Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

Aquicultura provoca recuo da linha costeira na China

Uso de águas subterrâneas para criação de peixes afunda delta do rio Amarelo

MODIS/Nature
Tristeza Amarela:  As terras no delta do rio Amarelo estão afundando até 25 centímetros por ano.

 

Por Nicola Jones and Nature magazine

O uso de águas subterrâneas para abastecer fazendas de piscicultura pode resultar em um afundamento da terra da ordem de 25 centímetros por ano de acordo com um estudo do delta do rio Amarelo na China. Essa chamada subsidência está fazendo com que o nível do mar local esteja subindo quase 100 vezes mais rápido que a média global.

Os níveis dos mares da Terra estão subindo, em média, cerca de 3 milímetros por ano devido ao aquecimento das águas e ao degelo; no entanto, em alguns lugares esse fenômeno está ocorrendo muito mais rapidamente em razão da subsidência.

Bangkok, a capital da Tailândia, afundou 12 centímetros por ano na década de 1980 devido ao bombeamento de lençóis freáticos.

Os campos de petróleo perto de Houston, Texas, registraram um afundamento semelhante na década de 1920 por causa da extração de petróleo.

Os deltas de grandes rios também podem ceder à medida que os sedimentos fluviais antigos são compactados por seu próprio peso e a água que transporta novos depósitos é retida por barragens ou desviada para a irrigação. “Você pode obter índices inacreditáveis de aumento do nível do mar”, diz James Syvitski, um geólogo da University of Colorado em Boulder e um co-autor do estudo publicado online no site Geophysical Research Letters.

Os pesquisadores constataram que algumas partes do delta do rio Amarelo estão cedendo à razão de até 25 centímetros por ano, provavelmente devido à extração de águas subterrâneas para abastecer os tanques de peixes em terra. O elo entre a aquicultura e a subsidência tem atraído pouca atenção internacional. “Isso é uma novidade para mim”, diz Stephen Brown, um cientista da indústria pesqueira no Serviço Nacional de Pesca Marinha dos Estados Unidos,em Silver Spring, Maryland. “Estamos preocupados com o efeito da elevação do nível do mar sobre os peixes e não vice-versa”, diz ele.

Robert Nicholls, estudioso de engenharia costeira na University of Southampton, no Reino Unido, e coautor do capítulo sobre gestão costeira do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas de 2007, está igualmente surpreso com essa ligação. “Antes, eu não teria pensado nisso como um problema”, afirma ele.

A subsidência não foi mencionada no relatório sobre o estado mundial da aquicultura divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em 2012, observa Stephanie Higgins, uma estudante de PhD em geologia da University of Colorado em Boulder, que liderou o estudo. “Isso ainda não está no radar da indústria, mas deveria estar”, comenta ela.

Litorais redesenhados

O delta do rio Amarelo vem afundando há décadas. Entre 1976 e 2000, a linha costeira recuou sete quilômetros. No final dos anos 80, quebra-mares de 30 metros de espessura foram construídos para frear a erosão e proteger as plataformas de petróleo em terra, mas ninguém havia medido a subsidência vertical ou identificado sua causa.

Higgins e seus colegas utilizaram imagens de satélites-radar para medir o rebaixamento do terreno perto do delta do rio Amarelo. Essa técnica requer uma superfície dura e reflexiva, como uma estrada pavimentada, para obter leituras precisas; por essa razão ela é aplicada principalmente em áreas urbanas. Na região do rio Amarelo, porém, os telhados das fazendas de aquicultura serviram a esse propósito.

Diversas barragens no rio reduziram o fluxo de sedimentos a um décimo de seus níveis normais, mas isso provavelmente é responsável por apenas alguns milímetros de afundamento geral por ano, observa Higgins. Além disso, a subsidência que eles constaram era mais extrema perto das fazendas de piscicultura que nos campos de petróleo próximos.

A Ásia produz 89% dos peixes e camarões cultivados do mundo; grande parte em regiões de deltas fluviais alimentadas, ou reabastecidas, por águas subterrâneas, explica Higgins. Os planejadores deveriam estar cientes do impacto que esse tipo de aquicultura pode ter na elevação local do nível do mar, diz ela, e regular a extração de águas subterrâneas de acordo.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado originalmente em 16 de agosto de 2013.

 sciaam20ago2013