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Produtos de higiene contaminam o ar de Chicago

Contaminação do ar por compostos químicos de desodorantes, cremes e loções beiram níveis alarmantes

Flickr/Steve G
COMPOSTOS AÉREOS DE CHICAGO: O ar em Chicago tem elevados níveis desiloxanos cíclicos, compostos que  podem estar presentes também no ambiente natural da maior fonte de água doce do mundo – os Grandes Lagos.
Por Brian Bienkowski e Environmental Health News

À beira de uma revisão regulatória federal, compostos químicos encontrados em desodorantes, loções e condicionadores de cabelos estão aparecendo no ar de Chicago em níveis que cientistas consideram alarmantes.

Os compostos voláteis – siloxanos cíclicos – estão viajando para locais tão distantes quanto o Ártico, e podem ser tóxicos para a vida aquática.

“Essas substâncias estão simplesmente em todo lugar”, declara Keri Hornbuckle, professora de engenharia da University of Iowa e coordenadora de novo estudo.

As concentrações eram 10 vezes maiores no ar de Chicago que no ar de West Branch, Iowa, e quatro vezes maior que em Cedar Rapids, Iowa.

Hornbuckle explicou que as descobertas são preocupantes porque os compostos são onipresentes e foram detectados em níveis muito mais altos que outros contaminantes ambientes. “Essas são concentrações altas, que estão me preocupando de verdade”, admitiu ela.

Mas não se sabe se inalar esses compostos traz riscos. Não existem estudos medindo a exposição das pessoas ou investigando possíveis riscos de saúde.

No ar de Chicago o composto predominante, conhecido como D5, estava presente em níveis três vezes maiores que os normais de bifenil policlorado (PCB). PCBs são substâncias químicas persistentes, banidos na década de 70. O D5 é mais comumente usado em sabonetes, loções, xampus e condicionadores. 

É provável que os compostos também estejam presentes em altas concentrações no ar de muitas cidades, mas ninguém os pesquisou outros lugares ainda. Os Estados Unidos produzem ou importam entre 91 milhões e 454 milhões de quilos de siloxanos cíclicos todos os anos, de acordo com estimativas da Agência de Proteção Ambiental do país.

Muitas pessoas esfregam esses compostos todos os dias em seus corpos. Eles estão presentes em quase metade dos itens de cuidados pessoais, com até dois terços da massa do produto em alguns casos, de acordo com um estudo de 2008 realizado pelo Departamento de Saúde Pública de Nova York e um estudo de 2009 da Health Canada. Eles são usados nesses produtos porque são inodoros, incolores e suaves ao tato.

O novo estudo não rastreou a origem das substâncias químicas, mas sugere que produtos de cuidados pessoais são uma grande fonte já que o D5 era o composto dominante tanto em amostras de ar doméstico quanto em amostras externas.

Concentrações domésticas de ar nos laboratórios e escritórios da University of Iowa eram de 30 a 75 vezes maiores que as amostras externas de ar da Cedar Rapids e West Branch, e o D5 compunha 97% da massa de amostras internas.  

“É com base na população”, explica Rachel Yucuis, estudante de mestrado da University of Iowa e principal autora do novo estudo. “E em lugares fechados você tem tanto os produtos pessoais no meio quanto os que as pessoas estão usando, em um espaço concentrado”.

À noite, níveis de siloxanos cíclicos eram cerca de 2,7 vezes maiores que durante o dia, o que provavelmente se deve a mudanças na atmosfera ao anoitecer, pondera Yucuis.

De acordo com a EPA, o D4 – usado em polidores, detergentes, selantes, adesivos e plásticos – é tóxico para a vida selvagem. Estudos laboratoriais anteriores descobriram que o composto era tóxico para certas espécies – pequenas trutas arco-íris e pulgas d’água – em concentrações que são esperadas no ambiente.

Além disso, o D4 provoca tumores, problemas reprodutivos, alterações no tamanho de órgãos e age como um estrogênio fraco em estudos com animais de laboratório. O D5 provocou mudanças nos sistemas nervoso, hepático e imune de animais de laboratório.

