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Armas nucleares, ogivas e Guam: o que acontecerá a seguir?

Sanções não colocarão fim a "guerra fria" com a Coreia do Norte, mas a diplomacia ainda está no jogo, diz especialista

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As notícias perturbadoras, do começo da semana, sobre a Coreia do Norte provavelmente ter feito uma miniatura de uma ogiva nuclear que pode caber dentro de um míssil de longo alcance foram intensificadas pelas de quinta-feira, dia 10 de agosto. Segundo elas, o país supostamente está elaborando planos de disparar quatro delas sobre Guam, território insular dos Estados Unidos no oeste do Pacífico. Ameaças militares feitas pelo regime do líder norte-coreano Kim Jong-un contra os EUA e seus aliados não são novidade, mas relatórios recentes da inteligência, juntamente com testes do mês passado de um míssil balístico intercontinental (ICBM, na sigla em inglês) possivelmente poderoso o suficiente para alcançar partes do país norte-americano, sugerem que que a Coreia do Norte logo pode ter a tecnologia para sustentar essas ameaças.

Por mais de um ano, analistas têm especulado que a Coreia do Norte - formalmente conhecida como a República Popular Democrática da Coreia - estava trabalhando rapidamente para alcançar o objetivo de construir uma ogiva nuclear pequena o bastante para caber em um ICBM. Em março de 2016, o regime de Kim Jong-un soltou uma série de fotos publicitárias do ditador ao lado de uma bola prateada brilhante - chamada, como brincadeira, de uma “bola de discoteca” - a qual, posteriormente, foi identificadacomo modelo de um modelo de uma mini ogiva.

As tensões entre os EUA e a Coreia do Norte flutuaram no decorrer da última década, desde o primeiro teste nuclear de Pyongyang em 2006. Em sua maior parte, as detonações nucleares e testes de mísseis da Coreia do Norte foram respondidas com sanções e exercícios militares conjuntos entre os EUA e a Coreia do Sul para deter as ambições nucleares de Kim Jong-un.

A controvérsia crescente entre o presidente estadunidense Donald Trump e Kim Jong-un nos últimos dias elevou as tensões ao nível mais alto em anos. A Scientific American conversou com Patrick Cronin, diretor sênior do Centro para um Novo Programa de Segurança dos Estados Unidos na Ásia e no Pacífico, em Washington, para entender melhor como chegamos a esse ponto e o que podemos esperar a seguir.

[Segue uma transcrição editada.]

Como a Agência de Inteligência de Defesa dos EUA (DIA, na sigla em inglês) determinaria que o país possui uma miniatura de ogiva nuclear que caberia em um míssil?

A DIA usaria [informações de uma gama de fontes] para fazer uma estimativa informada da ameaça. Análises detalhadas fariam a diferenciação entre o que foi verificado e o que foi extrapolado. Por exemplo, a famosa foto de Kim Jong-un com a bola de discoteca foi analisada como representando a miniaturização menos a tecnologia de reentrada e de orientação. O lançamento do teste mais recente de ICBM sugere progresso em um veículo de reentrada. Então, juntando informações de fontes abertas, parece prudente que um analista de inteligência estime que a Coreia do Norte alcançou esse potencial. Pyongyang tem trabalhado nesses sistemas por muito tempo e eles são prioridade para Kim Jong-un. Ninguém fora do país conhece precisamente o potencial nas mãos de Kim, mas a estimativa parece ser uma tentativa de fornecer alguns limites para elas - para fazê-las públicas antes de Kim buscar vantagem coercitiva “surpreendendo” o resto do mundo com futuras demonstrações tecnológicas ou paradas.

Como as sanções pretendem deter os planos da Coreia do Norte de construir um arsenal nuclear?

Sanções direcionadas podem ajudar a desacelerar os programas norte-coreanos e impor penalidades à Kim e às elites do país, incluindo aquelas associadas a entidades envolvidas com [armas de destruição em massa] e programas de mísseis. Sanções são um meio de exercer pressão, assim como a possibilidade de remover sanções é um meio de dar incentivo para desistir de certas atividades. Portanto, sanções são parte de uma política muito maior de “recompensa e punição” para orientar a Coreia do Norte em direção a uma posição de negociação mais agradável. Infelizmente, os interesses coincidentes entre a Coreia do Norte e os EUA são limitados a objetivos gerais, como evitar a guerra nuclear. Isto é, Pyongyang deseja possuir armas nucleares permanentemente e os EUA estão comprometidos a uma península coreana desnuclearizada, e isso deixa pouco meio termo.

