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Aquilo que nos faz únicos

A ciência vem dominando a clonagem, mas seguirá incapaz de repetir a beleza da individualidade humana

Pixabay
Um macaco da espécie Macaca fascicularis foi clonado por cientistas chineses

O naturalista Herbert J. Webber (1865—1946) era um grande estudioso das pragas que atacavam os laranjais na Flórida. Considerado um dos mais importantes botânicos dos Estados Unidos, em 1903 ele empregou o termo “clonagem” para definir o processo de produção de cópias de plantas geneticamente idênticas a partir de um mesmo exemplar. Não é à toa que a origem grega do termo refere-se a um broto vegetal (klón).

A palavra extrapolou as fronteiras da horticultura e entrou para a história da biotecnologia e também no imaginário coletivo. Além das plantas, bactérias, insetos e animais são capazes de produzir cópias de si mesmos sem a necessidade de sexo. Clones que, por uma razão ou outra, surgem na natureza.

Clones humanos que compartilham do mesmo material genético já existem. São os gêmeos univitelinos que se originam de um mesmo óvulo fecundado por um único espermatozoide.

Webber foi o responsável por dar o nome ao processo, mas o avô da clonagem foi mesmo o biólogo britânico John Gurdon.

No ano de 1958, em Oxford, Gurdon foi o primeiro a criar cópias idênticas de um animal já formado: uma rã-de-unhas- africana. Gurdon demonstrou que o óvulo é capaz de rejuvenescer o material genético proveniente de um animal adulto. O feito só foi possível graças às técnicas de transferência nuclear que ele próprio desenvolveu, a partir dos trabalhos pioneiros de Robert Briggs e Thomas King na Filadéfia. No começo da década de 1950, os norte-americanos clonaram embriões de sapos.

A técnica de transferência nuclear foi aplicada pela primeira vez em mamíferos por Ian Wilmut. Em 1996, Dolly nascia na Escócia. Um ovelha com nome de atriz americana, criada a partir da inserção do núcleo de célula mamária de um animal adulto no interior do óvulo de uma outra ovelha, cujo próprio DNA havia sido removido previamente.

No caso da clonagem da Dolly, foram utilizados experimentalmente quase trezentos embriões até se chegar a seu bem-sucedido nascimento. Já para a geração do primeiro cachorro clonado, que ocorreu na Coreia do Sul, em 2005, foram necessários mais de mil. Desde então a técnica evoluiu bastante, e pelo menos 20 outras espécies animais já foram clonadas. A lista inclui animais de diferentes tamanhos, indo desde os menores, como camundongos, gatos, cães farejadores de explosivos e cabras, até cavalos e vacas leiteiras que produzem medicamentos.

Uma aplicação mais exótica está nas tentativas de clonagem para espécies severamente ameaçadas de extinção, ou até trazer de volta algumas que já se extinguiram. Gatos selvagens e lobos já foram clonados com sucesso. Já as cópias de camelos asiáticos e bucardos espanhóis (íbex-dos-pirenéus) sobreviveram somente poucos dias após o nascimento.

Recorrendo ao que há de mais moderno para a edição do genoma (a técnica conhecida como CRISPR, tema de minha coluna de outubro de 2017), a expectativa é ressuscitar os mamutes, que foram paquidermes da família dos elefantes, com o corpo coberto de pelos, que viveram no planeta até uns 5 mil atrás.

Em Harvard, George Church prometeu trazer de volta embriões de mamutes, em 2019. Na verdade, serão híbridos, feitos a partir da combinação de uns 50 genes pré-históricos misturados ao material genético de elefantes modernos. O motivo para o uso desta estratégia é óbvio: não é possível identificar a maior parte das sequências originais de DNA dos exemplares encontrados na Sibéria.

Esses futuros “mamofantes”, de orelhas pequenas e peludos, precisarão ainda de úteros artificiais até o nascimento. Ano passado, o time de Church conseguiu crescer embriões de camundongos por dez dias (metade do tempo da gestação desses roedores). No caso dos mamofantes, serão necessários uns dois anos de “incubação” até que finalmente nasçam. 

Da China, no ano passado, vieram os primeiros macacos clonados em laboratório. Qiang Sun e sua equipe precisaram gerar duas centenas de embriões de macaco-cinomolgo até que dois vingassem nos úteros de suas “mães de aluguel”.

Uma vez que sejam superados os desafios técnicos atuais, é possível que a clonagem de seres humanos venha realmente a acontecer no futuro.

Quando começava a escrever esse texto, recebi a notícia do falecimento de um tio querido. A dor da perda me fez delirar sobre a possibilidade de cloná-lo, porém, a perspectiva distópica da ressurreição de entes queridos ou de personalidades históricas a partir de cópias vivas com emoções e comportamentos preservadas não é coerente.

Nosso corpo se traduz numa mistura de células próprias com modificações genéticas não herdadas, surgidas durante o desenvolvimento uterino, e uma quantidade equivalente de microrganismos capazes de influenciar até nossa maneira de pensar. Em outras palavras: os gêmeos univitelinos não são realmente idênticos. Da mesma maneira, não serão totalmente idênticos a nós os nossos clones artificiais. Cada ser humano é um mosaico único, difícil de copiar

Stevens Rehen, diretor de Pesquisa do Instituto D`Or de Pesquisa e Ensino e professor da UFRJ. Dedica-se a pesquisas com células-tronco e divulgação científica. Siga o Twitter @stevensrehen

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