Durack e colegas do LLNL trabalharam com um cientista do Laboratório de Jatopropulsão (JPL, em inglês), também na Califórnia, para comparar observações oceânicas com modelos computadorizados. Eles concluíram que os níveis superiores dos oceanos do planeta, dos hemisférios norte e sul combinados, vinham esquentando durante várias décadas antes de2005, aum ritmo de 24% a 58% mais acelerado que cientistas supunham.

Esse rápido aquecimento marinho tem consequências tanto para o clima, como para as linhas costeiras da Terra.

“Continuamos perplexos diante da rapidez com que os mares estão esquentando”, admitiu Sarah Gille, uma professora do Scripps Institution of Oceanography, que não esteve envolvida no novo artigo, nem em outro similar, também publicado em 5 de outubro, que examinou o papel do aquecimento oceânico no aumento dos níveis marítimos. Gille descreveu os dois trabalhos como estudos “tremendamente interessantes”.

“Mesmo que parássemos todas as emissões de gases de efeito estufa hoje, ainda teríamos oceanos mais quentes que em 1950, e esse aquecimento nos compromete com um clima mais quente”, resumiu ela. “Calor a mais significa maior aumento dos níveis marítimos, uma vez que águas mais cálidas são menos densas. Portanto, oceanos mais quentes se expandem”, explica Gille.

O aquecimento oceânico está exacerbando inundações causadas pelo derretimento de geleiras e outras formações de gelo.

Desde a revolução industrial, nos séculos 18 e 19, os mares subiram 20,3 cm e o processo continua a um ritmo cada vez mais acelerado, agravando enchentes e intensificando as marés de tempestades perto de linhas costeiras em todo o mundo. Para este século há previsão de um aumento adicional entre 61 centímetrose 2,1 metros, o que ameaça as casas e os bairros dos 5 milhões de americanos que vivem a menos de1,2 macima da maré alta, além dos lares de centenas de milhões de pessoas que vivem ao longo de linhas costeiras em outros países.

O outro estudo de temperatura oceânica, também publicado em Climate Nature Change, utilizou dados do programa Argo e outras informações para concluir, tentativamente, que todo o aquecimento marítimo de 2005 a 2013 ocorreu acima de profundidades de aproximadamente dois mil metros. Os cientistas do JPL que escreveram o artigo concluíram que durante o mesmo período a expansão decorrente do aquecimento dessas águas causou 30% do aumento anual dos níveis oceânicos planetários, de 2,8 milímetros.

Os artigos do dia 5 somaram-se a outros mais de mil publicados até agora, que usaram dados de flutuadores Argo para aprimorar a compreensão científica de correntezas marítimas climaticamente influentes, mas difíceis de medir manualmente.

“Essa pesquisa abrange uma gama muito ampla de tópicos, inclusive circulação oceânica, formação e propagação de massas aquáticas, vórtices de mesoescala, variabilidades interanuais como o El Niño, variabilidade decadal, e mudanças climáticas multidecadais”, salientou o professor Dean Roemmich do Scripps Institution of Oceanography. No início do mês de outubro, ele esteve na Nova Zelândia preparando perfiladores Argo para lançamento pela tripulação do RV Kaharoa. “O programa revolucionou a oceanografia física em larga escala”, resumiu Roemmich.

Steve Rintoul, pesquisador na Organização de Pesquisa Científica e Industrial do Commonwealth da Austrália, ou CSIRO em inglês, observou que as descobertas de aquecimento oceânico acima de cerca de dois mil metros no estudo do JPL explicam a recente desaceleração no aquecimento na superfície da Terra, às vezes chamado hiato do aquecimento global, ou pausa no aquecimento.

“Um resultado importante deste trabalho é a demonstração de que os oceanos continuaram esquentando durante a última década, a uma taxa consistente com as estimativas do desequilíbrio energético líquido da Terra”, salientou Rintoul. “Enquanto a taxa de aumento das temperaturas do ar superficial desacelerou nos últimos 10 a 15 anos, o calor armazenado pelo planeta, que é intensamente dominado pelos oceanos, aumentou constantemente à medida que gases de efeito estufa continuaram em ascensão”.

Não se espera que esse calor extra permaneça para sempre com os peixes. Parte dele acabará subindo das profundezas, elevando temperaturas em terra firme, em lugares que nos afetam mais diretamente.

Prever exatamente com que velocidade o calor oceânico ressurgirá para aquecer a terra é “algo com o que lutamos”, confessou Gille da Scripps. Mas acrescentou que calor se desloca constantemente entre oceanos e a atmosfera. “Um oceano mais quente significará uma atmosfera mais aquecida”.

Este artigo foi reproduzido com permissão de Climate Central. O artigo foi publicado originalmente em 5 de outubro de 2014.

Scientific American  6 de outubro de 2014