Assim, a administração atual está mais focada em sanções secundárias a essas entidades que estão fazendo negócios com a Coreia do Norte do que os governos anteriores estiveram. O foco está amplamente na China, e, aqui, as sanções têm o objetivo de incomodar e persuadir o país a exercer uma pressão ainda maior na Coreia do Norte. Washington está se apoiando em Pequim para fazer Pyongyang retornar à barganha e desistir de uma sexto teste nuclear ou de implantar um ICBM.

E essa estratégia funcionará?

Provavelmente não. Então, isso significa que, por enquanto, estão presos em um impasse perigoso, mas talvez manejável. Se a Coreia do Norte não encontrar agora ao menos alívio tático na diplomacia, talvez busque uma pausa nos próximos meses. Porém, isso não significa que, durante este contínuo, crescente e intensificado bloqueio nós [não seremos] capazes de moldar uma diplomacia útil. Medidas de construção de confiança para evitar escaladas inadvertidas ou usos acidentais de força podem ser possíveis. Com o passar do tempo, um descongelamento ou distorção também poderiam ocorrerr. Contudo, por ora, salvo uma maior vontade política da parte de Pyongyang para desacelerar a implantação de mísseis balísticos de alcance intermediário (IRBMs, na sigla em inglês) e ICBMs, deveríamos nos preparar para uma maior dissuasão e uma diplomacia arriscada.

O quão significativas são as ameaças norte-coreanas contra Guam?

Como [as administrações] Obama e, agora, Trump usaram bombardeiros B-52 e B-1B baseados em Guam para demonstrar a determinação e ressaltar a dissuasão, Pyongyang lançou declarações amargas e ameaçadoras para os Estados Unidos, especialmente para as bases militares dos EUA na região. Como resultado, a Coreia do Norte ameaçou Guam implicitamente no passado. Os avanços recentes no poderio de mísseis do país, demonstrados especialmente desde o ano passado, agora dão às ameaças uma pátina de credibilidade. A ameaça de disparar mísseis para Guam é, em parte, uma indicação do que Kim pensa que ele poderia fazer.

A Coreia do Norte possui mísseis confiáveis o bastante para sustentar sua ameaça?

Embora, disparar quatro IRMBs desarmados de confiança questionável em direção a Guam possa produzir um acidente letal que demande alguma resposta dos EUA, o risco pode valer a pena para Kim. Ele pode calcular que um teste não desencadearia uma guerra e poderia fazer os EUA parecerem fracos, ao menos na ausência de uma resposta forte do país. Kim está investigando os limites de uma força não-letal, encorajado por seu recém-descoberto potencial, mas ele definitivamente não está procurando uma guerra real. Ele quer que a mídia ocidental faça sua propaganda, para converter seu ainda limitado arsenal de armas de destruição em massa em um potencial suficiente para intimidar a audiência. Os Estados Unidos não têm intenção de iniciar um conflito e estão bastante cientes sobre as apostas. Porém, o presidente deseja ser inequívoco quanto ao potencial dos EUA e responderá a qualquer ataque contra o país ou seus aliados.

O quão importante serão as negociações, comparadas com a construção do potencial estadunidense de mísseis antibalísticos?

É mais fácil ver como esta guerra fria será prolongada do que terminada. Uma maior defesa é algo o qual sabemos como fazer e, juntamente com os aliados, podemos continuar a nos fortalecer, preservar a dissuasão e conter os benefícios coercivos quer Pyongyang procura extrair com barulho. Uma guerra repentina continuará sendo uma possibilidade remota, se não trivial, é claro; mas a probabilidade é uma disputa prolongada e uma relação de guerra fria pontuada por ataques de diplomacia, possíveis medidas de redução de risco, talvez até algum tipo de desvio. A mais longo prazo, o final pacífico mais provável para o Nordeste da Ásia seria a mudança interna que vem da Coreia do Norte. Ironicamente, a construção de armas nucleares que interrompem a intervenção é apressada, levando em consideração que Kim deve entregar produtos econômicos a mais pessoas ou arriscar perder a legitimidade ganha até agora, com base no medo causado por mísseis nucleares.

Larry Greenemeier
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