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Armadilhas para avaliar a verdade

Estudo mostra que as declarações seguidas de imagens, pertinentes ou não, são mais convincentes.

©Netfalls---Remy-Musser/Shutterstock
Confie, mas verifique.
Depois de cada um dos debates presidenciais, a mídia lutou para decidir, entre outras coisas, qual dos candidatos foi mais verdadeiro. Os observadores trabalharam pesado, tentando descobrir qualquer imprecisão no que disseram o presidente Obama ou o governador Romney. No entanto, não esperamos o jornal do dia seguinte para fazer julgamentos. Seja assistindo aos debates, vendo os comerciais, ou lendo a literatura da campanha, sempre temos uma sensação que nos diz quem é verdadeiro. De onde vem essa sensação?                                                           

O humorista Stephen Colbert estimula sua plateia a confiar nos próprios instintos em relação ao que foi batizado de “sensação de verdade”. Essa sensação, de acordo com o Merian-Webster de 2006, é “a qualidade de parecer verdadeiro de acordo com a própria intuição... sem dizer respeito à lógica ou a evidências fatuais”. Apesar de Colbert merecer crédito por cunhar a palavra, os psicólogos sabem que pessoas confiam em seus sentimentos para chegar a todos os tipos de conclusão, e um artigo recente esclarece uma situação que parece nos conduzir a fortes sentimentos de verdade – a presença de informações adicionais (mas irrelevantes).

A pesquisa descobriu que uma afirmação na presença de imagens ou informações adicionais aumenta a sensação de verdade provocada por uma pessoa, mesmo quando essas informações não evidenciem ou comprovem a afirmação. Isso é especialmente importante no contexto de campanhas políticas, já que sugere que a simples presença de uma foto ao lado das afirmações escritas de um candidato pode influenciar a confiança das pessoas. E o trabalho é outra demonstração da facilidade com que pensamentos, crenças e comportamentos podem ser manipulados por meios relativamente inócuos.    

Os autores, pesquisadores da Victoria University of Wellington, da Kwantlen Polytechnic University e da University of Victoria, conduziram quatro experimentos. Nos primeiros três estudos, participantes observaram nomes de celebridades, mostrados um de cada vez. Alguns dos nomes também tinham uma imagem ou uma breve descrição verbal anexa. Por fim, metade dos participantes julgou a verdade da afirmação “essa pessoa famosa está viva”, enquanto a outra metade julgou a verdade de “essa pessoa famosa está morta”. Os participantes eram mais inclinados a julgar uma afirmação como verdadeira quando acompanhada por uma imagem ou uma descrição curta, independente de a afirmação dizer que o indivíduo estava vivo ou morto. O efeito foi mais forte para celebridades menos conhecidas.

Em um experimento relacionado, os pesquisadores mostraram que o efeito não era único para celebridades. Participantes observaram afirmações triviais, algumas acompanhadas por fotos que não forneciam evidências de sua veracidade, e disseram se a afirmação era verdadeira ou falsa.

Ao lado da afirmação “macadâmias estão na mesma família evolutiva dos pêssegos”, por exemplo, o participante poderia ver a foto de uma macadâmia. As fotos aumentaram a tendência de qualificar afirmações como verdadeiras.

Imagens irrelevantes alteram nossas percepções da verdade ilustra o funcionamento de nossas mentes. Nossos julgamentos não são baseados apenas na informação em si, mas na maneira como essa informação é processada e organizada.

Há muito se sabe que a facilidade de processar informações leva a tendências específicas. O raciocínio é o seguinte: quando considera uma nova informação, uma pessoa tenta se lembrar de outras informações correlatas. Quanto mais facilmente essas informações forem recuperadas, mais provavelmente a nova informação será marcada como verdadeira.

Então, se você ouvir que “os olhos de uma avestruz são maiores que seu cérebro”, você tentará se lembrar de todas as informações que você conhece sobre avestruzes, olhos e cérebros. Quanto mais facilmente você trouxer essas informações à mente, mais inclinado você estará para decidir que a afirmação é verdadeira (spoiler: é verdade).

Essa facilidade de lembrar é conhecida como fluência, e o efeito da fluência é extremamente vasto. Enquanto o presente artigo mostra que julgamos informações fluentes como mais verdadeiras, trabalhos anteriores mostraram que rostos processados fluentemente são julgados como mais atraentes, e nomes processados fluentemente são mais frequentes. De fato, o prêmio Nobel de 2002 foi concedido a Daniel Kahneman por um trabalho que mostrava, entre outras coisas, que a facilidade com que conseguimos trazer informações à mente leva a uma variedade de tendências na tomada de decisões.

Apesar de os autores acreditarem que essa explicação da fluência é a mais provável, atualmente é impossível eliminar outras explicações. Os autores especulam que é possível, por exemplo, que uma imagem ou texto leve pessoas a procurar evidências preferencialmente consistentes com a afirmação. Por exemplo, se observarmos a foto de uma celebridade e a afirmação “esta pessoa está viva”, podemos procurar elementos da imagem que forneçam apoio para a afirmação que ele ou ela está vivo, e ignorar os elementos da imagem que possam sugerir que a pessoa esteja morta, como sinais de que a foto vem de uma década passada. Outros trabalhos deverão ser capazes de desemaranhar a explicação mais correta.

Com profundas desculpas a Colbert, essas descobertas sugerem que seria sábio sermos mais críticos com nossas sensações de verdade. Aquela afirmação saudável em sua caixa de cereal está acompanhada por uma imagem? As afirmações de segurança da propaganda de carro em sua revista estão ao lado de outras informações sobre o veículo? A afirmação de um fato em um website aparece ao lado da foto do autor? Como os [Estados Unidos viverá] com as consequências dessa eleição presidencial pelos próximos quatro anos, [os americanos deveríam] prestar muita atenção não apenas às informações apresentadas pelos candidatos, mas também à maneira como apresentam essas informações. Há muitos casos em que confiar na verdade que vem de seus instintos poderia significar que você está se submetendo a algo menos que a verdade. Em outras palavras: se a sensação for boa, questione.
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