O D4 e o D5 não são atualmente regulados em qualquer local do mundo. Mas a EPA anunciou no ano passado que avaliaria se o D4 deve ser regulado sob o Toxic Substances and Control Act. No entanto, a agência está menos preocupada com concentrações no ar externo do que com os riscos a criaturas aquáticas, explicou um porta-voz da EPA por email.

O potencial de acúmulo e toxicidade de siloxanos cíclicos são debatidos por cientistas e representantes da indústria.

Tanto o D4 quanto o D5 são “seguros para a saúde humana e o ambiente quando usados da maneira planejada”, respondeu por email Karluss Thomas, diretor sênior do Silicones Environmental, Health and Safety Center do Conselho Americano de Química.

Ele declarou que níveis mais altos dos compostos em locais como Chicago não são motivo de preocupação porque não há evidência de que afetem humanos.

Mas um painel científico da Comissão Europeia que revisou dados existentes sobre o D4 concluiu em 2006 que estava “incapaz de avaliar os riscos a consumidores quando o D4 é usado em cosméticos”.

“Apesar do tamanho do dossiê enviado pela indústria para avaliação, é lamentável que o documento em questão não tivesse informações/dados significativos sobre a real exposição de consumidores ao D4”, escreveu o painel.

Na última década, de acordo com estudos sobre siloxanos cíclicos, o D5 substituiu o D4 em cosméticos.

Oficiais de saúde da Califórnia expressaram preocupação com esse crescimento no uso de D5, declarando em 2007 que “[o D5] tem potenciais impactos na saúde pública” e “foi medido em várias espécies aquáticas em concentrações de partes por milhão, e parece ter uma longa meia-vida em humanos. Portanto, a persistência do D5 no ambiente e em tecidos humanos e animais é uma preocupação”.

Como os químicos se acumulam em criaturas aquáticas não é bem compreendido.

Thomas citou estudos de vida selvagem em Minnesota e na Europa mostrando que animais no topo das cadeias alimentares tinham menores concentrações que animais no final.

Outra pesquisa, porém, mostra que os compostos estavam se acumulando nas cadeias alimentares do Lago Mjosa da Noruega e no Estuário Humber da Inglaterra, de acordo com um trabalho de Michael McLachlan e colegas da Universidade de Estocolmo.

McLachlan explicou que os compostos têm uma estrutura estranha que torna difícil compreendê-los, mas declarou que a maioria dos cientistas afirma que estão se acumulando. “A maioria dos químicos padrão acaba em sedimento”, observou ele. “No entanto, com siloxanos cíclicos, uma porção muito menor acaba em sedimento e uma porção muito maior se acumula nos peixes”.

Com níveis elevados no ar de Chicago, é possível que a vida selvagem na maior fonte de água doce do mundo – os Grandes Lagos – fique contaminada com eles, o que ainda não foi analisado, lembrou Hornbuckle. Laboratórios ao longo da região dos Grandes Lagos estão avaliando maneiras de medir os compostos de acordo com um estudo realizado em 2010 pela Environment Canada sobre contaminantes emergentes nos Grandes Lagos

Siloxanos cíclicos viajam o mundo. Leva cerca de duas semanas para que o D4 e o D5 se degradem na atmosfera. “O ar pode circundar o globo inteiro em uma semana”, explicou McLachlan.

Em 2011, pesquisadores canadenses amostraram o ar de 20 locais do mundo todo – incluindo cinco no Ártico – e encontraram os compostos em todos os lugares. De acordo com McLachlan, no inverno, quando há menos luz do sol para destruir as substâncias químicas, o Ártico tem um pico. Pesquisadores também descobriram que usinas de tratamento de água e esgoto estão altamente contaminadas com eles.

“Eles [os siloxanos cíclicos] são muito diferentes se comparados a outros contaminantes químicos do ambiente”, explicou McLachlan. “Estamos apenas começando a entender como eles se comportam”.

Este artigo foi originalmente publicado em Environmental Health News, uma fonte de notícias publicada pela Environmental Health Sciences, uma empresa de mídia sem fins lucrativos.

sciam2maio2013